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terça-feira, 31 de março de 2026

LIRA NETO, JORNALISMO COM MISSÃO BIOGRÁFICA

 



Por Gustavo Sobral


Aspirante a biógrafo profissional, o jornalista Lira Neto deixou o jornalismo para se aventurar numa escolha certa em seara incerta: tornar-se biógrafo.

Em A arte da biografia: como escrever histórias de vida (Companhia das Letras, 2022, 192p.), ele costura sua trajetória pessoal a reflexões, mostrando que biografar é, antes de tudo, um ofício comprometido com um propósito.

Para Lira Neto, tudo começa com uma pergunta de pesquisa e um objetivo claro: a biografia existe para compreender uma época a partir de uma trajetória individual ou coletiva. O biografado, assim, torna-se uma lente para ler seu tempo; e o tempo é moldado pela narrativa que o biógrafo constrói.

É preciso, portanto, levantar tudo que já foi publicado sobre o biografado, entre jornais, documentos pessoais, cartas, diários, memórias etc. A missão biográfica é jornalística, pois exige apurar, verificar, contar. E, nesse processo, também entra a entrevista com testemunhas da vida do biografado.

A entrevista exige um propósito e um roteiro prévio. O entrevistador deve ter em mente que entrevistar é um exercício de envolvimento, empatia e sedução. Mas nada disso adianta se o biógrafo não estiver munido de criatividade e imaginação. Por isso, o senso de detetive, o olhar do antropólogo e o espírito do arqueólogo também são essenciais na arte de biografar.

O detetive é aquele que, a partir de indícios, é capaz de recompor uma cena; o antropólogo, aquele capaz de reconhecer as condições e circunstâncias de produção de um dado documento; e o arqueólogo, aquele que, a partir da leitura de fragmentos, é capaz de reconstituir um contexto.

Já a escrita biográfica deve empregar todos os recursos disponíveis na arte de bem escrever. O texto deve evitar divagações, falta de foco e de ritmo, linguagem empolada, valorizar os detalhes e apresentar logo nas primeiras páginas o conflito.

Lira Neto sugere ainda optar por descrições cinematográficas e isso tudo para captar a atenção do leitor, o que, pela precisão dos fatos, pode se revelar uma tarefa difícil. Esses pormenores conferem um efeito de realidade à narrativa. Descrições, caracterizações de cenários e de personagens, estes e outros recursos retóricos geram uma ideia de testemunho.

O biógrafo tem o controle do tempo do discurso: pode avançar ou retardar a narrativa quando julgar conveniente. O texto também é o espaço para o biógrafo revelar as fontes e os métodos empregados, valendo-se de um recurso caro ao jornalismo: informar sobre as fontes consultadas e ser honesto quanto às lacunas.

Assim, a biografia se apresenta como uma arte, pois perpassa todo o seu processo uma postura criativa do biógrafo, da pesquisa ao texto. Sem contar que o texto exige do biógrafo não apenas rigor no trato das informações, mas também dedicação e completo envolvimento, até porque a biografia é, antes de tudo, uma escolha pessoal do biógrafo.

A biografia é uma doação a um processo de pesquisa que envolve o manejo de uma massa documental diversa, o domínio das técnicas de pesquisa e entrevista, a seleção das informações coletadas, o conhecimento da urdidura do texto e do processo narrativo.

Não é outra a ideia biográfica de Lira Neto neste livro: propor, a partir de sua experiência, a matéria que faz da biografia a arte de contar uma história de vida. Com isso, reafirma a biografia como território de encontro entre o jornalismo e a literatura. Um espaço em que o rigor factual se combina com o gesto criativo para contar de uma vida.

***
Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMO ENTENDER GETÚLIO VARGAS?

 



* Honório de Medeiros 
 
Como entender o camaleônico Getúlio Vargas?

No volume 1 do excepcional “GETÚLIO” (1882-1930), de Lira Neto, parece estar a resposta.

Borges de Medeiros, que andara às rusgas com os Vargas, voltara a cortejá-los.

São os idos de 1913-1915. Faz, então, o convite a Getúlio para ocupar o importantíssimo, na época, cargo que ele mesmo ocupara, de Chefe da Polícia Estadual.

Getúlio analisou e recusou o convite.

“Mesmo rejeitando o convite”, conta-nos Lira Neto, (Getúlio) “tomou os cuidados necessários para que seu gesto não fosse interpretado por Borges de Medeiros como um acinte”.

Instado, pelos amigos, a se explicar, Getúlio Vargas o fez:

“Na luta, vencer é adaptar-se, isto é, condicionando-se ao meio, apreender as forças dominantes, para dominá-lo”, esclareceu ao amigo Telmo Monteiro.

“Para Getúlio”, prossegue Lira Neto, “aquela frase, de clara inspiração darwinista, passara a funcionar como uma espécie de mantra. Faria questão de repassá-la aos filhos, como uma fórmula explicativa da vida e do mundo”.

“Vencer não é esmagar ou abater pela força todos os obstáculos que encontramos – vencer é adaptar-se", repetiria certo dia Getúlio Vargas ao filho mais velho, Lutero.

Como o garoto ficasse em dúvida a respeito do verdadeiro significado da sentença, o pai detalharia: "Adaptar-se não é o conformismo, o servilismo ou a humilhação; adaptar-se quer dizer tomar a coloração do ambiente para melhor lutar”.

Essa informação, essencial para entender Getúlio Vargas, o escritor Lira Neto colheu no “DIÁRIOS” (2 volumes; São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas; 1995), e soube compreender sua importância.

Quanto a essa importância, muito embora a informação, por si somente, a assegure, convém observar que dada sua relação com o pensamento de Lamarck, não propriamente com o de Darwin, pode ensejar rios de tinta enquanto dissertações de mestrado e/ou teses de doutoramento.

Principalmente se a cotejarmos com as consequências teórico-políticas da existência de uma Lei da Evolução, qual seja o pensamento de Maquiavel ou de Gaetano Mosca, ou se a cotejarmos com a vida de notórios manipuladores, tais quais Talleyrand ou Fouché, sobreviventes históricos de sua própria época política.

O certo é que Lira Neto, de forma brilhante, apreendeu a medula do aparentemente proteiforme Getúlio Vargas e a expôs no primeiro volume de sua biografia, uma obra seminal.

Nesse pequeno trecho lemos, oculto por uma vida intensa, complexa, onipresente ainda hoje, como pensava e agia o mais importante político brasileiro do século XX.


ARTE: chargistaclaudio.zip.net
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* @honoriodemedeiros