quarta-feira, 27 de maio de 2020

BURRA DE SELA


* Texto e desenho Gustavo Sobral

Vem dos antigos, e desde que o homem domesticou o animal para transporte e uso, a pronta necessidade de saber bem cavalgar.

Se atribui em parte ao cavaleiro ou à amazona a destreza de bem conduzir os arreios, mas também fator incontestável é que nem só de um bom montador se faz uma agradável montaria. O animal contribui, e como, para o bom aproveitamento da cavalgada.

Se incontestável é a predominância do cavalo em assuntos de montaria, incontestável também são as qualidades da burra, burrica, asna, jumenta, para o mesmo propósito. Em matéria de resistência e prudência, a burra saiu superior ao cavalo.

É certo que o animal só mostra a que veio, sabedoria do sertanejo, em serviço. Então o adágio é prudente: só se conhece burro bom em viagem grande.

Juvenal Lamartine fez mais de uma vez viagem de ida e volta de Acari para Natal, de Natal para Acari, em sua Melada. 108 léguas! E dizia que a burrinha nem se abalou. Quincoló, marchante de gado, batia meio mundo, andando o sertão, na sua V8.  

Nem os cangaceiros se furtaram ao uso da burra com sela e sem, segundo Honório de Medeiros, mestre no assunto cangaço. E a burra virou instituição.

Diz-se daquele que acerta na sorte grande que “lavou a burra”. Burrinha é burra pequena, ou o seu diminutivo. Burrica é burra pequena e nova. Burrada é ajuntamento de burro, mas é também alguma besteira que algum indivíduo possa cometer, ai diz-se que ele fez uma burrada.

Quem mata burro é burricida e burra de leite é a burra que produz leite e dizem que leite de burra é bom pra recém-nascido, só que sua quantidade é minguada...

 Burra do padre é também como é conhecida a mula sem cabeça, avalie! E burranca é burra fraca – segundo o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa de Laudelino Freire, 2ºed, 1954.
Andorinha, Carrapeta, Cigana, Medalha, Melada, Asa Branca, outros mais eram nomes que assistiam as burras de sela no sertão velho.

As burras de sela eram de tanta e total serventia que eram elas a garantia de muita palavra dada por sertanejo quando dizia: aguarde que tal dia e tal hora estarei lá sem mais nem menos.

Mesmo assim, a coitada do burra passou para a história sem o devido reconhecimento do valor da sua presteza. A burra de sela merece este registro.

Para ler outros escritos, baixar livro e tudo mais, acesse www.gustavosobral.com.br

DO QUE É CERTO OU ERRADO

* Honório de Medeiros

Posto que nada é falso ou verdadeiro em si mesmo, exceto no domínio da ciência, somos nós que impomos o que é certo ou errado uns aos outros. 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

BRASIL HOJE

* Honório de Medeiros

O Brasil parece uma biruta de aeroporto em dia de vendaval.

Tudo acontece como se fosse um estouro de boiada, quando o centro do acontecimento está em permanente deslocamento e mutação, a depender de fatores aleatórios.

Lembra a água de correnteza de rio descendo em enxurrada.

Se não há líderes, todos o são, comunicando-se em tempo real, decidindo quando há brecha para interferir buscando vantagens, gerando fatos novos em alta velocidade.

Tudo isso é meio caminho andado para a anarquia.

Ou para uma solução de força.

Pode não parecer, mas há quem esteja se aproveitando dessa situação para precipitar o caos.

A história está aí, para comprovar.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O ESTADO ALGOZ

* Honório de Medeiros

Enquanto passam os dias, o Estado vai asfixiando lentamente cada individualidade, cada singularidade, promovendo os meios pelos quais sobrevive e cresce: o suor do nosso rosto, por exemplo, é levado para seus cofres, e quase nada recebemos como retorno, sem que adiante reclamar.

Ouvidos moucos.

Tão certo quanto a morte, somente o pagamento dos tributos. 

E cresce em uma espiral ascendente sem fim. Brotam ininterruptamente de suas entranhas legiões de policiais, auditores, fiscais, juízes, promotores, procuradores, guardas de trânsito, municipais, penitenciários, florestais, ferroviários, de portos, militares, agentes administrativos, tesoureiros, assessores, assessores dos assessores, barnabés de todo tipo e modelo.

O Estado comprime, esmaga, esmerilha, prende, sufoca, ameaça, reprime, mata, manipula, tortura, asfixia, bate, vigia...

É um pesadelo!

sexta-feira, 1 de maio de 2020

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO E "GUERREIROS DO SOL"

Frederico Pernambucano de Mello falando, Clotilde Tavares e Honório de Medeiros aprendendo

* Honório de Medeiros

"O BRIO DE CRISTAL"

Em 19 de novembro de 2010 debati, com Frederico Pernambucano de Mello, acerca de sua obra-prima Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço, sob mediação da escritora Clotilde Tavares, na IIª Feira Literária da PIPA (FLIPIPA).

Debate não é o melhor termo para definir esse encontro. Trocamos ideias, eu como aprendiz, e Frederico Pernambucano de Mello como mestre de todos nós, estudiosos da Cultura e História Sertaneja, ambos pontuados pela inteligência brilhante de Clotilde Tavares, ante uma plateia atenta e participativa.

Eu acabara de lançar meu Massilon (Nas Veredas do Cangaço e Outros Temas Afins). 

Indo ao que importa, penso que todos os livros do mestre são importantes, entretanto dois são canônicos: Guerreiros do Sol e Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço

O primeiro é fundamental, e não há como estudar a cultura sertaneja nordestina sem o ler. Trata-se de obra tão importante, na opinião de muitos, quanto, por exemplo, Os Sertões, de Euclides da Cunha. 

