domingo, 29 de março de 2020

DONA EFIGÊNIA EM SUA TEIA



Dona Efigênia pontificava naquela rua onde morei.
Muito gorda, um pouco surda – talvez por puro cálculo –, passava o dia sentada em uma cadeira de balanço com espaldar de palhinha na sua ampla sala de estar, que dava para um jardim lateral, onde ficava o portão de ferro batido, pintado de branco, a lhe separar do resto do mundo.
Casa antiga, senhorial, de esquina.
Sempre perfumada alfazema, penteada e bem vestida, ficava o dia inteiro, tirando as fartas refeições, colada a uma mesinha redonda cheia de quinquilharias, na qual reinavam o telefone e o rádio. Tempos antigos.
“Prefiro o rádio”, disse-me ela uma vez quando lhe perguntei qual a razão do eterno silêncio da televisão. “As pessoas participam”.
Eu cumpria fielmente o ritual de visitá-la quando ia à sua cidade. Que era a nossa. Tenho certeza de que ela gostava de minhas visitas. Prova-o o doce de coco verde sempre disponível e do qual eu gostava imensamente.
Acredito até saber a razão de sua simpatia para comigo: ao contrário da grande maioria dos que a procuravam, eu não estava interessado em fofocas, ou, melhor dizendo, meu interesse era secundário, existia apenas na justa medida em que ilustrava alguma opinião sua a respeito de fatos e pessoas, essa sim extremamente interessante, a revelar um agudo poder de observação e análise.
Pois Dona Efigênia, viúva, com pensão mais que razoável deixada pelo falecido, filhos dispersos pelo mundo, era uma renomada e rematada fofoqueira, na opinião de alguns.
Talvez fofoqueira não fizesse jus ao que de fato ela era. Como uma aranha postada no centro de uma imensa teia, ela recebia, analisava e devolvia informações ao longo do dia de uma imensa variedade de informantes: serviçais, comadres, afilhados, sobrinhos, primos, amigos, o carteiro – por quem tinha especial predileção, dado que vivia batendo perna pelos cantos – o leiteiro, as crianças da rua, os vizinhos, pessoas de outros lugares, o padre, o rádio e o telefone.
Devo ter esquecido alguma coisa, óbvio, mas não esqueço sua sala de visitas quase sempre cheia e ela em silêncio escutando, até que, em determinado momento, chamava alguém para sentar em um banco baixo estrategicamente colocado perto da cadeira de balanço, e cochichava algo durante alguns minutos após os quais a conversava era dada por encerrada.
Quando a conheci supus que aquela sua atividade começasse e acabasse conforme comentavam os maledicentes. Diziam que ela era o tipo acabado da velha fofoqueira.
Depois de algum tempo compreendi que criara essa camuflagem. Era assim mesmo que queria ser enxergada. A camuflagem ocultava o verdadeiro propósito de sua atividade diária.
Através da colheita de informações, ficava sabendo o que de errado havia acontecido no seu entorno. Talvez alguma gravidez indesejada, uma demissão inesperada, uma prestação do colégio atrasada, uma virgindade perdida, um exame médico além do alcance de quem dele estava precisando, uma traição que se consumava, uma despensa desabastecida, uma violência doméstica cometida, um recém-nascido abandonado. Pequenas grandes mazelas.

Então entrava em ação: chamava um, chamava outro, cobrava antigos favores, pedia novos, recebia dinheiro de quem lhe devia e repassava para quem estivesse precisando, e a perder de vista, dava carões, espalhava conselhos, apontava caminhos, indicava obstáculos, aproximava pessoas, afastava outras, mandava fazer, mandava desmanchar...
E, assim, disfarçadamente, realizava um metódico, complexo e minucioso bordado social. Bordado do bem.
Dona Efigênia, há muito, descansa em paz e, se existe Céu, nos braços do Senhor.

Ao longo da vida me pego, de vez em quando, lembrando de alguma observação sua. Paro, componho em minha mente o quadro de sua presença naquela sala de estar hoje silenciosa, sentada na sua cadeira de balanço, abro seu breviário, e me ponho a ler, e essa é a minha oração em louvor de sua memória.

terça-feira, 17 de março de 2020

VIAJANDO O MEU APARTAMENTO

Xavier de Maistre

Em luta sem quartel contra esse inimigo oriundo do coração da China, e que se vale de seu tamanho microscópico para fugir do combate direto, olho no olho, resolvi, levando em consideração certas medidas ditadas não pela covardia, mas pela astúcia, e tendo em vista minha condição de sexagenário, levantar a ponte levadiça do meu castelo e ataca-lo com táticas de guerrilha, ou seja, fugir do contato pessoal, como os russos fizeram contra Napoleão, enquanto ele esmorece e fica fragilizado, alvo fácil para um contra-ataque.

Lembrei-me, então, de Xavier de Maistre, e levando em consideração que o mesmo sentou praça no exército russo e chegou a general, o que vem ao encontro do meu ânimo belicoso contra o inimigo chinês, mas muito melhor que isso, escreveu uma obra notável que o lançou definitivamente na imortalidade, denominada "Viagem em Volta do Meu Quarto", escrita em 1794, na qual relata o que aconteceu com ele nos quarenta e dois dias que passou confinado no seu quarto, resolvi seguir seu exemplo, apenas ampliando um pouco mais o espaço no qual pretendo circular.

Assim como Xavier (já o considero íntimo), pretendo escrever um diário acerca do meu confinamento. Isso, desde já, me coloca como sério candidato a escritor mundialmente desconhecido, para utilizar o bordão predileto de um amigo idoso ao qual não nomino em respeito a sua luta desesperada para não se dar por vencido ante os achaques da idade.

Passarei, portanto, quarenta e dois dias confinados em meu apartamento. 

A introdução do meu livro de Xavier de Maistre - eu o li em fevereiro de 2011, é assinada por Sandra M. Stopparo, que também o organizou e traduziu.

Publicação da editora Hedra, São Paulo, 2009. Gostei, de cara, de uma afirmação que ela fez no seu texto, louvando a literatura do século XVIII. Não sei se está certa ou errada. Sei que como pretendo me valer desse auto-confinamento belicoso para imitar Xavier de Maistre, seu pensamento me valeu como uma luva. 

Diz Stopparo:
"Toda a força argumentativa do século XVIII se coloca aqui a serviço da literatura. Laurence Sterne é o principal parâmetro literário, assim como todos os escritores moralistas do período: fazer de qualquer tema, motivo, dúvida ou certeza uma razão para longas elucubrações é o método preferido da época, que vai do salão ao texto filosófico e às melhores páginas literárias."

