sexta-feira, 10 de abril de 2026

"A ELEGÂNCIA DO OURIÇO", Muriel Barbery

 

Muriel Barbery, Arte de Claude Verlinde

De como aquilo que você vê pode não ser o que você pensa


* Honório de Medeiros


É divertido o romance de Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço.

Recomendo.

Vou, aqui, editar um trecho do livro que fala acerca da fenomenologia de Edmund Husserl.

“O quê?”. "Fenomenologia?" "Em um romance?”

É. Em um romance. E esse trecho prova, para mim, por a + b, que somente a literatura salva a filosofia da chatice dos filósofos. 

Leiam:

“Então, a segunda pergunta: que conhecemos do mundo? A essa pergunta os idealistas como Kant respondem. Que respondem? Respondem: pouca coisa.

(...)

Conhecemos do mundo o que nossa consciência pode dizer dele porque isso aparece assim – e não mais.

Vejamos um exemplo, ao acaso, um simpático gato chamado Leon. (...) E pergunto a vocês: como podem ter certeza de que se trata de verdade de um gato, e até mesmo saber que é um gato? (...) Mas a resposta idealista consiste em demonstrar a impossibilidade de saber se o que percebemos e concebemos do gato, se o que aparece como gato na nossa consciência é de fato conforme ao que é o gato em sua intimidade profunda.

(...)
Eis o idealismo kantiano. Só conhecemos do mundo a IDEIA que dele forma a nossa consciência”.

Agora vem a parte hilariante:

“Mas existe uma teoria mais deprimente que essa (...) Existe o idealismo de Edmund Husserl (...)

Nessa última teoria só existe a apreensão do gato. E o gato? Pois é, o dispensamos. Nenhuma necessidade do gato. Para fazer o quê, com ele? Que gato? (...) O mundo é uma realidade inacessível que seria inútil tentar conhecer.

Que conhecemos do mundo? Nada. Como todo conhecimento é apenas a autoexploração da consciência reflexiva por si mesma, pode-se, portanto, mandar o mundo para os quintos dos infernos.

É isso a fenomenologia: a CIÊNCIA DO QUE APARECE À CONSCIÊNCIA. Como se passa o dia de um fenomenologista? Ele se levanta, tem consciência de ensaboar no chuveiro um corpo cuja existência é sem fundamento, de engolir o pão com manteiga inexistente, de enfiar roupas que são como parênteses vazios, ir para o escritório e pegar um gato.

Pouco se lhe dá que esse gato exista ou não exista, e o que ele seja na própria essência. O que é indecidível não lhe interessa. Em compensação, é inegável que na sua consciência aparece um gato, e é esse aparecer que preocupa o nosso homem”.

Aí está.

Por isso digo que o idealismo radical é a loucura da razão.

Fica mais fácil para eles entenderem o grande mistificador que foi Platão.

Entender que não existe algo Justo-Em-Si-Mesmo. Entender o uso manipulativo, retórico, das teorias filosóficas.

E entender por qual razão os professores de Direito, com algumas exceções, são como os gatos existencialistas...


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* @honoriodemedeiros

quarta-feira, 8 de abril de 2026

"SUBLIMINAR: COMO O INCONSCIENTE INFLUENCIA NOSSAS VIDAS", Leonard Mlodinow

 

Stephen Hawking e Leonard Mlodinow


* Honório de Medeiros


Aos meus alunos da disciplina Filosofia do Direito, vez por outra eu propunha o seguinte problema:

“Façam de conta que vocês são chefes de uma estação de trens, responsáveis, entre outras coisas, pela direção que as locomotivas devem tomar em seus percursos diários.

Um dia, durante o expediente, vocês recebem um comunicado urgente lhes informando que uma das locomotivas que passam em sua estação está completamente desgovernada e em alta velocidade.

Em sua estação vocês têm a possibilidade de conduzir a locomotiva, apertando os botões A ou B, por duas diferentes opções.

Seu tempo para decidirem é extremamente curto. Algo como segundos.

Vocês sabem que na linha A trinta homens estão trabalhando na manutenção. E sabem que na linha B cinco homens lá trabalham fazendo o mesmo.

Qual a decisão de vocês?”

Em todos os anos de ensino, a resposta foi sempre a mesma: todos optaram por apertar o botão B.

Ao lhes indagar por que faziam assim, respondiam-me que lhes parecia certo submeter a linha na qual estavam menos homens à possibilidade do choque.

Então eu lhes perguntava: “e se, na linha B, estava um engenheiro de manutenção, que por coincidência, era pai de vocês e um irmão, seu auxiliar”?

Seguia-se um silêncio embaraçoso. A grande maioria se recusava a responder a questão. Um ou outro, muito pouco, tendia para um lado ou para o outro.

