sexta-feira, 6 de março de 2026

DE VIAJAR PARA DENTRO DE SI

 


Imagem: Honório de Medeiros


Ela, tão amada, querendo me tirar de casa: “vamos, vai ser bom”. 

Eu: “estou cansado”. 

Ela: “mas você nem saiu esses dias”.

 Eu: “viajar para dentro de mim cansa demais”.


* honoriodemedeiros@gmail.com / * @honoriodemedeiros

quarta-feira, 4 de março de 2026

PSICOLOGIA EVOLUTIVA

 



* Honório de Medeiros
 



Apesar da chamada “teoria do design inteligente”, que diz ser insuficiente o darwinismo enquanto explicação para o surgimento e propagação da vida na terra, depois de abençoada por Sua Santidade o Papa, a verdade é que a Teoria da Evolução vai, aos poucos, se firmando como a única das macro-teorias oriundas do século XIX que sobrevive integralmente às críticas da comunidade científica.

As outras, como a psicanálise, nunca recebeu “status” científico; o marxismo ruiu com a Revolução Russa de 1917; a queda do Muro de Berlim, que permanece por terra; e a Teoria da Relatividade, de Einstein, por não ter conseguidou superar suas divergências fundamentais com a física quântica.

Um dos rebentos mais interessantes do darwinismo, chamemo-lo assim, é a Psicologia Evolutiva.

Como se pode depreender, trata-se de uma tentativa de explicação da psique humana utilizando-se as ferramentas próprias da Teoria da Evolução.

Nesse campo específico, nada tem suscitado tanto debate quanto às afirmações feitas pela Psicologia Evolutiva quanto a amor e sexo.

Por exemplo: a Psicologia Evolutiva explica que a traição, por parte do homem, é uma herança genética que o impele à tentativa de disseminar seus genes!

Isso seria algo ancestral – na aurora da história do homem, quando ele vagava pela terra caçando e coletando raízes e frutas, foram selecionados para sobreviver aqueles que tinham esse tipo de comportamento; quanto mais braços para a defesa e a procura de alimentos, melhor para a tribo.

A mulher, por outro lado, como era obrigada a conduzir, durante nove meses, sua gravidez, ficava estética e organicamente inviável para o jogo sexual, o que abria o espaço para a fecundação de outras.

Essa propensão, diz a teoria da evolução, não é um fatalismo, até mesmo porque o ser humano, que reina inconteste em pleno século XXI, para o bem ou para o mal, foi capaz de construir um aparato intelectual que lhe permitiu fazer opções de caráter ético fundamentais para assegurar sua sobrevivência.

Nesse sentido a Moral seria uma estratégia humana, uma espécie de instrumento adaptativo que lhe permite continuar sua saga sobre a face da Terra. 

Ou seja, embora haja essa tendência individualmente falando, enquanto espécie o homem aposta na fidelidade.

Não é assim que acontece se prestarmos bem atenção ao que se passa ao nosso redor?

Dessa forma a Psicologia Evolutiva explica muitas condutas masculinas e femininas. 

Uma delas, bastante curiosa, por sinal, é a chamada “Síndrome da Rejeição”. Por que a mulher, por exemplo, parece se interessar mais pelos homens que a rejeitam?

A resposta seria que a mulher, programada geneticamente para lidar com o procura masculina, ao sentir-se desprezada, sente ameaçada sua capacidade de interessar sexualmente e, assim, procriar.

Isso por que nosso objetivo básico, segundo a Teoria da Evolução, é propagar nossos genes.

Esta teoria não explica nosso amor desmesurado por nossos filhos?

Se forem polêmicas as afirmações feitas pela psicologia evolutiva no que diz respeito ao relacionamento amoroso, imaginem o que não se discute quanto à política, mais especificamente ao Poder.

Esta, entretanto, já é outra história.


* Honório de Medeiros
* @honoriodemedeiros

segunda-feira, 2 de março de 2026

ESBOÇO DE UM DISCURSO ACERCA DA CRÍTICA RACIONAL DA ARTE

 


Arte: Gerard Mansoif


* Honório de Medeiros


A arte também é um discurso acerca do Real.

O conteúdo de sua manifestação, através da forma, discursa em linguagem peculiar, fragmentariamente, acerca da totalidade da "coisa-em-si" (a poesia fragmentária de T. S. Elliot é densa, filosoficamente).

Importa observar que a densidade da manifestação artística está diretamente proporcional ao conteúdo, e a dialética mecanicista do observador na fenomenologia do objeto-arte, esvai-se na constatação dedutiva da forma como consequência, jamais como causa.

Ou seja, o conteúdo antes, como idéia-impulso, a forma depois.

Constitui obstáculo epistemológico entregar, à produção artística, o aspecto de algo produzido, enquanto inconsciente, aos devaneios apriorísticos do artista.

Isso é a chamada escatologia das entranhas da psique. 

Ao contrário, a razão elabora aquilo que a emoção estética sugere tecendo, a partir do fragmento exposto, a cosmovisão racional do artista, quer ele queira, quer não.

O artista, então, apropria-se do real, e discursa acerca dessa apropriação. Apropriar-se é semelhante a apreender.

Quando ocorre, significa que lhe pos o limite do seu próprio limite e constituiu um estatuto artístico enquanto ser-que-observa, critica (consciente ou inconscientemente) e fala (sentido "lato") quanto ao objeto observado ou intuído.

Assim a dialética da arte é a luta do ser-que-observa com o algo-a-ser-observado, veiculada através de uma linguagem peculiar.

A arte, óbvio, diz algo acerca de algo, mesmo que esse algo seja palco de muitas dúvidas quanto ao ponto de partida para sua elaboração.

Afinal, o objeto envolve com sua beleza intrínseca ou é envolvido com a arte? Ou interagem?

A essência da discussão submerge na metafísica, embora a construção artística adense-se na medida de uma crítica racional, em busca da verdade.

Essa busca é infinita (não há verdade absoluta em arte, como não há em campo algum do conhecimento humano, porque a descoberta parcial altera as condições do futuro a ser descoberto).

É necessário uma metafísica dos pressupostos de uma crítica racional da arte.

O ponto-de-partida seria a densidade da intuição racionalizada (posta em discussão; sobrevivente à interação com o meio intelectual), exposta e observada tendo-se em conta o conteúdo da forma.

Criar-se-ia, então, uma tipologia e uma fenomenotécnica ímpar, que observará poemas como este, à luz de uma perspeciva clara e simples, constratando com decursos vazios e sem nexo

finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado

Em 1694, Basho (Trilha Estreita ao Confim; São Paulo: Iluminuras; 1997) deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos lhe pedem que faça o poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o "poema de morte". Na mesma noite tem um sonho e, ao acordar, escreveu seu último poema, exposto acima.


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