Discorrendo acerca do banditismo rural no sertão nordestino, lá para as tantas Pernambucano de Mello, em uma Nota Introdutória que compõe a introdução à 5ª edição revista e atualizada, na qual tive a honra de ser citado, observa: 

"Num e noutro dos universos rurais nordestinos o banditismo teve lugar. Na mata litorânea como no sertão profundo. É claro que com diferenças. São dois mundos, afinal. Duas culturas. Dois homens. Duas sociedades. O coletivismo da tarefa agrícola domesticou o litorâneo. Afeiçoou à hierarquia e à disciplina, muito fortes nos engenhos de açúcar. O sertanejo permaneceu puro em sua liberdade ostensiva, quase selvagem. A pecuária não veio se cristalizar ali em trabalho massificado. Não embotou o individualismo do sertanejo. O seu livre-arbítrio. Ou a sobranceria. Veio daí o orgulho pessoal exagerado que apresentava. O brio de cristal. As próprias cercas não chegam ao sertão antes do século passado. A visão do sertanejo era a caatinga indivisa. Com o homem se sentindo absoluto numa paisagem absoluta".

Talvez alguns não concordem, mas como não se render a essa tessitura finamente composta de "insights" tão precisos quanto envolventes, acerca da alma do nosso sertanejo nordestino ancestral? 

E prossegue a obra tão densa quanto formalmente atraente, a discorrer acerca da nossa história e cultura comuns, elencando hipóteses, apontando caminhos, propondo soluções, tudo em ritmo forte, que nos exige atenção redobrada e esforço investigativo incomuns para não perdermos o fio-da-meada.

Nela, por exemplo, já se menciona o impressionante tema da estética do cangaço, que viria a ser tema central da obra que pautou o debate.

Mas não somente, claro. Há a teoria do escudo ético; a tipologia dos cangaceiros; a psicologia do homem sertanejo nordestino arcaico; o arcabouço da violência que construiu o habitat próprio do cangaço; a relação seca/economia/cangaço; os fatores que influenciaram o fim desse ciclo tão próprio do nosso Sertão; a análise acerca da disseminação, nas terras sertanejas, do "ethos" da violência como apanágio da masculinidade, a partir do conflito entre famílias; o papel da nossa indiada no ensino de táticas de guerrilha que foram recebidas e aprofundadas pelos cangaceiros... 

Guerreiros do Sol recebeu elogios entusiásticos de Gilberto Freyre, em prefácio à primeira edição. De Ariano Suassuna. De Bernardo Pericás. Ouso dizer que Cascudo seria admirador da obra. De tantos outros, ao longo do tempo. Todos lhe aplaudindo sua importância singular. 

Assim como eu, anônimo, mas que também sei aplaudir. 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

DE SER OU NÃO ALIENADO

* Honório de Medeiros

"A verdade é filha da discussão, e não da simpatia" (A Filosofia do Não, Gaston Bachelard) 

Ausentar-se de si mesmo e viver a realidade do(s) outro(s), não aquela em-si-mesma (coisas ou fatos), que é extensão do Ser, projeção de como a percebemos, na justa medida em que, no limite último de cada coisa ou fato observado está uma ideia ordenadora da realidade.

"No princípio era o Verbo" (João, 1). 

Essa ausência de si denominamos alienação. 

Se de mim me ausento não apreendo o Outro, apenas percebo nossas sombras a se moverem na parede de uma caverna existencial onde estamos prisioneiros, como na célebre alegoria de Platão em "A República".

Tudo, então, é aparência. 

Não por outra razão o "conhece-te a ti mesmo", de Sócrates. 

Conhecermo-nos a nós mesmo implica em dizer não à aparência, a duvidar daquela sombra na caverna. 

Somente estamos livres da ilusão quando ousamos dizer não ao que nos aprisiona, nos acorrenta, nos impede de perceber a realidade como de fato ela é. 

Ser ou não ser alienado, na verdade, é Conhecer ou não Conhecer, eis a questão, eis o caminho.

Por isso nos provoca Bachelard: "o conhecimento é sempre a reforma de uma ilusão".

quinta-feira, 23 de abril de 2020

ERCÍLIO PINHEIRO, O GÊNIO ESQUECIDO


* Honório de Medeiros                 

“Um dom dado por Deus”.

Assim Seu Chico Honório começou a me falar de sua amizade com o grande cantador de viola e repentista Ercílio Pinheiro, de quem foi amigo próximo.

Nascido em Luiz Gomes, Rio Grande do Norte, no Sítio Arapuá, no dia 13 de novembro de 1918, e morto prematuramente em 9 de abril de 1958, aos quarenta anos de idade, Ercílio, desde pequenino, versejava batendo em uma lata, “desafiando” sua irmã.

Cedo aprendeu as técnicas de sua arte através de Inocêncio Gato, com quem fez sua primeira cantoria. E cedo, também, veio morar em Mossoró, onde exerceu a atividade de locutor da Rádio Tapuyo até se entregar totalmente à viola.

Seu Chico recorda suas próprias e primeiras cantorias – com Antônio de Lelé, na casa de Zé Honório, em São João do Sabugi; com Justo Amorim, na casa de Cabo Palmeira, patrocinada por Zuza Patrício; com Chico Monteiro na fazenda de Sinhozinho Crisóstomo, a cinco léguas de Alexandria, todas tiradas a cavalo, no novenário de Santo Izidro.

Eu o deixo divagar mergulhado nas lembranças de quase setenta anos atrás. Ele, entretanto, não demorou a repetir: “Ercílio foi uma dádiva de Deus.”

“Hospedei Ercílio e Dimas Batista em Mossoró. Ercílio era um homem correto, digno, honesto. Transpirava honestidade. Morreu dezessete dias antes de você nascer. Foi o melhor cantador de viola do Brasil em sua época. Respeitava todos seus companheiros, mas, os superava em muito”.

