terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A APLICAÇÃO DO MÉTODO CIENTÍFICO NO ESTUDO DO FENÔMENO DO CANGAÇO


1.bp.blogspot.com

SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço)
Por Honório de Medeiros

01. A aplicação do método científico no estudo dos fenômenos sociais pressupõe a admissão do postulado de Émile Durkheim, qual seja o de que, para sua aplicação, fato social equivaleria a fato natural.

02. Ao próprio postulado fato social = fato natural aplica-se o método científico que o demonstra verdadeiro.

03. O método científico consiste, grosso modo, em propor teorias que sejam testáveis e, em seguida, testa-las para corroborá-las ou nega-las.

04. Se não for passível de teste a teoria formulada não pertence à ciência, e, assim, não pode ser declarada verdadeira ou falsa.

05. A implicação dessas teorias se revela até mesmo no âmbito jurídico, no que diz respeito à possibilidade de danos materiais e/ou morais (p. ex. a afirmação de que Jerônimo Rosado foi coiteiro de Lampião).

06. Revela-se, também, como vetor necessário a ser observado no que diz respeito à seriedade com a qual os pesquisadores do Cangaço devem ou deveriam querer obter da mídia e do meio acadêmico.

07. Revela-se, por fim, para afastar o pouco respeito com o qual é tratado, às vezes, o tema, ao situá-lo como algo especificamente menor ou pequeno, nordestino e folclórico, no sentido negativo dos termos. Nesse sentido não podemos confundir as afirmações feitas pela ciência, alusivas ao tema, com o tratamento a ele dado, por exemplo, pela literatura de cordel. São dimensões distintas. Quando misturadas vamos encontrar literatura querendo ser ciência e ciência que é literatura (p. ex. a comparação entre cangaceiros e samurais), ou seja, confusão que ressalta o aspecto menor, preconceituoso quanto ao nordestino, e folclórico no sentido negativo.

08. Exemplos de enunciados ou afirmações formuladas sem a devida preocupação com o método científico:

a) A afirmação de que Lampião era um estrategista militar. Basta consultar A Arte da Guerra, de Sun Tzu; O Livro dos Cinco Anéis, de Miyamoto Musashi; ou a obra de Carl von Clousewitz acerca da guerra e nos lembrarmos do ataque a Mossoró que essa teoria cai por terra. A suposta capacidade militar de Lampião era resultado de um misto de esperteza banal, coragem contra os fracos, corrupção e incompetência das forças policiais;

b) A afirmação de que Lampião é um produto do meio. Essa afirmação é tautológica – todos somos produto do meio. O problema é o juízo de valor que é construído a partir dessa afirmação banal. Pensemos assim: se o meio conduz à criminalidade, a favela da Rocinha inteira, com seus 100.000 habitantes, seria formada por criminosos. Lampião poderia ter fugido do crime da mesma forma como muitos fugiram sem entrar no cangaço, mesmo tendo passado pelo que ele passou;

c) A afirmação de que Lampião era um revolucionário. Esta é hilariante. Lampião voltou sua crueldade especialmente contra fracos e oprimidos. Acaso há algum episódio de luta sua contra os coronéis, inclusive aqueles que o traíram, como Zé Pereira e Isaías Arruda?

d) A afirmação de que o cangaço foi um fenômeno resultante de conflitos agrários. Esta é uma perspectiva pequena por que decorrente de outra maior – complexa e determinante – de conflitos resultantes de relações de poder. Ou seja, em uma perspectiva macro, o problema da terra foi um problema de Poder. Mas tal problema não engendra um determinismo no sentido marxista do termo. O que se quer dizer é que não há uma relação direta entre conflito por terras e cangaço, haja vista os cangaceiros que entraram no cangaço por que optaram pela vida bandida, insuflados pela aura mítica que envolvia o cangaço. É o mesmo fenômeno que leva filhos da classe média ou alta a optarem pelo banditismo;

e) A afirmação de que Lampião não morreu em Angicos. Aqui robustecemos o aspecto lendário, mítico, tipicamente artístico, em detrimento da ciência. Qual a prova acerca da possibilidade de Lampião não ter morrido em Angicos? Nenhuma. Acaso quem conheceu Lampião e viu sua cabeça decapitada não teria imediatamente denunciado a fraude caso esta tivesse existido?

f) A afirmação de que Jerônimo Rosado foi coiteiro de Lampião;

g) A afirmação de que Jerônimo Rosado é um herói da resistência mossoroense;

h) A estética do cangaço defendida por Pernambucano de Mello. A afirmação correta seria: a estética do bando de Lampião. Não há qualquer manifestação estética nos outros cangaceiros. É puro marketing;

i) A comparação entre cangaceiros e samurais;

j) A afirmação de que Lampião não era cruel, brutal, monstruoso (basta lembrar o episódio do assassinato dos soldados, um por um, com punhal, ajoelhados em sua frente, até o basta de Maria Bonita);

l) A teoria do "escudo ético", de Pernambucano de Mello;

l) A afirmação do motivo romântico de Massilon para invadir Mossoró.

