sexta-feira, 15 de maio de 2026

DE REDES SOCIAIS E ETCETERA

 

Arte: Fido Nesti


* Honório de Medeiros
* honoriodemedeiros.gmail.com
* @honoriodemedeiros


A pandemia suscitou as "lives" e etcetera. 

São de todo o tipo e modelo.

Abordam desde culinária a física quântica.

Acrescentou a possibilidade de visualizar os debatedores, os gênios da raça, os "influencers", os comentaristas, e isso é muito significativo. 

Tudo isso tornou o debate mais fragmentado, curto (tempo), democrático e raso. Bastante raso.

Golpeou-se fundo esse velho companheiro, o livro, principalmente aquele que expressa o pensamento vertical, difícil de ser horizontalizado, próprio dos livros canônicos.

C'est la vie, c'est la belle vie, c'est la vraie vie, c'est ça la vie...

quarta-feira, 13 de maio de 2026

ESTAMOS CONDENADOS AO MAL?


 

* Honório de Medeiros

* honoriodemedeiros@gmail.com

* @honoriodemedeiros


De Um Cigano Fazendeiro do Ar, densa biografia de Rubem Braga que devemos a Marco Antônio de Carvalho, colho um trecho da carta de João Neves a Borges de Medeiros em 20 de julho de 1932, na qual ele se refere a Getúlio Vargas, todos companheiros muito próximos na Revolução de Outubro de 1930:
“Eu preferia que o Dr. Getúlio Vargas fosse um tirano. Perdôo mais os violentos que os astutos. Mas o nosso ditador é um homem gelado, calculista, escorregadio. Não ataca, desliza. Não enfrenta, corrompe. Não congrega, divide. (...) Desbaratou o poder civil. Desmoralizou o Exército. Aniquilou o sentimento local. Amesquinhou a justiça. Instituiu o regime da delação. Oficializou a vingança contra os que o ajudaram a subir. Esqueceu os compromissos. O favoritismo é uma instituição. A negociata é a regra. Enfim, a República Nova com dois anos de idade incompletos, é mais corrupta do que foi a Velha, com mais de quarenta e um”.
Lembra quem e o quê, a vocês?
Em O 18 Brumário de Luis Bonaparte, Karl Marx, no primeiro parágrafo, expõe que a história acontece “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
Assim como a terceira, a quarta, a quinta...
Do início da história do Homem, até os dias de hoje, mudaram os artefatos: antes, as ferramentas de pedra; hoje, a Inteligência Artificial. 
Não mudou o Homem.
Recomendo a leitura de A Assustadora História da Maldade, de Oliver Thomson; Prestígio Editorial.
História antiga, essa da maldade. Em Thomson, lemos:
“O Egito foi unificado por Menés por volta de 3100 a.c. Talvez o primeiro herói conquistador da história (e mesmo ele era semimítico) tenha sido Horus Ro, do Egito, cujo filho era conhecido como ‘O Escorpião’, príncipe que explorou o medo em grande escala para impor sua vontade. Fundou a Iª Dinastia por volta de 3000 a.C. Em honra às suas vitórias, fez sacrifícios humanos a Ra, o deus do Sol. Seu herdeiro, Horus, supostamente matou 381 prisioneiros de guerra e arrancou a língua de 142. Esse é o primeiro registro de um imperialismo sádico e egocêntrico que reaparece de tempos em tempos nos próximos 5 mil anos”.
Antigo demais, tais fatos, para que chamem nossa atenção? Leia novamente o último parágrafo do texto acima.
E, agora, leia o texto abaixo, de um dos maiores pensadores da modernidade, junto com Noam Chomsky, o sociólogo Zygmunt Bauman, pinçado de Isto Não É Um Diário:
“As nações relutam em aprender; e, quando o fazem, é sobretudo a partir de seus erros e equívocos passados, do funeral de suas antigas fantasias. ‘Enquanto o Pentágono rebatiza a Operação Liberdade no Iraque de Operação Nova Aurora’, diz Frank Rich, citando o professor Andrew Bacevich, de Boston, ‘nome que sugere creme para a pele ou detergente líquido’, 60% dos americanos creem – agora – que a Guerra do Iraque foi um engano, mais 10% a condenam como algo que não vale a vida dos americanos, e apenas um em cada quatro acredita que essa guerra o tenha tornado mais seguro em relação ao terrorismo. O custo oficial da guerra para os americanos é hoje (no momento em que o presidente Obama pede aos americanos que ‘virem a página sobre o Iraque’) estimado em US$ 750 bilhões. Por esse dinheiro, cerca de 4.500 americanos e mais de 100 mil iraquianos foram mortos, e pelo menos 2 milhões de iraquianos foram forçados a se exilar, enquanto o Irã acelerou seu programa nuclear, e ‘Osama bin Laden e seus fanáticos’ foram liberados ‘para se reagrupar no Afeganistão e no Paquistão’”.
Estamos condenados? Que lhes parece?
 