“A grande teima, naqueles anos, era qual dos dois cantadores era o melhor: Ercílio ou Dimas. Houve um desafio célebre, na década de cinquenta, entre os dois, um desafio real, não esses de hoje, onde tudo é combinado, que começou de tarde, varou a noite e ganhou a madrugada e somente parou por que o juiz da cidade – Taboleiro do Norte, Ceará – deu por encerrada a peleja, dando-a como empatada”.

“Ercílio era irmão de João Pinheiro e seu sócio no bar “Irmãos Pinheiro” aqui em Mossoró. Esse bar é tradicional ponto de encontro de comerciantes, políticos, advogados, ainda hoje, mas a maioria de seus familiares mora em Taboleiro do Norte, no Ceará. Ele tinha entre um metro e setenta e um a um metro e setenta e seis. Era muito magro. Branco, calvo, cabelos finos, usava óculos com grau muito forte porque era quase cego em consequência de uma miopia. Fumava cigarro de palha ou de fumo cortado”.

“Eu o conheci quando era chefe de trem na linha Mossoró-Sousa. Como era seu admirador, terminamos criando amizade por conta das viagens que ele fazia para ir cantar”.

“Na verdade, devo a Ercílio minha vinda para a Igreja Católica. Um dia, quando já estávamos perto de Mossoró, ele me perguntou: Chico, você já fez sua Páscoa? Respondi-lhe que nunca tinha me crismado, nem feito Páscoa. Ele me ofereceu os livros que eu tinha que estudar e me disse que ia me levar a Frei Luis. Esse Frei Luis era um terror. No dia seguinte fui me confessar com Frei Luis, a mando de Ercílio, e lhe disse que nunca tinha me confessado. Levei um grande carão e ganhei uma penitência de sete padres-nossos de joelho. Até que não foi muito pesada. A segunda confissão foi com Frei Damião. Ercílio foi quem encaminhou. Novo carão e novas penitências”.

“Quando Ercílio vinha a Mossoró eu já sabia: de manhã, lá pelas dez horas, nós nos encontrávamos e a outros amigos na praça do Pax, para conversar sobre cantoria, repente, cantadores, viola”.

“Ele era muito admirado, entre outras qualidades, por ter o que os entendidos chamam de “pulmão limpo”, ou seja, sem pigarro, um canto claro e bonito. Uma vez, não me contive: Ercílio, quem é o cantador que você teme em uma disputa? Não temo ninguém, respondeu. Aliás, continuou, não disputo com ninguém, só comigo mesmo. Mas eu sempre me fiz respeitado na minha profissão. Agora respeito e sou respeitado por Dimas Batista”.

“Assim é o gênio”, concluiu Seu Chico. “Estudou à luz de lamparina, mas seu dom, esse não tem como aprender, nasceu com ele.”

PS. 

“Honório, relendo agora o relato do seo Chico Honório sobre o meu pai o qual encontra-se no livro que escrevi, cada vez mais dou importância as verdadeiras amizades.
Me emociono sempre quando leio ou escuto comentários sobre ele porque me orgulha muito ter tido um pai que só deixou coisas bonitas para que repitam, não só do poeta como do homem. 
Não tive ainda o prazer de conhecê-lo, mas sou grande admiradora do seu pai, ele é uma pessoa encantadora.
Estive com ele antes do lançamento do livro, e ele me prometeu que viria, mas, desistiu em virtude do estado de saúde da sua mãe. 
Logo que for a Mossoró o visitarei e desta feita levarei a viola do meu pai, que ele sempre me fala que tem vontade de revê-la.
Você sabe que esta, foi um presente do seu pai ao meu? Muito obrigada, adorei seu blog. Lua Pinheiro.”

quinta-feira, 16 de abril de 2020

SEU CHICO PIU E A TEORIA DA EVOLUÇÃO


Cavalgada ao luar
* Honório de Medeiros  

Não fossem as fotografias guardadas com muito carinho, nas quais apareço magro e sorridente, sem rugas e cabelos grisalhos, as lembranças daquele inesquecível passeio a cavalo, eu e um amigo que me hospedava, até a fazenda de café de “Seo” Chico Piu, serra acima na área rural de São Carlos, interior montanhoso de São Paulo, tudo seria apenas borrão na minha memória, algo como um filme antigo, com paisagens e pessoas esmaecidas pelo tempo.

Pego-as e sorrio, sempre. Depois, um toque de tristeza toma conta do espírito e lamenta a juventude passada, os amigos que se foram, os sonhos desfeitos, as promessas não cumpridas, os amores perdidos. “C’est la vie”, diriam os franceses. 

Naquela tarde conheci “Seo” Chico Piu, homem sob todos os aspectos singular. 

Em primeiro lugar vivia quase recluso, lá no seu pé de serra. Raras vezes descia à cidade. Bastava-lhe, para viver bem, estar pisando descalço sua terra rica e roxa, cercado por sua gente, que lhe margeava como uma tribo ao seu cacique. 

“Seo” Chico era baixo, moreno gretado pelo sol, de braços e pernas fortes, espadaúdo, e com uma face como que esculpida em bronze, com traços muito demarcados. Mas o que impressionava eram seus pés. Estes, de fato, se viram sapatos, ou mesmo chinelos, foi em tempos muito idos, segundo suas próprias palavras. 

Eram verdadeiros cascos, endurecidos por todos os invernos e verões aos quais “Seo” Chico os havia submetido. Segundo nos contou, e sua família confirmava, descia descalço até mesmo para a cidade, onde raramente ia. E, nos pés, não sentia frio ou calor, não era sensível à água ou à rocha mais dura. 

“Seo” Chico era homem de pouca conversa quando no trabalho ao qual se entregava como qualquer um dos seus trabalhadores. Junto a eles, colhia o café, batia, ensilava, ensacava, derrubava as reses, ferrava-as... Um maestro em pleno exercício de sua arte, cegamente obedecido por seus músicos. Um general a conduzir seu exército com doçura, mas com firmeza. 