09. Na verdade o estudo do fenômeno do cangaço deve avançar para um novo patamar, um novo paradigma. Esse novo paradigma é o da aplicação do método da ciência, devemos trabalhar com a análise e interpretação de todo o material existente, uma vez que provavelmente não há mais fontes primárias de pesquisa.

10. Assim, precisamos estudar a relação entre Coronelismo, feudalismo e cangaço.

11. Estudar o papel do Poder e das Forças Públicas em relação ao Cangaço.

12. Estudar o papel da Igreja em relação ao cangaço. Não somente Pe. Cícero mas aqueles lenientes com os coronéis que acoitavam. Não se trata de denunciar, mas de entender.

13. Estudar, por exemplo, o papel das forças políticas em Mossoró na época da invasão de Lampião: por que a conduta omissiva do Juiz e do Promotor da cidade quanto ao exercício de suas atribuições? Por que a conduta da Polícia matando Jararaca?

14. Por fim propor e discutir um novo conceito para cangaço, dentro de uma perspectiva científica que identifique o geral no particular e afaste, de vez, o estudo do fenômeno do cangaço do mero "contar casos".

9 comentários:

Sergio Dantas disse...

Prezado amigo:
Não tinha visto esta postagem ainda. Se me permite, dentro dos meus parcos conhecimentos na área, gostaria de fazer algumas breves observações:
Em relação aos itens 01 a 07, nada a acrescentar, pois são fundamentos básicos para quem pretende escrever algo. Não é preciso ser o ‘estudo do cangaço’. Em qualquer área de estudo que se tenha como científica, é de bom alvitre observar os preceitos que o ilustrado amigo citou. Servem não somente a escritores ou pesquisadores. São paradigmas gerais, concorda?
Por outro lado, esse método científico que o amigo cita (que equipara o fato social ao natural), foi já amplamente usado por Sílvio Romero e tem uma de suas raízes – senão a principal – no método proposto pelo francês Hyppolite Adolphe Taine (Vouzier, 21/04/1828 - Paris, 05/03/1893) em 1863 (ver, por exemplo, ‘Histoire de la Litératture Anglaise). Acho que isso não é novidade para o amigo.

Sergio Dantas disse...

Já em relação aos aspectos citados a partir do item 08, em que pese meu pouco tempo de estudo na área (perto de onze anos), devo me arriscar em emitir algumas considerações em contrário às suas observações. Aqui peço a máxima vênia para enumerá-las.
a) A afirmação de que Lampião era um estrategista militar. Concordo. Não o era, pois não pertencia a qualquer Força Armada regular. Era um cangaceiro. ‘Nada’ além disso. Só não entendi a extensão do termo ‘corrupção’ aí dentro desse contexto. Corrupção de quem?
b) A afirmação de que Lampião é um produto do meio. Plenamente de acordo com seus argumentos, mas lembre-se que interpretações semelhantes foram impulsionadas após a publicação do célebre CANGACEIROS E FANÁTICOS, de Rui Facó, livro de feição notadamente marxista. Como ser marxista (mesmo sem se saber direito de que se trata) sempre foi – E AINDA É - moda entre os ditos intelectuais, não muito demorou para o personagem ’Lampião’ passar a povoar os devaneios de pensadores afiliados a esta linha doutrinária.
e) ‘A afirmação de que Lampião não morreu em Angicos’. Essa nem merece comentários. Passo.