Ou seja, pelo que eu entendi, tanto faz um vírus como uma revolução, qualquer tema é bem vindo, e o  importante é argumentar.

Talvez possamos compreender esse dito de Stopparo (é de 2009) como uma verdadeira antecipação do facebook, por exemplo, hoje um espaço virtual repleto de doutores em física quântica, economia marginalista; matemática tensorial, ciência política; filosofia pré e pós moderna e outros assuntos ditos menores. Quase nada acerca de quase tudo.

Explanado tudo isso, e louvado no incentivo de Stopparo, e amparado por Xavier de Maistre, aqui vou eu.


domingo, 15 de dezembro de 2019

IDENTIDADE PRÓPRIA

* Honório de Medeiros

Então essa compulsão ansiosa para informar os outros, em se descrever aos outros, nada mais é que a tentativa de construir uma identidade própria, não múltipla, não fragmentada, de reunir todos os cacos de si, desde os que nós mesmos fabricamos aos que os outros propõem, em uma única identidade que se imponha ao caos pessoal e social, numa luta às vezes desesperada para sobreviver nesse mundo hostil.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

PARECE JUSTO?

* Honório de Medeiros
Soube que o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa deram um aumento substancioso aos Procuradores do Estado, da própria Assembleia, do Tribunal de Contas e aos Defensores Públicos.
Retroativo a 1º de Abril.
Nada mais justo.
Justificaram dizendo que cumprem a Lei.
Não é verdade. A Lei diz que pode ser dado, não que se dever dar.
Mas e o restante dos servidores, que sequer receberam seus salários de novembro, dezembro e o 13º de 2018?
Nesse caso a Lei diz que se deve pagar, não que se pode pagar.
Quer dizer que o Governo e a Assembleia pagam quando não devem, a uns, e devem mas não pagam, a outros?
Como é isso? Parece justo?

sábado, 23 de novembro de 2019

CANGAÇO E CORONELISMO NO RIO GRANDE DO NORTE


* Honório de Medeiros

O bando de Lampião em Limoeiro, Ceará, no dia 15 de junho de 2017, logo depois de invadir Mossoró e ser rechaçado.
O coronelismo e o cangaço, tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, mais precisamente de meados do século XIX a meados do século XX, são manifestações do Poder, de como ele é obtido, mantido e até mesmo combatido, em intrincada trama, ao longo do processo histórico. 

A forma como o Poder é instaurado diz respeito a fatores circunstanciais, tais quais o avanço tecnológico ou cataclismos ambientais, mas a essência, qual seja a presença da imposição da vontade de alguns sobre outros, permanece a mesma desde que o Homem surgiu na face da terra. 

As narrativas acerca do coronelismo e cangaço devem ser analisadas levando-se em consideração o fator de "ocultamento" próprio da atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, dizer, omitir, acrescer, manipular, enfim, tudo isso e mais, cumprem o papel de narrar como os fatos ocorreram a partir da perspectiva de quem pode impor sua percepção das coisas e dos fenômenos, em detrimento da verdade. 

Sempre tratamos o coronelismo e o cangaço pelo “como” os fatos aconteceram, até mesmo de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar acerca de suas causas e intenções e suas relações com o Poder. Quem critica o estudo do Cangaço, mesmo de forma oblíqua, tratando-o como algo menor dentre os epifenômenos da cultura sertaneja, hostiliza a História e não entende o que é o Poder. 

Não houve manifestações violentas do Coronelismo no Sertão nordestino sem um entrelaçamento com o banditismo rural; não houve Cangaço sem Coronelismo. Acrescentemos a esses ingredientes o fanatismo messiânico e teremos um ponto-de-partida concreto e verossímil para a real história da época dos coronéis e cangaceiros. O ponto-de-partida é o cangaceiro, começando com Jesuíno Brilhante, o primeiro dos grandes, a história dos coronéis do Cariri cearense, e a vida do mítico Padre Cícero do Juazeiro. 

No Rio Grande do Norte é difusa, porém persistente, a concepção de que seus coronéis eram homens afastados da violência, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Apodi, por Massilon, e Mossoró por Lampião, tratados como “pontos fora da curva”, pouca relevância teve em nosso Estado. 

São "esquecidas" as relações dos coronéis com José Brilhante, o “Cabé”; a do Coronel João Dantas com Jesuíno Brilhante; a invasão de Martins; a invasão de Apodi e sua relação com coronéis apodienses; a invasão de Mossoró e sua relação com coronéis paraibanos e cearenses; a morte de Chico Pereira e sua relação com o coronelismo paraibano e potiguar. O mesmo ocorre quanto a “hecatombe de 1918” em Pau dos Ferros, verdadeira briga entre coronéis potiguares, semelhante àquelas travadas entre seus congêneres do Cariri cearense. 

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, e se constituem em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos, terminando tragicamente na famosa eleição de 1934-1935, na qual houve o assassinato do Coronel Chico Pinto e o de Otávio Lamartine, filho do ex-governador Juvenal Lamartine, e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar. 

Todas essas atividades violentas protagonizadas por cangaceiros estão conectadas com o coronelismo. Todas elas são faces da disputa pelo Poder Político. 

O cangaço, por si somente, é a história do último suspiro dos desbravadores do Sertão nordestino, nossos ancestrais, aqueles mesmos que disputaram a terra contra índios ferozes, palmo a palmo, sangue a sangue, a ferro e fogo, numa guerra longa, cruel e esquecida por todos. A guerra dos bárbaros. 

O cangaço é a história de homens que resolveram se vingar de uma injustiça; de homens que não aceitaram ser escravos e optaram por fazer das armas meio-de-vida; de homens que optaram por sobreviver SEM LEI E SEM REI, em uma liberdade absoluta, uma liberdade de fera, aquela liberdade anterior ao surgimento do Estado, da qual nos falou Hobbes em O Leviatã. 

O cangaço é a história de rebeldes, certos ou errados. Podemos subjugar rebeldes. Podemos condenar rebeldes. Podemos matar rebeldes. Mas não podemos impedir que a memória de suas existências nos provoque. Podemos não aceitar os rebeldes, mas podemos tentar compreendê-los, tenham sido cangaceiros, coronéis, ou fanáticos, e em os compreendendo, aprendermos as lições da história.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

CETICISMO, AUTO-CRÍTICA E INCONFORMISMO.

* Honório de Medeiros

O apático moral é um cético, mas nem todo cético é um apático moral.

