sábado, 21 de janeiro de 2017

A VIDA É LÍQUIDA



* Honório de Medeiros

Pequena homenagem a Zygmunt Balman.


“A vida é líquida”, diria Zygmunt Balman, aludindo à consistência das relações entre nós e os outros, ou entre nós e as coisas e/ou fenômenos.

Líquida posto que essa consistência não tem forma definida, assume aquela que o recipiente (o contexto) impõe.

Não somos estruturas rígidas que atravessam o tempo imutáveis ou pouco atingidas pelas circunstâncias, somos proteiformes, somos difusos, somos evanescentes. 

Vivemos uma época na qual as gerações mais novas escrevem tudo em uma linha. No máximo algumas poucas linhas. E somente leem, e são treinadas pela realidade virtual com a qual convivem “full time” exatamente para isso, algumas linhas, umas poucas linhas.

Tal é o ser (e o dever-ser) que essa realidade virtual impõe: tudo é frenético, tudo é descartável, tudo é cambiante, imediato.

É a maximização das potencialidades, negativas ou positivas, da nossa espécie sobrevivente e dominante, conforme descrito pela teoria da seleção natural.

O modelo de ensino, que ainda predomina está fadado ao fim, entre outras razões em decorrência do descompasso com essa realidade que se impõe avassaladora.

Não há mais espaço para uma educação que se estrutura a partir de livros, com textos pesados, longos, exigindo tempo, estudo profundo, e o tratamento do “pensar” típico dos escolásticos medievais que moldaram as bases do nosso ensino ocidental e cristão.

As gerações mais novas, que herdarão o mundo, ou o que restar dele, e sua forma de apreender e expressar a realidade, estão em processo de descompasso com aquela construída pelos nossos antepassados.

Não se trata de estarmos certos e eles errados. Mas quem há de ler “Ulisses”, de Joyce, “Paidéia”, de Jaeger, ou “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, em tempos como estes?

São elas, as gerações mais novas, mutações engendradas pelo meme que é a realidade virtual: caracterizam-se por viver em ritmo alucinante, pensar freneticamente, falar acelerado, em contraposição ao viver, pensar e falar arcaico, que vai sendo deixado para trás.

O livro de papel sobreviverá, claro, como sobreviveu o ritual do chá no Japão moderno que a restauração Meiji instaurou, bem como atirar com arco-e-flecha, como algo excêntrico, típico de verdadeiros “outsiders”, a partir do qual hão de se criar seitas e seus inevitáveis rituais iniciáticos.

Livros em ambientes virtuais existirão cada vez mais, óbvio. Mas nunca serão consumidos como o foram os livros de papel após Gutenberg.

Assim como os monges que salvaram a civilização na Alta Idade Média, copiando os textos antigos e os deixando para a posteridade, será em ambiente monacal que os iniciados lerão obras tais quais as que foram citadas acima.

O velho mundo está morrendo, viva o novo mundo, do qual serei espectador privilegiado, posto que, quando menino, fui apresentado ao milagre da televisão quando já completamente cativado pelo livro de papel, e, agora, cinquentão, me maravilho com as infinitas possibilidades de uma realidade sequer possível de ser imaginada antes, domínio e prisão dos que, hoje, ainda são apenas adolescentes.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O HOMEM TEM QUE SABER A HORA DE SAIR



* Antônio Gomes


O homem tem que saber a hora de sair. 
Recolher-se.
Guardar os arreios, tirar as esporas, encostar a cela.
Perceber que seu tempo passou.
Pendurar as armas da luta, sofrear os últimos ímpetos, despir a armadura.
Não mais se afadigar debaixo de nenhum sol.
Beber sua pinga, contar casos, ver os rebentos irem para a arena.
Sair de cena.
Com calma, para não parecer rendição; com certa ligeireza de quem sabe o que está fazendo.
Dizer adeus.
Afinal, até a chuva não será mais como era antes.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

FRACASSO


* Honório de Medeiros

Começo da noite do dia 18 de janeiro de 2017.

"Que fizemos nós deste País, meu Deus? Que tempos são estes? Como e quando começamos esse nosso fracasso coletivo?"

Ontem à noite minha filha Bárbara, e seus dezoito anos, olhava as ruas vazias, todo mundo recolhido enquanto carros e prédios públicos eram incendiados e a rede social anunciava novos confrontos nos presídios do Estado e seus rituais macabros de morte e degola, chorando.

"Eu somente quero ir trabalhar, papai. Sair. Quero minha liberdade. Então não vale a pena?"

Eu nada disse. Baixei a cabeça.

Depois de todos esses anos de vida, de trabalho, de luta, o legado que estávamos deixando para sua geração era aquele que ela não via, mas podia imaginar: labaredas, destruição, morte, uma cidade na qual nós, cidadãos pacíficos, estávamos prisioneiros, amedrontados, impotentes, enquanto a noite avançava lentamente.

Fracassamos.

* Arte em ano-zero.com/virus-do-fracasso