quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A ESTÁTUA


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“Quem terá sido aquele?” Passávamos ao lado da praça. Pequena, retangular, sem bancos – como pode?, pensei – duas castanheiras raquíticas postas aleatoriamente, os restos algo arruinados de contornos de cimento e mosaico guardando o que outrora fora um projeto de jardim e, no centro, a estátua, ou melhor, o busto e seu olhar fixo, fitando o vazio.

“A imobilidade das estátuas me incomoda”, continuou. Propus pararmos e descobrirmos quem teria sido o homenageado. Estacionamos. Ao longe, por trás – ou pela frente? – uma pequena capela antecedida por um cruzeiro de madeira relativamente grande, postado em um pedestal também retangular de cimento. Em uma placa feita de metal barato, corroída pela ferrugem, um nome e uma data, talvez a da inauguração. Nada mais. Sobre o topo do busto excrementos dos pombos que rurulavam ao nosso redor, nitidamente incomodados com a quebra de sua rotina, compunham uma estranha e irregular coroa esbranquiçada.
“E agora?”. Apontei para algumas pessoas que passavam ao lado. “Vamos perguntar a elas”. Em vão nosso esforço. Eles bem que tentaram. Não sabiam quem tinha sido. Olharam um para o outro e arriscaram dizer que ouviram falar que fora um homem muito rico. Só.

“Agora é uma questão de honra”. Fatigamo-nos perguntando aos passantes. Nada. Sugeri irmos à Prefeitura. Pegamos o carro e fomos embora, não sem um último olhar para o busto, ou melhor, para os olhos imobilizados olhando o infinito além da realidade que o cercava, indiferente a sol, chuva, vento, poeira e cocô de pombos.

Na Prefeitura mandaram-nos logo até o chefe do arquivo-morto, um velhinho inquieto, seco, mirrado, de bigodinho fino à lá Rodolfo Valentino, tão carcomido quanto os papéis que ele guardava e com os quais se confundia de uma forma tão perfeita que nenhuma literatura conseguiria expressar. “Aquele”, perguntou, “ah, faz tempo...” “Foi um homem rico que doou terras para a construção de uns prédios para a Igreja”. “Não tem mais parentes aqui”.

“Por que não limpam o busto e colocam uma placa explicando quem ele foi?” “Bom, meu senhor, como pode ver eu sou apenas um guarda-livros. O Prefeito é outro”. “E onde ele está?” “Que eu saiba, viajando.”

Depois, a estrada. “A glória é vã, a glória é vã, a glória é vã”, repetia meu amigo, como a querer inculcar definitivamente, em seu espírito, essa concepção acerca da fatuidade da luta do homem para sobressair. A seu tempo e a seu modo, mesmo aqueles que ocuparam por um longo período a atenção dos homens terminam desconhecidos quando confrontamos aquilo que ele realmente foi com sua descrição feita pelos historiadores. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, tu és pó e ao pó retornarás”, prosseguia ele, enquanto sua cantilena confundia-se com o barulho do motor do carro, a paisagem passava rápida e nós, aos poucos, esquecíamos esse episódio que muito depois seria um borrão na nossa memória e uma crônica misto de muita fantasia, pouca realidade e alguma verdade.

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