Aquele que não o é pode abraçar o inconformismo.

Nesse caso o ceticismo inconformista seria uma forma de interagir conosco e com tudo quanto nos envolve.

Uma arma para se defender do pântano do "status quo", e ir além do "ranço", do estabelecido ruinoso.

Ceticismo somente, não: conduz à apatia moral.

No ceticismo inconformista, duvidamos, questionamos, e nos manifestamos.

Mas é preciso cuidado: não é somente o Outro que não sabe; nós também não sabemos.

Não custa nada acendermos uma vela em homenagem a Sócrates.

Auto-crítica e ceticismo inconformista.

O primeiro para nos colocar em nossos reais limites; o segundo, para colocar os outros em seus reais limites.

domingo, 10 de novembro de 2019

ENSINO JURÍDICO: AS ARMADILHAS DA OMISSÃO.

* Honório de Medeiros

Uma das armadilhas que os tempos atuais impõem ao ensino jurídico, é o conforto da aula técnica, exclusivamente voltada para a interna realidade do ordenamento jurídico, onde o que importa é a argumentação dirigida para a norma jurídica e suas conexões com outras regras do sistema, quando muito se permitindo, o professor, um arremedo de independência dessa camisa-de-força ao tratar de de princípios jurídicos de conteúdo indeterminado, fluídico, sem consistência.

Tais princípios esbarram, entretanto, nos sólidos limites da vontade política, e eles nada mais são que barreiras levantadas pelo Estado e sua lógica de Poder, verdadeiros grilhões a serviço dos interesses de quem pode produzir, interpretar e aplicar a norma jurídica.

Ao se alienar consciente ou inconscientemente ao ocultar essa prática as questões subjacentes, essenciais, e que dizem respeito à própria estrutura do Direito, tal qual sua legitimidade, sua relação com o Poder, sua relação com o Justo, seu status obediente ao meramente técnico, seja por ignorância, seja por comodismo, seja por cinismo, os professores cumprem um papel pouco digno de reproduzir o modelo de exploração próprio da lógica dos que determinam as regras do jogo.

Em o fazendo, não questionando, não criticando, cravam, com o martelo da omissão, os pregos da submissão e alienação nas mentes dos futuros profissionais do Direito, ajudando, assim, a construir uma civilização doentia como essa que estamos deixando enquanto legado para nossos filhos.

sábado, 9 de novembro de 2019

IDEOLOGIA: A IDEOLOGIA É UM CREDO!

* Honório de Medeiros

E há os que acreditam em bandeiras ideológicas. O povo, bem mais sábio, diz pelas esquinas "é tudo igual". O sertanejo, esteio da raça: "é tudo farinha do mesmo saco".

De esquerda, Stálin, Mao, Fidel; de direita, Pinochet, Stroessner, Videla. Não vou falar em Hitler, Idi Amin Dada, Pol Pot e Sadam Hussein, aqueles de direita, estes de esquerda. E Franco? Kim Jong-un? Todos irmão siameses vestindo camisas com cores distintas.

A China é vermelha por fora e verde por dentro, por uma razão muito simples: o capitalismo é um fato, não uma ideologia. Já a ideologia é um credo, que os detentores do Poder usam de acordo com seus interesses.

O que importa, para quem joga o jogo do Poder, é o próprio Poder, puro e simples, ou seja, a capacidade de mandar e ser obedecido. 

Enquanto as ovelhas comem seu capim, os lobos se alimentam com sua carne, e ainda usam sua pele para fazer casacos. E elas acreditam que tudo é para seu bem.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

STF E BIRUTAS DE AEROPORTO, O

* Honório de Medeiros


Ontem, em julgamento acerca da possibilidade de prisão após decisão na segunda instância, que por sinal vai ficar na história, o STF ministrou algumas lições ao mundo.

Primeiro, provou por a+b que o Direito não é uma ciência, pois se seis ministros são a favor, e cinco contra, todos sabem tudo, e ninguém sabe de nada. Fico imaginando um convescote científico no qual resolvessem discutir a validade da Lei de Newton, quão saboroso seria.

Segundo, que o Direito nada tem com Justiça: algo não é Justo, ou deixa de sê-lo, se um Tribunal cinde ao meio acerca de um Valor.

Terceiro, que o Direito é aquilo que os que detêm a capacidade de produzir, aplicar e interpretar a norma jurídica querem que ele seja, tudo ao sabor das circunstâncias políticas.

Aliás, as decisões do STF são iguais às birutas de aeroporto ao sabor do vento: mudam de acordo com as circunstâncias políticas. O outro nome para "circunstâncias políticas" é PODER POLÍTICO, a capacidade que alguns têm de impor, aos outros, sua vontade, seja por manipulação, seja pela força.



O povo, com sua imensa sabedoria, sabe disso há muito tempo: "manda quem pode, obedece que tem juízo".




Enfim, com essa decisão, o STF alcança um patamar expressivo, em relação ao estudo do Direito: prova que ele nada tem de Ciência; nada tem de Justo; e que, na verdade, é (apenas), aquilo que o PODER POLÍTICO quer que ele seja.

domingo, 27 de outubro de 2019

TEMPO, UM ABISMO

* Antônio Gomes

Dia desses olhei para você, e me vi.
Éramos reflexos um do outro,
recortados em cores contra o claro-escuro.
Cores que esmaecem, tingidas de prata.
E sépia.
Como passaram rápidos os dias e as horas!
Abismo, o tempo: vidas que fluiram,
vertiginosas.
Agora somos silêncio, quase.
Pontes para um infinito desconhecido.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

SOLIDÃO E LIBERDADE

* Honório de Medeiros

Encontrei Antônio Gomes em Pau dos Ferros, no rumo de suas terras na Serra das Almas, fugindo do frio na Europa.

Tomamos um café coado no “Maria”.

Me disse que gostara muito de uma frase minha postada no blog.

- Qual?

- "Somente é livre quem pode dizer não". Mas observo que primeiro é preciso dizer sim ao projeto de dizer não para ser livre.

- Você sempre um sofista!