Questões como essas começam a ser esmiuçadas pela psicologia social, um ramo que em muito deve seus avanços à combinação de duas vertentes poderosas: a teoria da seleção natural de Darwin, e o afã em larga escala, tipicamente americano, de realizar pesquisas de campo.

É nesse nicho que transita Leonard Mlodinow, festejado autor de O Andar do Bêbado, em seu novo livro denominado Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas.

Mlodinow é doutor em física e ensina no famoso Instituto de Física da Califórnia. Mais que isso, ele é coautor, junto com Stephen Hawking – sim, isso mesmo – de alguns livros de inegável sucesso tanto de público quanto de crítica.

Em Subliminar”Mlodinow, fundamentado em vasta pesquisa, apresenta hipóteses instigantes, como essa que eu transcrevo abaixo:

“Como enuncia o psicólogo Johathan Haidt, há duas maneiras de chegar à verdade: a maneira do cientista e a do advogado. Os cientistas reúnem evidências, buscam regularidades, formam teorias que expliquem suas observações e as verificam. Os advogados partem de uma conclusão (com) a qual querem convencer os outros, e depois buscam evidências que a apoiem, ao mesmo tempo em que tentam desacreditar as evidências em desacordo.
Acreditar no que você quer que seja verdade e depois procurar provas para justifica-la não parece ser a melhor abordagem para as decisões do dia a dia.
(...)
Podemos dizer que o cérebro é um bom cientista, mas é um advogado absolutamente brilhante. O resultado é que, na batalha para moldar uma visão coerente e convincente de nós mesmos e do resto do mundo, é o advogado apaixonado que costuma vencer o verdadeiro buscador da verdade”.

Muito embora o autor refira-se a advogados, claro que ele alude a todos quanto lidam com a tarefa de produzir, interpretar e aplicar a norma jurídica.

Em assim sendo faz sentido acreditar, como muitos acreditam, que os juízes, por exemplo, primeiro constroem um ponto de partida extrajurídico (sua visão do mundo, seus valores, seus interesses pessoais, etc.) e, somente depois, buscam evidências que apoiem suas futuras decisões.

A Retórica é exatamente isso..

A hipótese, a partir da qual os operadores do Direito constroem esse ponto de partida, pode ser lida em um dos mais instigantes capítulos da obra de Mlodinow: “In-groups and out-groups”. Nesse capítulo o autor chama a atenção para um fenômeno que, hoje, é fato científico: a tendência que temos de favorecer “os nossos”:

“Os cientistas chamam qualquer grupo de que as pessoas se sentem parte de um ‘in-group’, e qualquer grupo que as exclui de ‘out-group’. (...) É uma diferença importante, porque pensamos de forma diversa sobre membros de grupos de que somos parte e de grupos dos quais não participamos; como veremos, também veremos comportamentos diferentes em relação a eles.

Quando pensamos em nós mesmos como pertencentes a um clube de campo exclusivo, ocupando um cargo executivo, ou inseridos numa classe de usuários de computadores, os pontos de vista de outros no grupo infiltram-se nos nossos pensamentos e dão cores à maneira como percebemos o mundo.

Podemos não gostar muito das pessoas de uma maneira geral, mas nosso ser subliminar tende a gostar mais dos nossos companheiros do nosso ‘in-group’”.

Essa constatação – de que gostamos mais de pessoas apenas por estarmos associados a elas de alguma forma – tem um corolário natural: também tendemos a favorecer membros do nosso grupo nos relacionamentos sociais e nos negócios.

Ou seja, como diz o senso comum: para os amigos tudo; para os indiferentes, a lei; para os inimigos, nada...

Se assim o é, e a ciência vem mostrando que sim, um dos corolários da obra de Mlodinow é pelo menos intrigante, e dá razão ao que dizem, desde há muito, os anarquistas e marxistas: a "visão de classe" contamina as decisões do aparelho judiciário. Não somente do aparelho judiciário. Contamina a produção, interpretação e aplicação da norma jurídica.

Isso quanto aos marxistas e anarquistas. Quanto aos darwinistas, nem se discute mais o assunto. Para quem não é anarquista ou marxista, basta Gaetano Mosca, que também aborda, brilhantemente, essa perspectiva, quando trata da "classe política dirigente".

E quanto ao mundo jurídico? Neste caso, ainda está muito atrasada a discussão. Ainda há "juristas" que crêem ser o Direito uma ciência...


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segunda-feira, 6 de abril de 2026

"A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO", Mário Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa (Arte em desencarte.blogspot.com)



* Honório de Medeiros


Fecho o livro de Llosa, Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo, cujo título foi calcado em A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século, e sinto que encontrei um texto, da melhor qualidade, que desse corpo a essa sensação permanente de estranhamento e solidão vivenciada por tantos, originada pelo descompasso entre a “cultura” na qual fomos criados e a realidade que encontramos nos dias de hoje.

