sábado, 18 de março de 2017

OS BÁRBAROS NÃO CHEGAM; CHEGARAM.

CARTAS A ANTÔNIO GOMES (1)

Caro Antônio,

Faz tempo que não nos vemos, desde antes de 2010, quando lhe conheci em Cajazeiras durante aquelas minhas andanças pelo Sertão com o escritor Franklin Jorge, no rastro de Massilon.

A escritora Luitgarde Oliveira Cavalcante Barros, autora de "Juazeiro do Padre Cícero (A TERRA DA MÃE DE DEUS)" e o escritor Franklin Jorge do Nascimento Roque, autor de "Ficções, Fricções, Africções", Prêmio Luis da Câmara Cascudo, em mesa do café da manhã do Cariri Cangaço, em Crato, Ceará, setembro de 2013.

A história desse encontro, como você sabe, está em "Massilon", e lá: http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2016/03/de-um-encontro-casual-e-um-evento-comum.html

"Massilon", o livro, vai para sete anos de publicação. Muito tempo. "O tempo passa, o tempo voa", como dizia aquela antiga propaganda do Bamerindus, banco que não mais existe. Passou muito rápido. Poeira que o vento que adivinha chuva tange nos oitões do Sertão.


Este ano estamos completando oitenta anos da invasão de Mossoró por Lampião. Oitenta! E continuam dizendo que Lampião invadiu Mossoró única e exclusivamente para arrancar dinheiro da cidade. Essa versão arraigou-se de tal forma na história que parece impossível mudá-la.

Penso que perdi meu tempo escrevendo "Massilon", noves fora o prazer que me deu. Sete anos de pesquisa! Tantas perguntas a serem respondidas apresentadas no livro e nada. Ninguém se apresentou para o debate. O papel dos coronéis de antanho, a conexão da invasão de Apodi com a de Mossoró, a enigmática participação de Massilon nos dois episódios, os mistérios do acontecimento, tal qual a morte de Jararaca, que antes de ser morto já dispunha de um atestado de óbito pronto e bem acabado ou o cerco exclusivo à residência do Prefeito Rodolpho Fernandes nas cercanias da cidade, enquanto o centro, onde estava o comércio e o dinheiro, jazia abandonado pelos cangaceiros...

Deixa pra lá.

Por falar em cangaço, no lançamento do meu "Histórias de Cangaceiros e Coronéis" surpreendi Alex Nascimento lendo as orelhas do livro. Quando me viu, perguntou quem era você. Eu respondi: "quase sessentão, de Cajazeiras - de onde saiu na infância, mora onde lhe dá na telha, tem um pequeno apartamento no Rio e outro menor ainda em Paris, é solteiro, e mais eu não sei porque o homem é mais fechado que freira reclusa".

Ele deve ter pensado: "isso é mesmo que nada e mais alguma coisa". Ou seja: conversa fiada. Alex é um dos grande escritores da terrinha, dono de um estilo muito peculiar.

Diz pela noite - tem hábitos noturnos, que não mais vai escrever nada. Dedica-se, hoje, ao jazz, a Mariana, a aprender latim e a bater papo com Florentino Vereda, além de outras coisinhas mais. Grande figura. Um outsider.

O escritor Alex Nascimento, autor de "Um Beijo e Tchau", e a escritora Bárbara de Medeiros, autora de "Sindicato das Bailarinas Circenses".

Andei publicando uns poemas seus no blog. Tá em honoriodemedeiros.blogspot.com Vá lá. Estou mandando estas "mal traçadas linhas" para aquele email que você me enviou via "messenger" do "facebook". Tomara que lhe alcance.

No mais, e tirando o mundo velho de meu Deus que parece repetir o ciclo da Alta Idade Média, com outra tecnologia - claro, quando os bárbaros pintaram e bordaram e quase destruíram a civilização, por aqui vamos seguindo.

Você conhece o poema de Konstantino Kaváfis, não? Para lhe poupar o tempo de rememorar, aqui vai ele:


À espera dos bárbaros

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Até mais,

Honório.