Ele riu e observou, quase que como para si mesmo, que “isso tudo o levara a compreender a solidão, no final da vida, de tantos artistas e pensadores...”

domingo, 20 de outubro de 2019

LAVA JATO

* Honório de Medeiros

Lentamente desconstroem a Lava Jato.
Parece uma orquestração infernal, da qual participam todos os poderes, todos, sem qualquer exceção, além da mídia atrelada, com o único intuito de transformar o que é certo, em errado; bom, em mal; justo, em injusto.
Sem entender o que se passa, o cidadão comum duvida de tudo e todos e se entrega à apatia.
A apatia é como água estagnada, domínio da podridão.
E, assim, eles vão vencendo.
E o que é ruim, fica pior.
E o desengano vence a esperança.
Essa noite tenebrosa não tem fim?

sábado, 19 de outubro de 2019

MARX, ROUSSEAU, POPPER, DARWIN.

* Honório de Medeiros


No começo, Rousseau disse que nascemos iguais.
Muitos acreditaram.
Voltaire, não.
Depois, veio Marx e escreveu que a superestrutura ideológica, em última instância, emana da infraestrutura econômica.
Como se o fato antecedesse a ideia de sua própria existência.
Falácia antropomórfica.
Muitos acreditaram.
Popper, Hayek, Aron, Mises, os anarquistas, não.
Mas deu no que deu.
As ideias são armas.
Os lobos sabem disso; os carneiros, não.
E quem melhor escreveu acerca disso foi Darwin. 
Ponto final.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A DEFESA DE JARARACA

* Honório de Medeiros

“Quem tudo compreende, tudo perdoa” (Leon Tolstoi).

No dia 9 de junho de 2017, a partir das nove horas da manhã, em Mossoró, no Fórum Municipal, atuei como advogado de defesa no júri simulado, sob a presidência do juiz Breno Valério Fausto de Medeiros, que julgaria Jararaca. Era a comemoração do aniversário da defesa de Mossoró ante o ataque do bando de Lampião. A acusação ficou a cargo do advogado Diógenes da Cunha Lima. Terminados os trabalhos o Conselho de Sentença houve por bem inocentá-lo por seis votos a um (6X1). Segue, abaixo, o texto que norteou minha participação.

1. Esta é uma história de perdão, não de julgamento. “Quem tudo compreende, tudo perdoa”. 

2. Antes, entretanto, peço permissão às senhoras e senhoras para mergulhar nas águas do meu próprio passado. 

3. Pois foi aqui mesmo, nesta Mossoró libertária, que eu nasci e cresci, ao lado da Igreja de São Vicente. 

4. Ali ficava a casa de Rodolpho, depois a de Alfredo, e em frente, a dos Hollanda. Do lado, a de Joaquim Perdigão. Atrás, a de Pacífico Almeida. No final, a de Ezequiel Fernandes. Era o chamado Bairro Novo, escassamente povoado. A todas essas casas dominava a Igreja, à sombra da qual jogávamos bola e brincávamos de bandeirinha, no mesmo chão que foi pisado pelos cangaceiros, dentre eles José Leite de Santana. 

5. Por que estiveram ali? Por que atacaram Mossoró? 

6. Por que atacaram Mossoró? 

7. Compilei quatro teorias. José Leite de Santana é fundamental para que se entenda a quarta teoria. José Leite de Santana, Ferrugem e Mormaço disseram que Lampião nunca pensou em invadir Mossoró. José Leite de Santana abriu o jogo para Lauro da Escócia. José Leite de Santana quis falar com Rodolpho Fernandes e não deixaram. José Leite de Santana por isso mesmo foi morto. 

8. Mas como falar em José Leite de Santana sem falar no cangaço? Como falar no cangaço sem falar da época no qual o cangaço aconteceu? Como falar daquela época sem recordar as condições de vida do sertanejo nordestino, fonte de onde o cangaço emanou? Como falar dessa fonte sem entender a crucial diferença entre os resignados e os que não se submeteram? Como abordar essa questão sem perceber que dentre os que não se submeteram estão aqueles que tomaram o caminho do mal, enquanto outros, o do bem? Como não compreender que nem sempre a opção pelo caminho do mal foi algo ao qual se pudesse resistir, tamanha a incapacidade de se ter, nas próprias mãos, o próprio destino? 

9. Esses são os outsiders, os irridentes, os insubmissos, os irresignados, os diferentes, os revolucionários. Esses são o sal da terra, para o bem ou para o mal. Trágico quando é para o mal, como no caso de José Leite de Santana; sublime, quando o é para o bem, como no caso de tantos aos quais devemos nosso avanço enquanto espécie. 

10. O cangaço é a história de rebeldes. Podemos subjugar rebeldes. Podemos condenar rebeldes. Podemos matar rebeldes. Mas não podemos impedir que a memória de suas existências acicate o nosso repouso envergonhado. O cangaço é a história de homens que resolveram se vingar; de homens que não aceitaram serem escravos; de homens que optaram por sobreviver SEM LEI E SEM REI, nos mesmos moldes dos desbravadores dos nossos sertões, numa liberdade absoluta, uma liberdade de fera, a liberdade da qual nos falou Hobbes em O Leviatã. O cangaço foi o último suspiro dos desbravadores do Sertão, aqueles mesmos que disputaram a terra com os índios ferozes, palmo a palmo, sangue a sangue, numa guerra contínua e esquecida do resto do mundo. A guerra dos bárbaros. 

11. José Leite de Santana foi assim. Percebemos isso em seu olhar na célebre fotografia tirada na prisão em Mossoró. Passei muito tempo olhando para a fotografia. Ali não estava apenas o olhar de quem está ferido. Ali estava, muito mais que isso, o olhar de quem foi subjugado à força, mais uma vez. É o olhar de uma fera de quem tiraram sua liberdade. É o olhar de quem vai morrer. 

12. José Leite de Santana já nasceu subjugado, e contra essa subjugação lutou até o último instante: nasceu bastardo, pobre, preto e desvalido. Um infame. Infame antes mesmo de ser um homem mal. 

13. Não se trata de dizer que o meio fez a escolha dele. Não podemos cair nessa armadilha. Ele escolheu seu caminho. Outros fizeram opções diferentes. O comum dos mortais escolheu vergar sob o peso da escravidão diária. Pagou por isso. Mas antes mesmo da escolha, o destino já o tinha jogado na lata de lixo dos dejetos humanos. 

14. Como julgar José Leite de Santana com os nossos olhos? Um homem que não tinha o que comer, se não chovesse, e não chovia; não tinha médico; não tinha dentista; não tinha transporte; não tinha estudo; não tinha dinheiro; não tinha passado, não tinha presente, não tinha futuro, não tinha nada. 

15. Pois foi este homem, refugo da vida, que nos permitiu levantar um pouco a cortina, o véu que esconde a verdade dos fatos, morreu violentamente e o povo o transformou em herói e o santificou. 