* Arte pinçada em rabiscosdeumlapisdesgastado.blogspot.com

segunda-feira, 11 de maio de 2026

PADRE HUBERTO BRUENING

 

Pe. Huberto Bruening



* Honório de Medeiros
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros


Final da década de sessenta. 

Pelas ruas mal iluminadas de Mossoró um homem muito alto, magro, de aparência ascética, portando uma sotaina cinza clara, candeeiro a gaz na cabeça, puxava, sotaque forte, estranho, ante meus olhos infantis, a procissão em louvor a Santa Luzia.

As formas tinham contornos imprecisos, gerados pela luz parca, e o hino, cantado em ritmo monocórdico, entremeado de aves-marias e pai-nossos, costurava, em minha imaginação, uma auréola de mistério em torno do sacerdote já famoso por sua austeridade.

A imagem que minha memória havia guardado foi a que primeiro me veio aos olhos da mente quando meu pai me dissera, tempos atrás, em tom de pesar, pelo telefone, que Pe. Huberto "descansara".

Até então éramos, mesmos os mais ausentes dos mossoroenses, cúmplices em uma mesma liturgia: sabermos notícias da sua saúde. 

Agora, ao nos encontrarmos, trocávamos impressões, lembrávamos fatos...

Porque, no final das contas, todos os de nossa geração, além dos muitos que nos antecederam, de uma forma ou de outra, em algum momento, estiveram sob o alcance daquele olhar claro, firme, pouco complacente.

Talvez ninguém venha expressar, como Emery Costa o fez, o sentimento de Mossoró por Pe. Huberto.

Em uma sua coluna diária, nos contou como o mossoroense reagiu à sua morte. E observou, no final, emocionado com a demonstração de afeto que ele recebera quando do velório e do sepultamento: "ainda vale a pena ser bom".

É verdade. Eu apenas diria que mais que bom, Pe. Huberto foi virtuoso. 

Claro, todos nós sabemos que a bondade é uma virtude. Entretanto, ele foi mais que bom, porque viveu aquilo no qual acreditava, e sua vida foi um exemplo de coerência entre discurso e prática.

Assim, não sucumbia a qualquer tentativa de ser portador de uma "bondade" tipicamente nordestina, ou mesmo brasileira, relaxada, condescendente, aquela mesma que é uma fuga aos compromissos com a verdade que liberta, fiel aos princípios morais.

Não que deixasse, ao molde de Spinoza, de compreender, para não rir nem chorar, e tal compreensão fosse integrada pela bondade, como objetivo evangélico para melhor servir aos desígnios da Igreja.

Entretanto, em sua alma cartesiana, estudiosa, culta, de formação quase jesuítica, o rebanho de Deus também precisava de disciplina para escapar às tentações do mal e, em assim sendo, a bondade não é apenas o afago do perdão, mas, também, o látego da advertência.

Mossoró se despediu de Pe. Huberto tendo entendido, dentro de si, aceito e respaldado, esse "ser" virtuoso que o caracterizava tão bem.

A cidade acompanhou seu caixão como se além da saudade, fosse conviver com a ausência de uma referência.

Assim se estabelecia, como que fazendo um contraponto, a diferença entre o singelo, o humilde, o honrado que se ia, e a escória que fica.

E o sepultou nos fazendo crer que há alguma esperança na espécie humana. quando distingue tão claramente quais dos seus devem ser homenageados na hora da despedida final.