Não é, portanto, “saudosismo”, o que sentimos. Há, de fato, um progressivo, solerte e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendida esta como o pressuposto da construção do processo civilizatório.

Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa, em Notas para uma definição de cultura, de 1948, tão atual, posto que, por exemplo, lá para as tantas, expõe: “E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura”.

É bem verdade que em ensaios tais como A civilização do Espetáculo, e Breve Discurso sobre a Cultura, Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse fenômeno, muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais e animada pelo espírito de lucro, motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força que está por trás das rédeas que conduzem o processo de destruição da cultura tradicional.

Não nos é oferecido, de sua lavra, uma teoria que nos explique a causa de tudo isso.

Para Llosa, por exemplo, civilização do espetáculo é "a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal".

Como não lembrar do personagem de O lobo da estepe, de Hermann Hesse, em seu permanente solilóquio: "O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?"

Entendo, embora possa estar enganado, que mesmo Zygmunt Bauman e sua obra acerca da “vida líquida”, “modernidade líquida”, na qual mergulhei durante algum tempo, também não o conseguiu.

Sua preocupação é, também, descrever um fato, ou melhor, um fenômeno social, o processo civilizatório por nós vividos hoje, um degrau acima, em termos de tempo, com alguns instrumentos intelectuais diferenciados, como tentado pelo excepcional Norbert Elias.

Para Bauman, "a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante"; nas quais "as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades".

Eu me pergunto, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa "vida precária" em "condições de incerteza constante" uma face avançada do processo evolucionário de Charles Darwin?

Aliás, ainda hoje somos devedores, nesse aspecto, dos titãs do século XX, quais sejam Sigmund Freud, Karl Marx e Charles Darwin, por assim dizer. Entretanto, não é o caso de abordar esse tópico por aqui. 

O caso, aqui ,é apenas registrar o alívio ao constatarmos que não estamos errados, nós que sentimos que somos, cada vez mais, órfãos de uma cultura que desde os meados do século XX, vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás.

Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea.

É a banalização da cultura...


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros

domingo, 5 de abril de 2026

"DEMIAN", HERMANN HESSE

 

Hermann Hesse


* Honório de Medeiros


A Luz e as Trevas, o Bem e o Mal

 

“O caminho que sobe e o que desce é o mesmo” (Heráclito de Éfeso, dito “O Obscuro”).

"- Mas terá que aceitar isso – retrucou Woland, e o sorriso irônico entortou sua boca. – Você mal apareceu no telhado e já disse bobagens, e vou dizer onde elas residem: na sua entonação. Você pronunciou suas palavras de tal maneira como se não reconhecesse as sombras, e muito menos a maldade. Não seria muito trabalho de sua parte pensar na seguinte questão: o que faria a sua bondade se não existisse a maldade, como seria a terra se dela sumissem as sombras?” (Mikhail Bulgákov, O Mestre e Margarida).[1] 


Quem, nos anos 70, gostava de ler, possivelmente teve entre as mãos algum livro de Herman Hesse.

Talvez Sidarta, no qual ele romanceou a vida de Gautama Buda, ou mesmo O Jogo das Contas de Vidro e O Lobo da Estepe, os mais cultuados; quem sabe DemianGertrudPequenas HistóriasNarciso e Goldmund, para mencionar os mais conhecidos.

É possível que Demian seja considerado um livro menor, assim como Gertrud, sua continuação.[2] Na verdade, a crítica teceu e tece loas à O Jogo das Contas de Vidro e, em menor escala, a O Lobo da Estepe, muito embora o mais famoso seja Sidarta.

Em Demian, Hesse nos apresenta a um enigmático adolescente e sua mãe, mulher bela e misteriosa iniciada em uma seita religiosa, o Cainismo, que fascinam Sinclair, colega dele de escola e relator da história.

O Cainismo foi uma seita gnóstica cristã do século II, considerada herética pela Igreja Católica, que venerava Caim como filho de um espírito superior ao que teria engendrado seu irmão Abel.

Quando essa questão aparece na convivência entre Demian e Sinclair, aquele aponta, como ponto-de-partida para a iniciação do amigo na doutrina, o conhecimento da vida de uma relação de personagens significativos, embora condenados pela história oficial, começando por Eva, depois Caim, irmão de Abel, cujo nome batiza a seita, bem como Judas Iscariotes, dentre outros.

Sabe-se que o Cainismo foi resgatado no século XIX da total obscuridade por Lord Byron, o cultuado e maldito poeta romântico inglês, e hoje é possível que somente exista em obras emboloradas de historiadores praticamente desconhecidos, a grande maioria ocupando estantes empoeiradas no “Cemitério dos Livros Esquecidos” que fica em Barcelona, do qual nos deu a conhecer Carlos Ruiz Zafón, em famosa tetralogia.