16. Herói por que ousou a coragem da loucura ou a loucura da coragem de viver sem lei e sem rei, os últimos deles. 

17. Santo por que intercede, lá entre os acolhidos pela infinita bondade de Deus, pelos que sofrem, para assim purgar as dores que causou neste mundo de miséria e sofrimento. 

18. Não é possível ver-se nas intercessões dessa alma torturada a quem o julga lá no Alto, em defesa dos que ficaram para lhes minorar a dor, um pedido de perdão por todo o sofrimento que causou quando vivo? 

19. Não é ele um dos cainitas, dos quais nos falou Herman Hesse, um dos escolhidos por Deus para ser as trevas que valorizarão a luz? 

20. Por que não podemos perdoá-lo, se perdoamos São Paulo; Pe. Cícero; Santo Agostinho; Maria Madalena; São Longino, o chefe dos soldados romanos que, no caminho para a crucificação de Jesus, perfurou o peito dele com uma lança? 

21. Somente a Santa Igreja pode, pelo Princípio Petríneo das Chaves, dizê-lo oficialmente santo. Mas assim como Padre Cícero, para o povo, ele já o é. 

22. Se o condenamos hoje, condenamo-lo novamente; se o absolvemos estamos a ele ofertando o nosso perdão. 

23. Reconstituamos os últimos dias de José Leite de Santana: 13 de junho, final da tarde: é ferido; 14 de junho, pela manhã: é traído por Pedro Tomé; à tarde: concede a célebre entrevista a Lauro da Escócia; o ordenança do sargento Kelé tenta lhe arrancar o dedo, para ficar com um anel; 15 de junho: identifica os cangaceiros na foto de José Octávio; 16 de junho: o Tenente Laurentino de Moraes viaja para Natal; 17 de junho: o Tenente Laurentino volta de Natal; 18 de junho: o laudo cadavérico é assinado pelo Juiz Eufrásio Mário, pelo Tenente Laurentino de Moraes e por Dr. João Marcelino; 19 de junho: manda pedir para falar em particular com Rodolpho Fernandes; 20 de junho, naquela noite tenebrosa, às 23 horas, mais ou menos, é assassinado sob a vista dos Tenentes Laurentino de Moraes, Abdon Nunes e João Antunes; Sargentos Pedro Sylvio, João Laurentino Soares, Eugênio Rodrigues; Cabos José Trajano e Manoel; soldados Militão Paulo e João Arcanjo; motorista Homero Couto. 

24. Coube aos soldados o trabalho sujo, como coube quando mataram Lampião, na degolação de Maria Bonita ainda viva. As volantes eram semelhantes ou piores que os cangaceiros. 

25. Dirá depois Luiz da Câmara Cascudo: “Ferido de morte, acuado como uma fera entre caçadores, impassível no sofrimento, imperturbável na humilhação como fora em sua existência aventurosa e abjeta, herói-bandido, toda a valentia física e a resistência nervosa da raça de índios e dominadores dos sertões, reviviam nele, empoçado no sangue, vencido e semimorto. Aquela força maravilhosa, orientada para o crime, dispersava-se lentamente..." 

26. Absolvamos o cangaço e perdoemos José Leite de Santana. Ou, melhor, perdoando José Leite de Santana, absolvamos o cangaço.


Jararaca, preso e ferido, na Cadeia Pública de Mossoró, algum tempo antes de ser morto pela polícia, no cemitério de Mossoró, na noite de 20 de junho de 1927.


terça-feira, 27 de agosto de 2019

WE FOUND BILLY JAYNES CHANDLER!

* Honório de Medeiros


 Em uma quinta-feira do mês de setembro de 2015, publiquei um artigo em meu blog, cujo título é o seguinte: "WHERE IS BILLY JAYNES CHANDLER?"

Nele, eu e minha filha, Bárbara de Medeiros, contávamos o resultado de uma procura intensa por notícias acerca do grande escritor americano que viveu no Brasil e nele escreveu alguns dos clássicos da literatura sertaneja nordestina.

Billy Jaynes Chandler é um dos mais importantes escritores acerca do cangaço e coronelismo, fenômenos ligados entre si e característicos de uma certa época da história recente do Brasil. Suas obras Lampião, o Rei dos Cangaceiros, e Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns, são canônicas, seminais, inigualáveis. Recentemente meu filho, que mora no Canadá, por lá adquiriu o Lampião traduzido para o inglês.

Passaram-se os anos, e nada. Nenhuma notícia...

No início deste agosto, quase três anos depois, mais precisamente dia 8, postaram o seguinte texto no espaço reservado aos comentários ao blog (as traduções a seguir são de Bárbara de Medeiros):

 “Ginny disse...
I was googling my uncle and found this blog from back in 2015. I am Billy Jaynes Chandler's niece”.
 “Estava pesquisando o meu tio no Google e encontrei esse blog de 2015. Eu sou a sobrinha de Billy Jaynes Chandler”.

Eu não li essa postagem. Ocupado com outros interesses, havia deixado o blog um pouco de lado.

Por sorte nossa, Ginny também escrevera para meu email:
“I read uncle bill your blog, translated in English, and it put a smile on his face. He is now 87 and has lost his Portuguese language and has some memory issues. He told me it was ok to reach out to you.
Ginny Petersen”.
“Eu li o seu blog para o tio Bill, traduzido para o inglês, e isso colocou um sorriso em sua face. Ele tem agora 87 anos e perdeu seu conhecimento da língua portuguesa e tem alguns problemas de memória. Ele me disse que era ok eu entrar em contato com você.”

Eu e Bárbara não conseguíamos acreditar. Ficamos muito felizes. Bárbara ficara contagiada com minha admiração por Chandler. No domingo, dia 11, mesmo mês, tratamos de responder:
“I am very happy to know that he’s alive! I hope he is well, despite the memory problems. He is a true icon for us Brazilians, who study cangaço and the local culture. Do you know if he has written anything else? I’m sending you a picture of myself with my copy of his book, now a rarety over here. If possible (and I completely understand if any of you don’t feel comfortable) could you send me a picture of him? My daughter helped me a lot in my researches and would love to see it. Thank you for reaching out!”
“Eu estou muito feliz em saber que ele está vivo! Eu espero que ele esteja bem, apesar dos problemas de memória. Ele é um verdadeiro ícone para nós brasileiros que estudamos cangaço e a cultura local. Você sabe se ele escreveu mais alguma coisa? Estou enviando uma foto minha com a minha cópia de um de seus livros, que se tornou uma raridade por aqui. Se possível (e eu entendo completamente se vocês não se sentirem confortáveis) você poderia enviar uma foto dele? Minha filha me ajudou muito nas pesquisas e adoraria vê-lo. Obrigada por nos contactar!”