Era, basicamente, dono de cafezais e de rebanho leiteiro, que se espargiam serra abaixo, tendo a Casa Grande como epicentro. Vivesse no Sertão nordestino e nele tivesse aquela terra e todo aquele gado seria um homem de posses, por assim dizer. 

No final de uma tarde como aquela, no entanto, tempo esfriando ligeiro indicando noite gelada a chegar, visita no pátio da casa grande e rústica, a sisudez era deixada de lado e o café forte e a aguardente feita sob sua própria orientação lhe iluminavam o semblante e abriam seu coração e mente originando conversas recheadas de casos passados e argutas observações acerca da vida, dos homens e das coisas.

Mas tudo que é bom dura pouco.

Com a chegada da noite veio a hora de voltar sob a fria luz da lua, a passo leve, nas trilhas estreitas, para manter a compostura ameaçada pela bebida e a possibilidade de se envolver com a beleza da serra sob o luar.

Tomamos o último café, bebemos a última caneca de cachaça e ele, se despedindo, bateu na anca da mula mansa que me conduzia, apontou para mim e para si próprio, e como que refletindo, me disse para guardar comigo que o tempo havia lhe ensinado ser a vida, acerca da qual tanto havíamos falado, como uma serra de onde cada um descia na justa medida em que outro subia lhe tomando o lugar. 

Dito isso, me lembrou que “seu pensamento” se tratava de um presente, assim como a garrafa da mais pura cachaça de sua moenda que me passou às mãos, deu um passo para trás, ajeitou o casaco de lã por sobre os ombros tocados pelo sereno da noite e lá ficou, a nos observar partindo, com seus pés indiferentes à temperatura que caíra bruscamente e, com certeza, desconhecendo meu conhecimento sorvido dos livros acerca da teoria da evolução que diziam, de forma muito pomposa e circunspecta, aquilo que ele concluíra somente observando, no seu pé de serra, a vida passando ao largo. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

HOMEM, QUEM ÉS TU?


* Honório de Medeiros

Esse homem que o acaso colocou em minha frente é uma incógnita. Nada sei a seu respeito.

Se observo os detalhes que a sua aparência externa coloca ante meus olhos, e concluo algo, posso incidir em um oceano de erros.

Afinal, sob seu verniz de civilização pode se ocultar qualquer ignomínia. 

Não faz pouco tempo, foi ele gentil com uma criança.

Vi, mesmo, de soslaio, a mãe da criança lhe sorrir complacente, como quem acha muito natural receber, sua cria, as atenções do mundo. 

O gesto me fez lembrar as contradições do ser humano.

Ele mesmo, o observado, que desarrumou, com um afago, os cachos do cabelo da criança, em outra ocasião, outra circunstância, uma guerra, talvez ordenasse um bombardeio que vitimaria tantos outros sorrisos infantis. 

Pode ser que eu não fale a mesma linguagem que ele. 

Quantas formas há de entender uma só palavra?

Difícil atividade, a dos lógicos, a dos filósofos da linguagem, que pretendem descobrir o meio de diminuir a distância entre aquilo que percebo e o que digo. 

Se lhe chamasse a atenção e perguntasse, comentasse algo, poderíamos divergir tanto, e acerca de coisas tão banais... 

"Todavia, entre mim e esse homem glacial, sinto todos os espaços vazios que separam os homens". É como disse Saint-Exupèry, em um artigo para o Paris-Soir, em 1935, contando sua experiência de viajar, à noite, em um trem repleto de mineiros poloneses que voltavam à sua terra natal, expulsos da França pelas contingências da economia. 

Vazios semelhantes àqueles expressados por T. S. Elliot, em A Terra Desolada: a angústia da constatação da impossibilidade da comunicação humana; a percepção de sua solidão essencial, primitiva, única. 

Poderia o amor, esse sentimento tão tipicamente cristão, aproximar os homens?

Desnudar suas almas, lhes fazer não rir, nem chorar, mas compreender, como queria Spinoza?

Dar, a eles, a capacidade de transcender a mesquinha luta pela sobrevivência, que coloca em lados opostos os que deveriam semear juntos? 

Ou essa é uma missão utópica, e não há tempo para sentir quando não conseguimos refletir acerca da misteriosa rede de aliciamento e cooptação que nos induz a darmos o pior de nós mesmos em praticamente todos os momentos da vida? 

Podemos ter alguma esperança, mesmo depois de tantos milhares de anos de aperfeiçoamento na capacidade de destruir, matar, esmagar, e nenhum progresso quanto a fraternidade humana? 

Saint-Exupèry, esse tão injustamente banalizado filósofo da melancolia, da nostalgia, já dissera: "É absolutamente necessário falar aos homens". 

Em sua "Carta ao General X", escrita em La Marsa, perto de Túnis, julho de 43, para o Le Figaro Littéraire, denunciou: "Ah!, General, só existe um problema, um único, em todo o mundo. Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Não é possível viver-se só de geladeiras, política, orçamentos e palavras cruzadas, não é mesmo?" 

Um sentido para a vida. 

Teria a vida sentido? 

Se nos indagassem: "homem, que és tu?", teríamos que responder "aquele em cuja biblioteca os livros de poesia perderam seu lugar para os de computação?". 

Meu companheiro anônimo se fora.

Tinha perdido, eu, a chance de lhe falar acerca de tudo isso que poderia nos aproximar ou afastar: a solidão, o sentido da vida... 

Não seria dessa vez que construiríamos uma ponte entre a clausura de nossas almas.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

AQUELAS NOITES NO SERTÃO

Imagem: Gustavo Bettini
* Honório de Medeiros


“Naquelas noites, no Sertão, a escuridão tomava conta do Sítio onde, à luz do lampião, no terreiro, meu Compadre – eu, menino, o tratava assim, e ele assim me tratava – reunia, no seu entorno, a família e os amigos, para ouvirem as estórias que faziam parte da antiga tradição oral dos nossos antepassados sertanejos, acompanhadas de uma xícara de café quente, coado na hora, e bolachas pretas. 