Voltando a Demian, a pergunta que ele faz a Sinclair no processo de sua iniciação nos segredos da seita, durante o transcorrer da trama, é se haveria Adão sem Eva; Abel sem Caim; Jesus, sem Judas, e assim por diante. Evidentemente, a verdadeira pergunta, implícita e fundamental, é se haveria a Luz, sem as Trevas.

Não é ousadia supor que o Cainismo seja descendente do Zoroastrismo ou Mazdeísmo, a religião dominante no Império Persa por volta do século VI a.C. até a invasão e dominação, no reinado de Dario III, por Alexandre “O Grande”, rei macedônio.

O zoroastrismo professava uma interpretação dualista do mundo, entendendo-o como governado pelas forças antagônicas do Bem e do Mal. Existiria um deus supremo, criador de dois outros seres poderosos que seriam extensões de sua própria natureza: Ormuzd (ou Ahura-Mazda, ou ainda Oromasdes, segundo os gregos), a fonte de todo o Bem, e Ariman (Arimanes), a fonte de todo o Mal, depois que se rebelou contra seu criador.

Os conflitos entre o Bem e o Mal seriam constantes até o momento em que os adeptos de Ormuzd venceriam, condenando Ariman e os que o seguiam às trevas eternas.

Tampouco é ousadia acreditar que o Maniqueísmo seria parte dessa linhagem herética e gnóstica originada na Pérsia. Muito tempo depois renascida no Império Romano (sécs. III d.C. e IV d.C.), sua doutrina, plena de um dualismo religioso sincretista, consistia em afirmar, também, a existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal), assim como em localizar a matéria e a carne na escuridão.

Do Maniqueísmo foi seguidor, por um bom tempo, ninguém mais, ninguém menos, que Santo Agostinho de Hipona, Doutor da Igreja, talvez o mais importante pensador católico, autor da “magnum opus” De civitate Dei (A Cidade de Deus), por quem Santa Mônica, sua mãe, tanto rezou para o converter.

Avançando no tempo, mas ainda na mesma linhagem, essa mesma percepção gnóstica, dualística, da realidade, constituiria o cerne da doutrina do Catarismo, professado pelos Perfeitos, os quais a Inquisição, no Século XIII, varreu da face da França, naquela que seria a Primeira Cruzada da Igreja Católica, liderada por São Luis, o nono Rei da França.

Questões como essa suscitaram debates ardentes durante os famosos e esotéricos anos 60 e 70, quando se questionava o modelo de vida que o capitalismo impunha ao mundo. Havia, então, um inebriante fascínio pelo Oriente misterioso dos zoroastristas, cainitas, maniqueístas, iogues, faquires, dervixes, sadhus, budistas, taoístas e seu estilo de vida, enquanto contraponto à hegemonia da sociedade de consumo e do marxismo ocidental.

Não por outra razão ainda hoje encontramos, em alguns nichos pulverizados que a internet tende a ressaltar, uma preocupação esotérica com a vida que parece muito distante do feijão-com-arroz cotidiano ao qual estamos acostumados.

Existem também espaços diminutos, embora alvoroçados, no campo das ideias, resultantes de raízes solidamente firmadas nessa tradição oriental, que se voltam para a tentativa de explicar os fenômenos da antimatéria, física quântica, teoria do caos, em uma perspectiva mais aberta, resvalando para a metafísica, menos atenta ao rigor metodológico ortodoxo próprio da ciência.

Que o diga Fritjof Capra, famoso físico teórico autor de O Tao da Física e O Ponto de Mutação.

Por fim, quanto a Herman Hesse, é possível entender que em Demian e Gertrud, ele tratou obliquamente, ao utilizar o Cainismo como pano de fundo da trama cujo epicentro é a relação entre Demian, Sinclair e Gertrud, da origem e essência do Bem e do Mal.

Mais: ao fazê-lo, trouxe para a claridade, ou pelo menos tentou, a misteriosa seita que seus personagens professavam e, para quem optou por se aprofundar na questão, os mistérios do Zoroastrismo, Maniqueísmo e Catarismo.

Todas essas seitas conectadas pela crença na Realidade enquanto emanação de uma divindade única e suprema, e constituída pela existência concomitante e antagônicas do Bem e do Mal (a Luz e as Trevas), formando a unidade definitiva e primordial de todas as coisas.


[1] BULGÁKOV, Mikhail. O Mestre e Margarida. Rio de Janeiro: Alfaguara. 2003.

[2] HESSE, Hermann. Demian. Rio de Janeiro: Record. 2015.