Ginny voltou a fazer contato:
“He did not write any more books, 4 books altogether. I recall while I was growing up, his visits to Brazil. Here is a picture of him last year just after his 86 birthday”.
“Ele não escreveu mais livros, foram quatro ao todo. Eu lembro quando estava crescendo, das suas visitas ao Brasil. Aqui está uma foto dele do ano passado, logo após seu 86º aniversário.” 

Nós:
“Thank you so much! He looks great! Do you think I could write a follow-up to my article, now that you have given me the great news that he’s alive? I’d simply mention you have reached out! Maybe I could use the picture? Only if you allow me, of course. Once again, thank you so much for this exchange of messages, you have no idea how much it meant to me and my daughter”.
“Muito obrigada! Ele parece ótimo! Você acha que eu poderia escrever uma continuação do meu artigo, agora que você me deu a ótima notícia que ele está vivo? Apenas se você me permitir, claro. Mais uma vez, muito obrigada por essas mensagens, você não tem ideia do quanto significa para mim e para minha filha!”

Ginny:
“You are more than welcome to do a follow-up. Your question to “where is Billy Jaynes Chandler” has been answered. He lives in Miami, Florida with his sister. :) I wish you could talk with him, he just doesn’t remember much, but has strong memories, although unclear, of his time in Brazil. 
Take care to you and your daughter”.
“Sinta-se à vontade para fazer uma continuação! Sua pergunta ‘Onde está Billy Jaynes Chandler’ foi respondida. Ele mora em Miami, Flórida, com sua irmã. :) Eu gostaria que você pudesse falar com ele, ele apenas não se lembra de muita coisa, mas tem fortes memórias, apesar de incertas, do seu tempo no Brasil. Lembranças a você e sua filha!”.

Muito obrigada Ginny. Estamos enviando esse artigo para você e fazendo a postagem no blog, para que quem puder tenha conhecimento dessa notícia.

Ficamos maravilhados em saber que Chandler está vivo. Torcemos por ele, desejamos que fique muito bem, e lhe enviamos um grande abraço aqui do Nordeste do Brasil, do Sertão que ele conheceu. 

Chandler. Hoje, com mais de 86 anos. Imagem gentilmente cedida por Ginny Petersen, sobrinha sua.

sábado, 13 de julho de 2019

DE DEBATES

Debate com Frederico Pernambucano de Melo, coordenado por Clotilde Tavares, na Feira Literária da Pipa, em 2010, acerca da Estética do Cangaço. Um aprendizado.

* Honório de Medeiros

Quando eu era muito novo, achava que vencer um debate era humilhar o oponente com rajadas de erudição e sarcasmo. Depois, amadureci. Passei a respeitar o pensamento de quem discutia comigo. Não havia mais rajadas. Hoje, quando debato nas muitas palestras que ministro, é sempre no sentido de convidar aquele que tem uma proposta diferente da minha, para nos ajudarmos na construção do grande livro da vida, a partir de uma base comum. Penso que avancei. Talvez não consigamos muito, mas creio que isso nos torna mais dignos.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

AINDA HÁ BURACOS DE BALAS EM BARCELONA



* Honório de Medeiros

Publicado novamente, desta vez para o pessoal da Comitiva. 

Nas madrugadas de Barcelona, as largas calçadas acomodam, em dezembro, o frio, os jovens cheios de vinho que passam cantando e de braços dados, bicicletas e motocicletas em lugares apropriados, que não impediam a passagem dos pedestres. Conto para Carlos Santos das calçadas tomadas por esses meios de transporte quando chega a noite. Ele ri e me fala de uma cadeira em ruínas, acorrentada em plena Praça do Codó, condenada à prisão para não ser furtada tão logo o dono lhe dê as costas.

"Cadê a polícia?", pergunto ao Georgiano taxista, setentão, que me conduz. Ele responde que não precisa, basta chamar, e todo mundo chama se alguma coisa está errada, e a polícia chega imediatamente, e, de fato, mal vi a polícia em Barcelona. O Georgiano, por sua vez, me pergunta de onde sou. Eu lhe digo que sou brasileiro, e ele sorri, e me fala em Pelé e Garrincha. "Garrincha?", "sim, Garrincha, Garrincha", diz ele, "o grande Garrincha, hoje a sua seleção, me desculpe, eu não assisto, não quero assistir".

"E o senhor largou a Geórgia por quê?" "Putin", me diz ele, "um homem muito mau, como Stálin, que era da Geórgia, mas nunca fez nada por ela. Stálin era muito mau, repete, very bad, very very bad, um homem sem pai, sem mãe, criado em orfanato, depois foi para a polícia, cruel, e meus pais perderam tudo e vieram embora, e eu vim também, mas a casa de meus pais ainda existe, fechada, na bela Geórgia, e eu vou lá, e tomo vinho, a Geórgia tem um vinho muito bom, e a casa fica fechada, mas quando eu vou, abro a casa e tomo muito vinho, falo muito minha língua, e durmo".

Continuamos seguindo, eu vejo as bandeiras catalãs postadas nas janelas dos apartamentos, e me lembro do livreiro que tem um sebo em frente ao "Palau de la Musica Catalana" onde tantos famosos se apresentaram, e de seu olhar ressabiado quando lhe pedi um livro com a história da Catalunha em espanhol, e ele me respondeu, ríspido, "em espanhol eu não tenho, tenho em Catalão", e eu lhe disse que infelizmente não lia Catalão, mas acidentalmente tinha aberto meu casaco que ocultava uma camiseta na qual estava escrito “The Catalan Way of Life”, e ele sorriu e lamentou não ter esse livro de história da Catalunha escrito em espanhol, acrescentando, mordaz, que não sabia se havia algum que não fosse ruim.

É, Barcelona é algo muito especial, muito especial mesmo, fiquei pensando enquanto caminhava, dias antes, no rumo da "Cidade Gótica", pela qual me apaixonei sem resistência,  foi uma verdadeira entrega, querendo parar em cada obra de arte encontrada por seus caminhos tortuosos, escuros e estreitos, em cada igreja, ouvir os músicos que tocavam em todos os lugares, tal qual aquele que executava uma sonata arcaica de Scarlatti em violino e parecia ausente de todos que o escutavam e depositavam moedas em seu chapéu, pois tocava de olhos fechados, como se estivesse longe daquela realidade barulhenta, multicolorida e de muitos idiomas que lhe cercava, até chegar à minha pracinha predileta, tão pequena, tão impossível de descrever, em cujas madrugadas eram executados os republicanos contra as paredes do colégio e igreja que lhe estabelecem os limites, nos anos terríveis da guerra civil. Que diria François se estivesse ali?