Às vezes havia lua e o mar de prata criava imagens fantasmagóricas nos arbustos lá fora, confins da luz; ao vê-las, instintivamente nos aproximávamos um pouco mais do círculo dos adultos, e somente relaxávamos quando a gargalhada do meu Compadre pontuava suas estórias. Até então, ele tinha nos deixado, a todos, em permanente suspense, por um tempo aparentemente sem fim. 

Decerto, nunca mais pude fugir de um compromisso alegando uma mentira inocente sem recordá-lo, e a um desses “causos” que ele nos contou. Dizia respeito a alguém do seu conhecimento, “parente distante”, que para fugir de uma obrigação social, jurou, por intermédio de um bilhete, estar em casa, de repouso, por motivo de doença. Ao voltar de um forró onde se esbaldou a noite inteira, em outra localidade, mal apeou do cavalo escutou choro e lamentações, e seu pressentimento foi confirmado pelos fatos – ela, sua esposa, jazia, muito doente, nos braços das filhas. 

Exposto assim parece pouco, quase nada, mas somente sabe acerca da magia sobrenatural daquelas noites quem as viveu no Sertão, à luz bruxuleante do lampião, céu estrelado, ouvindo, de quando em vez, dentre outros, o canto sinistro dos rasga-mortalhas. 

Eram estórias de amores; assombrações; gestas; valentias; honras; ódios entre famílias; cangaceiros; botijas, descobertas por intermédio de sonhos que precisaram de uma sabedoria centenária para serem interpretados corretamente; raptos consensuais ou não; caçadas às onças, nas quais somente a habilidade espantosa do caçador o fez escapar com vida; pescarias milagrosas; recuperações da saúde através de feitiços, poções ou orações de benzedeiras e curandeiros; vidências, estórias de maus-olhados e mandingas; secas e invernadas desmedidas; justiças divinas a corrigirem desmandos humanos; feitos com armas; aventuras de parentes e amigos nas terras desconhecidas da Amazônia, para a qual tantos tinham ido e não mais voltado; estórias dos segredos da Serra das Almas, onde foram encontradas as ossadas de vários homens ao lado de espadas, escudos, elmos, pepitas de ouro e outros apetrechos do tempo em que o Brasil era recém-nascido; e tantas outras... 

Na forma arrastada com a qual meu Compadre as contava havia uma magia que prendia nossa atenção, uma sabedoria antiga da qual ele era herdeiro e na qual era mestre; havia alguém que cultivara a tradição, o dom de contar um “causo”, uma cadência hipnótica na voz, uma lógica precisa para o encadear das frases engastadas com palavras que o mestre Luís da Câmara Cascudo não hesitaria em classificar como egressas do puro português colonial, e que os folgados das cidades grandes alcunhariam de “matutês”, por pura ignorância. 

O desfecho sempre apresentava uma lição de vida e, não raro, belas conclusões a externar uma apropriada observação acerca da natureza dos homens e seu destino de desprezar o caminho certo, a senda justa, a trilha verdadeira na vida, em troca das facilidades enganosas que o diabo apresentava, enquanto armadilhas, para a perdição da alma dos incautos. 

Meu Compadre não era somente um contador de estórias sem igual e um dos últimos herdeiros daquela raça de titãs que colonizou o Sertão, alguém dotado de arguta percepção a respeito dos homens e das coisas, a quem eu escutava embevecido; também era uma fonte inspiradora para mim, a principal delas quando penso na cultura sertaneja, como se tudo quanto eu lesse acerca do tema precisasse ser confrontado com a memória de sua existência, para, em mim, adquirir a necessária credibilidade. 

Ele também era um poeta, em um certo sentido muito próprio, alguém com o dom de dizer belamente, em momentos especiais, com tiradas de brilho incomum, algo que nunca brotaria, com facilidade, dos nossos corações e mentes. Dele escutei, certa vez, quando falávamos da morte, rompendo um seu mutismo inabitual, que "a morte, para quem fica, é uma saudade sem esperanças". Acaso alguém poderia ser mais preciso e poético ao descrever esse sentimento? De outra, referindo-se aos caminhos e descaminhos de um amigo comum, saiu-me com essa, aludindo à eterna vitória da esperança sobre a razão: "compadre, quem nos puxa mesmo é a mão da ilusão..." 

Passaram-se os anos, muitos, desde então, e o pó do tempo escondeu impiedosamente muitas lembranças minhas dos tempos de menino. Algumas, entretanto, sobreviveram. Vez por outra, por exemplo, eu me lembro daquelas noites no Sertão, e fico imaginando o quanto meu Compadre gostaria de escutar esta minha história (ou estória), acerca do seu dom de narrador. Não por vaidade – nunca conheci ninguém tão simples, mas pelo inusitado, para ele, da recordação. 

Pois se ele, quando se foi, há muito tempo, imaginasse que um dia alguém iria lembrar daquelas noites no terreiro de sua casa, no Sítio, Encanto, beiradas da Serra das Almas, Sertão profundo, à luz das estrelas, da lua, e de uma fogueira bruxuleante, daria uma grande risada com aquele jeito manso e ficaria muito satisfeito". 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