Sregio Dantas disse...

f) ‘A afirmação de que Jerônimo Rosado foi coiteiro de Lampião’. Fiquei surpreso com a assertiva. Partiu de quem essa pérola?
g) ‘A afirmação de que Jerônimo Rosado é um herói da resistência mossoroense’ - Essa tese se tentou se plantar a todo custo um tempo desses. Porém, de tão absurda, não vingou.
h) A estética do cangaço defendida por Pernambucano de Mello. A afirmação correta seria: a estética do bando de Lampião. Não há qualquer manifestação estética nos outros cangaceiros. É puro marketing. DISCORDO. Lampião, não resta dúvida, soube bem explorar sua imagem e isso acabou por ofuscar todos os conteporâneos. Daí a idéia distorcida de que seria uma ‘estética de Lampião’. Se o amigo se permitir analisar fotos dos grupos de Mariano ou de Corisco, só à guisa de exemplo, verá inúmeros detalhes que os faziam diferir do rei-do-cangaço. Há ainda inúmeros TESTEMUNHOS DE ÉPOCA que relevam a forma destacada e particular que fazia se perceber - mesmo a distância - quando era o bando de Mariano ou de Corisco que se aproximava. Filigranas, talvez. Mas, para a matutada, diferenças perceptíveis. Muitos dizem que o bando de Mariano era o ‘mais elegante’. Ou ‘Corisco muitas vezes usava um brim branco, para se destacar dos outros ‘chefes’. Se há uma gradação, há, sim, uma estética própria de cada um destes chefes e não só de Lampião. Creio que é preciso ir mais fundo aí, e isso professor Frederico Pernambucano já vem fazendo há algum tempo. O livro ‘ESTRELAS DE COURO’, do pesquisador acima citado (em vias de ser publicado), vai ajudar a clarear de forma mais adequada esse ponto.

Sergio Dantas disse...

j) A afirmação de que Lampião não era cruel, brutal, monstruoso (basta lembrar o episódio do assassinato dos soldados, um por um, com punhal, ajoelhados em sua frente, até o basta de Maria Bonita); - A QUAL ASSASSINATO O AMIGO SE REFERE? é preciso lapidar esse ponto, pois se foi no assalto a Queimadas, em dezembro de 1929, MARIA BONITA ainda não fazia parte do grupo. Se o amigo se referiu à matança dos trabalhadores da estrada Glória-Juazeiro, também Maria não estava presente. Seria bom declinar com precisão o episódio ao qual o amigo faz referência, a fim de propiciar uma melhor análise ou compreensão.

l) A teoria do "escudo ético", de Pernambucano de Mello - Creio interessante o amigo apontar os fundamentos para refutá-la. A afirmação ficou vaga...
l) ‘A afirmação do motivo romântico de Massilon para invadir Mossoró’ – Neste ponto, cabe uma consideração à parte. Eu me debrucei durante quase 4 anos para traçar o roteiro de Lampião em nosso Estado e nunca encontrei elementos que o apontasse como o principal promotor do ataque à cidade de Mossoró. Veja que citei (em mais de uma oportunidade), os nomes de José Cardoso, Isaías Arruda, Joaquim Macedo, etc como os reais articuladores da malfadada invasão. Massilon foi,digamos, apenas – e nada mais que isso - o ‘guia’ da empreitada irresponsável. Quem teria dito algo em contrário?

Sergio Dantas disse...

09. Na verdade o estudo do fenômeno do cangaço deve avançar para um novo patamar, um novo paradigma. Esse novo paradigma é o da aplicação do método da ciência, devemos trabalhar com a análise e interpretação de todo o material existente, uma vez que provavelmente não há mais fontes primárias de pesquisa. HÁ SIM. Talvez não da primeira fase ( a que durou ate agosto de 1928). Se fosse declinar nomes de ex-cangaceiros VIVOS, talvez ainda conseguisse atingir uma dezena; ex-policiais, chegaríamos a quase trinta. Além desses, há ainda inúmeras testemunhas oculares de eventos ocorridos na segunda fase, notadamente entre os anos de 1933 e 1940 (quando morreu Corisco). Entendo que começam a RAREAR as fontes primárias. Mas elas estão aí. O problema é que quase ninguém mais procura. ‘Correr sertão’ e ‘comer poeira’ não é tarefa das mais fáceis, convenhamos. Mas para quem procura, acha. E acha ainda com alguma abundância...Faça uma viagem entre a região de Euclides da Cunha, passando por Jeremoabo, Canudos, Uauá, Sítio do Quinto, Cícero Dantas e Santa Brígida, até ‘sair’ em Paulo Afonso. Isso só na Bahia. Depois siga em direção a Sergipe e comece em Poço Redondo. Daí desça para Glória, Amparo, Ribeirópolis, Frei Paulo, Carira até chegar à margem do São Francisco. Daí atravesse para Alagoas e entre em Piranhas. Depois, siga para Delmiro Gouveia, Água Branca, Mata Grande, Santana do Ipanema, São José da Tapera, Jacaré dos Homens, Batalha e Senador Rui Palmeira. Faça esse ‘tour’. Certamente o amigo se surpreenderá com o que se esconde nesses lugares e refaça a idéia de que ‘provavelmente não há mais fontes primárias’.