"Olhe aqui", me dissera uma mineira dias antes, está vendo as marcas das balas nas paredes, "claro", digo eu, "pois perceba, alguns buracos são muito altos, não atingiriam ninguém, sabe por quê?", "claro que não", "é porque", continua ela, "naquele tempo, todo mundo se conhecia em Barcelona, e alguns dos carrascos eram amigos das vítimas". "Meu Deus", penso eu.

Ah, Barcelona. A gaúcha que nos acompanhou a Montserrat pareceu interessada quando lhe contei acerca da cruzada que a igreja empreendeu contra os cátaros no século XIII. "São Luiz?", pergunta, "sim, São Luiz, tudo era uma questão de poder e terras disputada entre os nobres do norte, liderados por ele, contra os do sul, liderados pelo poderoso conde de Toulouse, guerra apadrinhada pela igreja que temia o surgimento de uma nova religião a partir daquela doutrina perigosíssima, o catarismo, e, veja, o Santo Graal está aqui, em Montserrat", "é, eu sei", diz ela, "Hitler mandou seus soldados liderados por Himmler, mas eles não encontraram nada". "Sei onde está", eu disse. "Sabe?", pergunta ela, "claro", respondo, "olhe aquelas rochas, você vê um perfil?", "sim, eu vejo", "então", continuo, "o nariz aponta para uma fissura na rocha, é lá", ela olha e depois olha para mim e fica sem saber se eu brinco ou sou louco, e muda de assunto: "você não fala em Gaudí quando fala em Barcelona", "ah, Gaudí", eu digo, "o delírio de Gaudí, como posso gostar de Gaudí, tão distante do homem comum, não bebia, não fumava, não jogava, não dançava, não tinha mulher, era carola, morava nas obras da Igreja da Sagrada Família, é tudo muito bonito, mas irreal, eu gosto de Gaudí, mas ele era pouco humano e somente o humano me interessa, e viva Terêncio, que disse isso muito tempo atrás".

"Do que você gostou?", ela me pergunta, com aquele sotaque do interior do Rio Grande do Sul, "das obras de arte escondidas em cada recanto", eu digo, "dos músicos de rua, da fé que os Catalães têm na Catalunha, de tantos imigrantes, tal qual o coreano que trabalha dezoito horas por dia no seu mercadinho próximo do apartamento no qual eu estou, do cuidado com os idosos, pois as ruas são pensadas a partir deles e para eles, das espanholas tão sensíveis a elogios a sua beleza, desde que feitos como se fosse uma rendição, nunca uma tentativa de conquista, da simpatia para com os brasileiros, do bairro gótico, da elegância dos caminhantes, das crianças que brincam felizes e despreocupadas em todos os cantos da cidade, da ausência da polícia e do respeito à lei, da história da nação catalã, da relação da Catalunha com a Provença francesa..." 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

DIOCESANO, HISTÓRIA QUE CARREGO COMIGO

* Honório de Medeiros


Durante nove anos, estudei no Colégio Diocesano Santa Luzia de Mossoró. Entrei menino, saí adolescente, para morar em Natal, e começar uma nova vida. Deixei o Diocesano, mas o Diocesano nunca me deixou. Graças a Paulo Pinto, o organizador desse belo projeto que se fez memória de filhos dessa Casa de tantos, como eu, rendi minhas homenagens ao passado em páginas que o tempo e os homens insistirão em manter vivas, a Deus querer. Meu registro é o de alguém que sente muita saudade da aurora da vida, na qual tão importante foi o "meu" Colégio dos Padres.
Bela ideia, belo livro, belas lembranças.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

PALESTRA EM PAU DOS FERROS, RIO GRANDE DO NORTE


* Honório de Medeiros




Palestra acerca do “CORONELISMO E CANGAÇO NO RIO GRANDE DO NORTE: DO SÉCULO XIX AO SÉCULO XX”, realizada em 14 de maio de 2019, por ocasião da 17ª Semana Nacional de Museus, no Museu de Cultura Sertaneja do Campus Avançado “Professora Maria Elisa de Albuquerque Maia”, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em Pau dos Ferros, RN.

domingo, 19 de maio de 2019

LIVROS: A PUBLICAÇÃO DOS PRÓPRIOS LIVROS


Do EL PAIS


Autores mais lidos de plataformas como o Kindle chegam a ganhar 50.000 reais em um mês.
 
Eles publicaram os próprios livros e descobriram não precisar de editoras.

RODOLFO BORGES

John Kennedy Toole ganhou o prêmio Pulitzer de ficção de 1981 por A Confederacy of Dunces (Uma confraria de tolos), mas não pôde celebrar. Doze anos antes, o autor do livro que se tornaria uma referência de Nova Orleans tinha tirado a própria vida, sem conseguir lidar com a rejeição do editor Robert Gottlieb a sua obra. A trágica história de Toole, conhecida porque sua mãe persistiu anos depois no projeto de publicar o livro, soa distante numa época em que é possível publicar livros por conta própria sem qualquer custo — e quando fazê-lo pode ser até melhor (e mais rentável) do que aguardar por editoras que possivelmente não teriam tempo ou dinheiro para sequer avaliá-los. 

A economista Eliana Cardoso, já com dois livros de ficção publicados pela Companhia das Letras, chegou a buscar uma editora para publicar o terceiro, Dama de paus. Diante da negativa, partiu para o Kindle Direct Publishing (KDP), plataforma de autopublicação da Amazon que chegou ao Brasil em 2012. Meses depois, a escritora recebeu a notícia de que tinha ganhado o concurso anual promovido pela gigante do varejo desde 2016 no Brasil. "É um luxo ter o livro revisto e editado por uma grande editora. Por outro lado, a autopublicação através do KDP é uma saída espetacular", celebra Cardoso, que embolsou o prêmio de 30.000 reais e verá seu livro impresso pela editora Nova Fronteira. Ela conta que o aplicativo de edição disponibilizado pela Amazon é muito fácil de usar, que o processo não apresenta nenhum custo para o autor e que cabe a ele definir o valor a ser cobrando, do qual ele pode ficar com até 70% do preço de capa — as editoras costumam repassar cerca de 10% para seus autores por livros físicos e 25% pelos digitais. 