AS MULHERES DA SERRA




Ah, as mulheres da Serra, frescas, em flor, sem nada que as enfeite exceto a simplicidade, exceto a alça da blusa que cai displicentemente, deixando entrever e esconder um tanto que não se diz, porque ninguém sabe dizer. Elas vestidas de simplicidade. Elas e seu olhar direto, quando querem, e, quando não querem, ainda mais janelas da alma. “Uma carne sadia, abundante e rosada”, como as descreveu Proust, em “No Caminho de Swann”. Nada artificial, em cada uma. Nada de astucioso em suas atitudes  com os homens. Há aquela malícia instintiva, que é seu dom de iludir. Beber, comer, amar, é tudo tão natural! Chorar também, seja pela posse desmedida ou abandono definitivo. Swann “preferia infinitamente à beleza de Odette aquela de uma pequena operária fresca e rechonchuda como uma rosa, de quem se enamorara...” Em contraposição o universo urbano recheado de mulheres excessivamente enfeitadas, com a mente tomada por articulações, e poses estudadas, no afã infindável de seduzir: os óculos de sol, a roupa de grife, a mirada tecnicamente distante, o celular através do qual são armados os lances do jogo. Por quem, no final, Vaumont, o conquistador impenitente, se apaixona em “As Relações Perigosas”, de Chorderlos de Laclos, senão pela inteireza de sentimentos e ações, distante de qualquer dissimulação, da mulher que julgara tão fácil seduzir e descartar?

domingo, 29 de março de 2020

DONA EFIGÊNIA EM SUA TEIA



Dona Efigênia pontificava naquela rua onde morei.
Muito gorda, um pouco surda – talvez por puro cálculo –, passava o dia sentada em uma cadeira de balanço com espaldar de palhinha na sua ampla sala de estar, que dava para um jardim lateral, onde ficava o portão de ferro batido, pintado de branco, a lhe separar do resto do mundo.
Casa antiga, senhorial, de esquina.
Sempre perfumada alfazema, penteada e bem vestida, ficava o dia inteiro, tirando as fartas refeições, colada a uma mesinha redonda cheia de quinquilharias, na qual reinavam o telefone e o rádio. Tempos antigos.
“Prefiro o rádio”, disse-me ela uma vez quando lhe perguntei qual a razão do eterno silêncio da televisão. “As pessoas participam”.
Eu cumpria fielmente o ritual de visitá-la quando ia à sua cidade. Que era a nossa. Tenho certeza de que ela gostava de minhas visitas. Prova-o o doce de coco verde sempre disponível e do qual eu gostava imensamente.
Acredito até saber a razão de sua simpatia para comigo: ao contrário da grande maioria dos que a procuravam, eu não estava interessado em fofocas, ou, melhor dizendo, meu interesse era secundário, existia apenas na justa medida em que ilustrava alguma opinião sua a respeito de fatos e pessoas, essa sim extremamente interessante, a revelar um agudo poder de observação e análise.
Pois Dona Efigênia, viúva, com pensão mais que razoável deixada pelo falecido, filhos dispersos pelo mundo, era uma renomada e rematada fofoqueira, na opinião de alguns.
Talvez fofoqueira não fizesse jus ao que de fato ela era. Como uma aranha postada no centro de uma imensa teia, ela recebia, analisava e devolvia informações ao longo do dia de uma imensa variedade de informantes: serviçais, comadres, afilhados, sobrinhos, primos, amigos, o carteiro – por quem tinha especial predileção, dado que vivia batendo perna pelos cantos – o leiteiro, as crianças da rua, os vizinhos, pessoas de outros lugares, o padre, o rádio e o telefone.
Devo ter esquecido alguma coisa, óbvio, mas não esqueço sua sala de visitas quase sempre cheia e ela em silêncio escutando, até que, em determinado momento, chamava alguém para sentar em um banco baixo estrategicamente colocado perto da cadeira de balanço, e cochichava algo durante alguns minutos após os quais a conversava era dada por encerrada.
Quando a conheci supus que aquela sua atividade começasse e acabasse conforme comentavam os maledicentes. Diziam que ela era o tipo acabado da velha fofoqueira.
Depois de algum tempo compreendi que criara essa camuflagem. Era assim mesmo que queria ser enxergada. A camuflagem ocultava o verdadeiro propósito de sua atividade diária.
Através da colheita de informações, ficava sabendo o que de errado havia acontecido no seu entorno. Talvez alguma gravidez indesejada, uma demissão inesperada, uma prestação do colégio atrasada, uma virgindade perdida, um exame médico além do alcance de quem dele estava precisando, uma traição que se consumava, uma despensa desabastecida, uma violência doméstica cometida, um recém-nascido abandonado. Pequenas grandes mazelas.

Então entrava em ação: chamava um, chamava outro, cobrava antigos favores, pedia novos, recebia dinheiro de quem lhe devia e repassava para quem estivesse precisando, e a perder de vista, dava carões, espalhava conselhos, apontava caminhos, indicava obstáculos, aproximava pessoas, afastava outras, mandava fazer, mandava desmanchar...
E, assim, disfarçadamente, realizava um metódico, complexo e minucioso bordado social. Bordado do bem.
Dona Efigênia, há muito, descansa em paz e, se existe Céu, nos braços do Senhor.

Ao longo da vida me pego, de vez em quando, lembrando de alguma observação sua. Paro, componho em minha mente o quadro de sua presença naquela sala de estar hoje silenciosa, sentada na sua cadeira de balanço, abro seu breviário, e me ponho a ler, e essa é a minha oração em louvor de sua memória.

terça-feira, 17 de março de 2020

VIAJANDO O MEU APARTAMENTO

Xavier de Maistre   


Em luta sem quartel contra esse inimigo oriundo do coração da China, e que se vale de seu tamanho microscópico para fugir do combate direto, olho no olho, resolvi, levando em consideração certas medidas ditadas não pela covardia, mas pela astúcia, e tendo em vista minha condição de sexagenário, levantar a ponte levadiça do meu castelo e ataca-lo com táticas de guerrilha, ou seja, fugir do contato pessoal, como os russos fizeram contra Napoleão e Hitler, enquanto ele esmorece, fica fragilizado, alvo fácil para um contra-ataque. 