Sergio Dantas disse...

10. Assim, precisamos estudar a relação entre Coronelismo, feudalismo e cangaço. Não alcancei o sentido de FEUDALISMO nesse contexto. A rigor, o único feudo brasileiro (e latino-americano) foi a CASA DA TORRE, da família Garcia D´Ávila, na Bahia. Acho que o amigo poderia nos clarear melhor esse aspecto. Não seria ‘Oligarquias’ o termo mais adequado?
11. Estudar o papel do Poder e das Forças Públicas em relação ao Cangaço – JÁ HÁ ALGUNS BONS LIVROS NESSE SENTIDO. São poucos, mas há. Cito de memória: O CANTO DO ACAUÃ (Marilourdes Ferraz), O OUTRO LADO DO CANGAÇO (Roberto Pedroza), A DERRADEIRA GESTA (Luitgarde Oliveira), entre outros. Assim, penso que o ‘ponta-pé’ inicial já foi dado...

Sergio Dantas disse...

13. Estudar, por exemplo, o papel das forças políticas em Mossoró na época da invasão de Lampião: por que a conduta omissiva do Juiz e do Promotor da cidade quanto ao exercício de suas atribuições? Por que a conduta da Polícia matando Jararaca? – Amigo, me perdoe, mas não houve OMISSÃO ALGUMA. No Rio Grande do Norte foram abertos TRÊS PROCESSOS CRIMINAIS COMUNS: um em Pau dos Ferros, um em Martins e outro em Mossoró. Inclusive, uma das peças que compõem o processo instaurado contra Lampião em Pau dos Ferros foi extraído, originariamente, do processo similar aberto em Mossoró. E sobre a morte de ‘Jararaca’, ‘Mormaço’ e outros, foi aberto processo extraoridnário pelo Tribunal Revolucionário de 1930. O que talvez o ilustrado amigo não saiba é que esses processos relativos a Mossoró (e à execução dos cangaceiros) SUMIRAM. Oswaldo Lamartine insinuava que os próprios interventores estaduais, ‘após baixar a poeira’, se encarregaram de fazer evaporar os autos. Vingt-Un Rosado atribuía o desaparecimento a um incêndio ocorrido no Cartório Criminal de Mossoró (mesmo pensamento – e conclusão - de Raimundo Soares de Brito e de Raul Fernandes). Creio, amigo, que o Judiciário e o Ministério Público, mesmo dentro das péssimas condições que lhes eram cedidas pelo gestor público (O Todo-poderoso PODER EXECUTIVO), fizeram sua parte. Se os governantes acharam que seria cômodo ‘dar sumiço’ aos autos, não cabe responsabilidade ao Judiciário ou ao MP. O ataque aí, seria para manter a linha tradicional do Blog??

Augusto disse...

14. Por fim propor e discutir um novo conceito para cangaço, dentro de uma perspectiva científica que identifique o geral no particular e afaste, de vez, o estudo do fenômeno do cangaço do mero "contar casos". COMO NÃO TENHO O NECESSÁRIO TEMPO DE ESTUDOS NA ÁREA DO CANGAÇO PARA ANALISAR ALGUMA COISA (COMO DISSE, POUCO MAIS DE DEZ ANOS), CONTINUAREI ‘CONTANDO CASOS’, POIS ENTENDO QUE HÁ INÚMERAS LACUNAS BIOGRÁFICAS A PREENCHER. ALIÁS, PRECISAMOS ATÉ DE MAIS GENTE NESSA ÁREA, ANTES QUE AS FONTES PRIMÁRIAS SE TORNEM ÁRIDAS...

Saudações
Sérgio Dantas.’.

Augusto disse...

14. Por fim propor e discutir um novo conceito para cangaço, dentro de uma perspectiva científica que identifique o geral no particular e afaste, de vez, o estudo do fenômeno do cangaço do mero "contar casos". COMO NÃO TENHO O NECESSÁRIO TEMPO DE ESTUDOS NA ÁREA DO CANGAÇO PARA ANALISAR ALGUMA COISA (COMO DISSE, POUCO MAIS DE DEZ ANOS), CONTINUAREI ‘CONTANDO CASOS’, POIS ENTENDO QUE HÁ INÚMERAS LACUNAS BIOGRÁFICAS A PREENCHER. ALIÁS, PRECISAMOS ATÉ DE MAIS GENTE NESSA ÁREA, ANTES QUE AS FONTES PRIMÁRIAS SE TORNEM ÁRIDAS...

Saudações
Sérgio Dantas.’.