O negócio é tão bom que até escritores de grande sucesso, como Paulo Coelho, publicam seus livros pela plataforma. Enquanto a Companhia das Letras distribui seus livros físicos no Brasil, os e-books são vendidos diretamente pela Amazon em todo o mundo (com exceção dos EUA), o que lhe permite ficar com 35% do valor de cada volume, já que a venda não é exclusiva da Amazon. Gerente para o KDP da Amazon no Brasil, Talita Taliberti destaca que outros sucessos literários, como Mário Sergio Cortella e Augusto Cury, também já publicaram pela ferramenta, e diz que da lista dos 100 livros mais vendidos pela empresa no Brasil, em torno de 30 costumam ser de autopublicação. 

Entre eles dificilmente não estará um livro de Nana Pauvolih, uma professora que trocou as aulas de história pelo sucesso literário (e financeiro) em 2013. Em seu segundo mês de KDP, a autora de literatura erótica já ganhava mais do que nos seus dois empregos como professora, nas redes pública e privada do Rio de Janeiro. O sucesso de livros como A coleira e de séries como Redenção acabou chamando a atenção da agente literária Luciana Villas-Boas, que fez a ponte da autora com editoras como Rocco e Planeta, que hoje publicam suas obras. Sete anos depois de começar a publicar suas histórias em blogs, Pauvolih conta 29 livros, 25 deles autopublicados, e mais de 100.000 e-books vendidos — além disso, a mencionada série Redenção está para virar minissérie da Rede Globo. 

Autores de sucesso como Nana Pauvolih podem ganhar até 20.000 reais mensais, com picos de 50.000 reais em um bom mês de lançamento, mas precisam se empenhar na divulgação das próprias obras, ressalva Janice Diniz, outra autora independente de sucesso. Ex-professora de português, a autora de livros sobre histórias com cowboys como Casamento sem amor calcula em cerca de 48 os seus títulos publicados. "Publico mês sim, mês não. Só no último ano [2018], quando tive de escrever para a Happer Collins, que eu fiquei três meses sem publicar", conta. 

Hoje, Diniz publica pelo selo Harlequin da editora, com quem tem contrato até 2020, mas diz que vive bem desde 2015 apenas com os rendimentos da autopublicação. “Peguei todas as fases do preconceitos. De autora independente, em relação à literatura erótica e ao livro digital”, lembra a autora, que começou sua carreira literária pagando para imprimir seus livros. "Era inviável. Não tinha lucros, só gastos. E eu ainda comecei com uma trilogia. Tinha de manter um estoque dos dois primeiros e ainda pagar pela impressão do terceiro", conta. Ela estava quase desistindo de se tornar escritora quando surgiu a possibilidade de publicar em meio digital. 

Hoje, Janice Diniz conta com o auxílio de três amigas para administrar os cerca de 100 grupos de Facebook utilizados para divulgar sua obra, que, para ela, está acomodada confortavelmente na plataforma de publicação da Amazon. A escritora diz que até tentou utilizar outra opção, a Kobo Writing Life, mas o fato de os valores das vendas serem repassados aos autores apenas duas vezes por ano a afastou — já o KDP repassa os valores mensalmente e ainda remunera os autores por página lida, a partir de um fundo global que hoje gira em torno de 88 milhões de reais. A eficiência da Amazon, cujo serviço de venda direta chegou ao Brasil neste ano, contrasta com a crise do mercado editorial brasileiro. 

Mercado editorial 

No ano passado, Saraiva e Livraria Cultura, duas da maiores redes de varejo de livros do país pediram recuperação judicial — a Cultura, aliás, é a representante da plataforma Kobo no Brasil. O mesmo ocorreu com a distribuidora BookPartners. Além disso, a rede de livrarias Laselva, que tinha pedido recuperação judicial em 2013, enfim decretou falência em 2018. A crise obviamente reverbera nas editoras, que não recebem os pagamentos devidos. Quando pediu recuperação judicial, a Saraiva informou à Justiça ter uma dívida de 675 milhões de reais. 

Foi nesse contexto que a editora Cosac Naify fechou as portas melancolicamente em 2015. Um ano depois, em mais uma demonstração de força, a Amazon comprou parte do passivo, de 230.000 livros, e poupou a falida editora do fardo de estocá-los, mas não do desconforto de lidar com as notícias de que a outra parte do acervo teria de ser destruída e transformada em aparas. 

Ao lamentar em seu blog os "dias mais difíceis" para os livros no Brasil, o presidente do Grupo Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, escreveu em novembro do ano passado que "as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos" por conta da crise nas redes de livrarias. "Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos", escreveu o editor, acrescentando linhas depois: "Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir". 

Numa situação dessas, não é de se espantar que um autor estreante como J. L. Amaral tenha buscado refúgio na autopublicação. Após trabalhar 20 anos como bancário, esse publicitário por formação resolveu parar tudo para tentar uma carreira literária. Em janeiro de 2017, enviou seu Entre pontos para cinco editoras. Em setembro daquele ano, como não tinha recebido nenhuma resposta, resolveu publicar o livro por conta própria, no KDP. Três meses depois, estava entre os finalistas do Prêmio Kindle daquele ano. “Enquanto o mercado não se estabilizar, vai ser difícil ter um espaço à sombra”, constata o autor, que publicou Borboletas azuis pela mesma plataforma no ano passado e, enquanto escreve o terceiro livro, tenta aprimorar sua formação como escritor e roteirista. 

Em contraste com as redes físicas de livros, os ambientes virtuais têm celebrado crescimento. A Amazon não revela seus números, mas só no prêmio promovido neste ano foram 1.500 livros inscritos. O Clube de Autores, que permite publicar livros digitais e físicos, diz lançar 40 obras por dia em sua plataforma e celebrou no ano passado um crescimento de 30%, como registra o portal Publishnews. A Bibliomundi, outra plataforma digital, publicou 931 livros no ano passado e diz que dobrou seus registros de autores independentes. São poucos, contudo, os que conseguem andar com as próprias pernas no mundo da literatura. Eliana Cardoso, que ganhou o último Prêmio Kindle, confessa expectativa quando à relação que pode vir a desenvolver com a Nova Fronteira após a publicação de Dama de paus, mas seu próximo projeto literário, um livro infantil, já tem destino certo: o Kindle Direct Publishing. “A Nova Fronteira não está trabalhando nesta área, e o KDP oferece um aplicativo só para livros infantis”.