Lembrei-me, então, de Xavier de Maistre, e levando em consideração que ele, embora francês, sentou praça no exército russo e chegou a general, o que vem ao encontro do meu ânimo belicoso contra o inimigo, mas muito melhor que isso, escreveu uma obra notável que o lançou definitivamente na imortalidade, denominada Viagem em Volta do Meu Quarto, escrita em 1794, na qual relata o que lhe aconteceu nos quarenta e dois dias em que passou confinado no seu quarto, resolvi seguir seu exemplo, apenas ampliando um pouco mais o espaço no qual pretendo circular, para abranger todo o meu apartamento.

Assim como Xavier (já o considero íntimo), pretendo escrever um diário acerca do meu confinamento.

Isso, desde já, me coloca como sério candidato a escritor mundialmente desconhecido, para utilizar o bordão predileto de um amigo idoso ao qual não nomino em respeito a sua luta desesperada para não se dar por vencido ante os achaques da idade.

Passarei, portanto, quarenta e dois dias confinados em meu apartamento. Ou mais.

A introdução do meu livro de Xavier de Maistre - eu o li em fevereiro de 2011, é assinada por Sandra M. Stopparo, que também o organizou e traduziu, a quem rendo minhas homenagens. 

É uma publicação da editora Hedra, São Paulo, em 2009. Gostei, de cara, de uma afirmação que ela fez no seu texto, louvando a literatura do século XVIII. Não sei se está certa ou errada. Sei que como pretendo me valer desse auto confinamento belicoso para imitar Xavier de Maistre, seu pensamento me valeu como uma luva. 

Diz Stopparo: "Toda a força argumentativa do século XVIII se coloca aqui a serviço da literatura. Laurence Sterne é o principal parâmetro literário, assim como todos os escritores moralistas do período: fazer de qualquer tema, motivo, dúvida ou certeza uma razão para longas elucubrações é o método preferido da época, que vai do salão ao texto filosófico e às melhores páginas literárias." 

Ou seja, pelo que eu entendi, tanto faz um vírus como uma revolução, qualquer tema é bem-vindo, e o importante é argumentar. 

Talvez possamos entender esse dito de Stopparo (é de 2009) como uma verdadeira antecipação do facebook ou twitter, por exemplo, hoje espaços virtuais repletos de doutores em física quântica, economia marginalista; matemática tensorial, ciência política; filosofia pré e pós-moderna e outros assuntos ditos menores.

Quase nada acerca de quase tudo. 

Explanado tudo isso, e louvado no incentivo de Stopparo, bem como amparado por Xavier de Maistre, aqui vou eu.

domingo, 15 de dezembro de 2019

IDENTIDADE PRÓPRIA

* Honório de Medeiros

Então essa compulsão ansiosa para informar os outros, em se descrever aos outros, nada mais é que a tentativa de construir uma identidade própria, não múltipla, não fragmentada, de reunir todos os cacos de si, desde os que nós mesmos fabricamos aos que os outros propõem, em uma única identidade que se imponha ao caos pessoal e social, numa luta às vezes desesperada para sobreviver nesse mundo hostil.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

PARECE JUSTO?

* Honório de Medeiros
Soube que o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa deram um aumento substancioso aos Procuradores do Estado, da própria Assembleia, do Tribunal de Contas e aos Defensores Públicos.
Retroativo a 1º de Abril.
Nada mais justo.
Justificaram dizendo que cumprem a Lei.
Não é verdade. A Lei diz que pode ser dado, não que se dever dar.
Mas e o restante dos servidores, que sequer receberam seus salários de novembro, dezembro e o 13º de 2018?
Nesse caso a Lei diz que se deve pagar, não que se pode pagar.
Quer dizer que o Governo e a Assembleia pagam quando não devem, a uns, e devem mas não pagam, a outros?
Como é isso? Parece justo?

sábado, 23 de novembro de 2019

CANGAÇO E CORONELISMO NO RIO GRANDE DO NORTE


* Honório de Medeiros

O bando de Lampião em Limoeiro, Ceará, no dia 15 de junho de 2017, logo depois de invadir Mossoró e ser rechaçado.
O coronelismo e o cangaço, tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, mais precisamente de meados do século XIX a meados do século XX, são manifestações do Poder, de como ele é obtido, mantido e até mesmo combatido, em intrincada trama, ao longo do processo histórico. 

A forma como o Poder é instaurado diz respeito a fatores circunstanciais, tais quais o avanço tecnológico ou cataclismos ambientais, mas a essência, qual seja a presença da imposição da vontade de alguns sobre outros, permanece a mesma desde que o Homem surgiu na face da terra. 

As narrativas acerca do coronelismo e cangaço devem ser analisadas levando-se em consideração o fator de "ocultamento" próprio da atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, dizer, omitir, acrescer, manipular, enfim, tudo isso e mais, cumprem o papel de narrar como os fatos ocorreram a partir da perspectiva de quem pode impor sua percepção das coisas e dos fenômenos, em detrimento da verdade. 

Sempre tratamos o coronelismo e o cangaço pelo “como” os fatos aconteceram, até mesmo de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar acerca de suas causas e intenções e suas relações com o Poder. Quem critica o estudo do Cangaço, mesmo de forma oblíqua, tratando-o como algo menor dentre os epifenômenos da cultura sertaneja, hostiliza a História e não entende o que é o Poder. 

Não houve manifestações violentas do Coronelismo no Sertão nordestino sem um entrelaçamento com o banditismo rural; não houve Cangaço sem Coronelismo. Acrescentemos a esses ingredientes o fanatismo messiânico e teremos um ponto-de-partida concreto e verossímil para a real história da época dos coronéis e cangaceiros. O ponto-de-partida é o cangaceiro, começando com Jesuíno Brilhante, o primeiro dos grandes, a história dos coronéis do Cariri cearense, e a vida do mítico Padre Cícero do Juazeiro. 

No Rio Grande do Norte é difusa, porém persistente, a concepção de que seus coronéis eram homens afastados da violência, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Apodi, por Massilon, e Mossoró por Lampião, tratados como “pontos fora da curva”, pouca relevância teve em nosso Estado. 

São "esquecidas" as relações dos coronéis com José Brilhante, o “Cabé”; a do Coronel João Dantas com Jesuíno Brilhante; a invasão de Martins; a invasão de Apodi e sua relação com coronéis apodienses; a invasão de Mossoró e sua relação com coronéis paraibanos e cearenses; a morte de Chico Pereira e sua relação com o coronelismo paraibano e potiguar. O mesmo ocorre quanto a “hecatombe de 1918” em Pau dos Ferros, verdadeira briga entre coronéis potiguares, semelhante àquelas travadas entre seus congêneres do Cariri cearense. 

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, e se constituem em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos, terminando tragicamente na famosa eleição de 1934-1935, na qual houve o assassinato do Coronel Chico Pinto e o de Otávio Lamartine, filho do ex-governador Juvenal Lamartine, e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar. 

Todas essas atividades violentas protagonizadas por cangaceiros estão conectadas com o coronelismo. Todas elas são faces da disputa pelo Poder Político. 

O cangaço, por si somente, é a história do último suspiro dos desbravadores do Sertão nordestino, nossos ancestrais, aqueles mesmos que disputaram a terra contra índios ferozes, palmo a palmo, sangue a sangue, a ferro e fogo, numa guerra longa, cruel e esquecida por todos. A guerra dos bárbaros. 

O cangaço é a história de homens que resolveram se vingar de uma injustiça; de homens que não aceitaram ser escravos e optaram por fazer das armas meio-de-vida; de homens que optaram por sobreviver SEM LEI E SEM REI, em uma liberdade absoluta, uma liberdade de fera, aquela liberdade anterior ao surgimento do Estado, da qual nos falou Hobbes em O Leviatã. 

O cangaço é a história de rebeldes, certos ou errados. Podemos subjugar rebeldes. Podemos condenar rebeldes. Podemos matar rebeldes. Mas não podemos impedir que a memória de suas existências nos provoque. Podemos não aceitar os rebeldes, mas podemos tentar compreendê-los, tenham sido cangaceiros, coronéis, ou fanáticos, e em os compreendendo, aprendermos as lições da história.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

CETICISMO, AUTO-CRÍTICA E INCONFORMISMO.

* Honório de Medeiros

O apático moral é um cético, mas nem todo cético é um apático moral.

Aquele que não o é pode abraçar o inconformismo.

Nesse caso o ceticismo inconformista seria uma forma de interagir conosco e com tudo quanto nos envolve.

Uma arma para se defender do pântano do "status quo", e ir além do "ranço", do estabelecido ruinoso.

Ceticismo somente, não: conduz à apatia moral.

No ceticismo inconformista, duvidamos, questionamos, e nos manifestamos.

Mas é preciso cuidado: não é somente o Outro que não sabe; nós também não sabemos.

Não custa nada acendermos uma vela em homenagem a Sócrates.

Auto-crítica e ceticismo inconformista.

O primeiro para nos colocar em nossos reais limites; o segundo, para colocar os outros em seus reais limites.

domingo, 10 de novembro de 2019

ENSINO JURÍDICO: AS ARMADILHAS DA OMISSÃO.

* Honório de Medeiros

Uma das armadilhas que os tempos atuais impõem ao ensino jurídico, é o conforto da aula técnica, exclusivamente voltada para a interna realidade do ordenamento jurídico, onde o que importa é a argumentação dirigida para a norma jurídica e suas conexões com outras regras do sistema, quando muito se permitindo, o professor, um arremedo de independência dessa camisa-de-força ao tratar de de princípios jurídicos de conteúdo indeterminado, fluídico, sem consistência.

Tais princípios esbarram, entretanto, nos sólidos limites da vontade política, e eles nada mais são que barreiras levantadas pelo Estado e sua lógica de Poder, verdadeiros grilhões a serviço dos interesses de quem pode produzir, interpretar e aplicar a norma jurídica.

Ao se alienar consciente ou inconscientemente ao ocultar essa prática as questões subjacentes, essenciais, e que dizem respeito à própria estrutura do Direito, tal qual sua legitimidade, sua relação com o Poder, sua relação com o Justo, seu status obediente ao meramente técnico, seja por ignorância, seja por comodismo, seja por cinismo, os professores cumprem um papel pouco digno de reproduzir o modelo de exploração próprio da lógica dos que determinam as regras do jogo.

Em o fazendo, não questionando, não criticando, cravam, com o martelo da omissão, os pregos da submissão e alienação nas mentes dos futuros profissionais do Direito, ajudando, assim, a construir uma civilização doentia como essa que estamos deixando enquanto legado para nossos filhos.

sábado, 9 de novembro de 2019

IDEOLOGIA: A IDEOLOGIA É UM CREDO!

* Honório de Medeiros


E há os que acreditam em bandeiras ideológicas.

O povo, bem mais sábio, diz pelas esquinas "é tudo igual". O sertanejo, esteio da raça, diz pelos aceiros: "é tudo farinha do mesmo saco".

De esquerda, Stálin, Mao, Fidel; de direita, Pinochet, Stroessner, Videla. Não vou falar em Hitler, Idi Amin Dada, Pol Pot e Sadam Hussein, aqueles de direita, estes de esquerda.

E Franco? Kim Jong-un? Todos irmão siameses vestindo a mesma camisa com cores distintas.

A China é vermelha por fora e verde por dentro, por uma razão muito simples: o capitalismo é um fato, não uma ideologia. Já a ideologia é um credo, que os detentores do Poder usam de acordo com seus interesses.

O que importa, para quem joga o jogo do Poder, é o próprio Poder, puro e simples, ou seja, a capacidade de mandar e ser obedecido. 

Enquanto as ovelhas comem seu capim, os lobos se alimentam com sua carne, e ainda usam sua pele para fazer casacos.

E elas acreditam que tudo é para seu bem.