quarta-feira, 8 de abril de 2026
"SUBLIMINAR: COMO O INCONSCIENTE INFLUENCIA NOSSAS VIDAS", Leonard Mlodinow
segunda-feira, 6 de abril de 2026
"A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO", Mário Vargas Llosa
Como não lembrar do personagem de O lobo da estepe, de Hermann Hesse, em seu permanente solilóquio: "O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?"
domingo, 5 de abril de 2026
"DEMIAN", HERMANN HESSE
* Honório de Medeiros
“O caminho que sobe e o que desce é o mesmo” (Heráclito de Éfeso, dito “O Obscuro”).
"- Mas terá que aceitar isso – retrucou Woland, e o sorriso irônico entortou sua boca. – Você mal apareceu no telhado e já disse bobagens, e vou dizer onde elas residem: na sua entonação. Você pronunciou suas palavras de tal maneira como se não reconhecesse as sombras, e muito menos a maldade. Não seria muito trabalho de sua parte pensar na seguinte questão: o que faria a sua bondade se não existisse a maldade, como seria a terra se dela sumissem as sombras?” (Mikhail Bulgákov, O Mestre e Margarida).[1]
Quem, nos anos 70, gostava de ler, possivelmente teve entre as mãos algum livro de Herman Hesse.
Talvez Sidarta, no qual ele romanceou a vida de Gautama Buda, ou mesmo O Jogo das Contas de Vidro e O Lobo da Estepe, os mais cultuados; quem sabe Demian; Gertrud; Pequenas Histórias; Narciso e Goldmund, para mencionar os mais conhecidos.
É possível que Demian seja considerado um livro menor, assim como Gertrud, sua continuação.[2] Na verdade, a crítica teceu e tece loas à O Jogo das Contas de Vidro e, em menor escala, a O Lobo da Estepe, muito embora o mais famoso seja Sidarta.
Em Demian, Hesse nos apresenta a um enigmático adolescente e sua mãe, mulher bela e misteriosa iniciada em uma seita religiosa, o Cainismo, que fascinam Sinclair, colega dele de escola e relator da história.
O Cainismo foi uma seita gnóstica cristã do século II, considerada herética pela Igreja Católica, que venerava Caim como filho de um espírito superior ao que teria engendrado seu irmão Abel.
Quando essa questão aparece na convivência entre Demian e Sinclair, aquele aponta, como ponto-de-partida para a iniciação do amigo na doutrina, o conhecimento da vida de uma relação de personagens significativos, embora condenados pela história oficial, começando por Eva, depois Caim, irmão de Abel, cujo nome batiza a seita, bem como Judas Iscariotes, dentre outros.
Sabe-se que o Cainismo foi resgatado no século XIX da total obscuridade por Lord Byron, o cultuado e maldito poeta romântico inglês, e hoje é possível que somente exista em obras emboloradas de historiadores praticamente desconhecidos, a grande maioria ocupando estantes empoeiradas no “Cemitério dos Livros Esquecidos” que fica em Barcelona, do qual nos deu a conhecer Carlos Ruiz Zafón, em famosa tetralogia.
Voltando a Demian, a pergunta que ele faz a Sinclair no processo de sua iniciação nos segredos da seita, durante o transcorrer da trama, é se haveria Adão sem Eva; Abel sem Caim; Jesus, sem Judas, e assim por diante. Evidentemente, a verdadeira pergunta, implícita e fundamental, é se haveria a Luz, sem as Trevas.
Não é ousadia supor que o Cainismo seja descendente do Zoroastrismo ou Mazdeísmo, a religião dominante no Império Persa por volta do século VI a.C. até a invasão e dominação, no reinado de Dario III, por Alexandre “O Grande”, rei macedônio.
O zoroastrismo professava uma interpretação dualista do mundo, entendendo-o como governado pelas forças antagônicas do Bem e do Mal. Existiria um deus supremo, criador de dois outros seres poderosos que seriam extensões de sua própria natureza: Ormuzd (ou Ahura-Mazda, ou ainda Oromasdes, segundo os gregos), a fonte de todo o Bem, e Ariman (Arimanes), a fonte de todo o Mal, depois que se rebelou contra seu criador.
Os conflitos entre o Bem e o Mal seriam constantes até o momento em que os adeptos de Ormuzd venceriam, condenando Ariman e os que o seguiam às trevas eternas.
Tampouco é ousadia acreditar que o Maniqueísmo seria parte dessa linhagem herética e gnóstica originada na Pérsia. Muito tempo depois renascida no Império Romano (sécs. III d.C. e IV d.C.), sua doutrina, plena de um dualismo religioso sincretista, consistia em afirmar, também, a existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal), assim como em localizar a matéria e a carne na escuridão.
Do Maniqueísmo foi seguidor, por um bom tempo, ninguém mais, ninguém menos, que Santo Agostinho de Hipona, Doutor da Igreja, talvez o mais importante pensador católico, autor da “magnum opus” De civitate Dei (A Cidade de Deus), por quem Santa Mônica, sua mãe, tanto rezou para o converter.
Avançando no tempo, mas ainda na mesma linhagem, essa mesma percepção gnóstica, dualística, da realidade, constituiria o cerne da doutrina do Catarismo, professado pelos Perfeitos, os quais a Inquisição, no Século XIII, varreu da face da França, naquela que seria a Primeira Cruzada da Igreja Católica, liderada por São Luis, o nono Rei da França.
Questões como essa suscitaram debates ardentes durante os famosos e esotéricos anos 60 e 70, quando se questionava o modelo de vida que o capitalismo impunha ao mundo. Havia, então, um inebriante fascínio pelo Oriente misterioso dos zoroastristas, cainitas, maniqueístas, iogues, faquires, dervixes, sadhus, budistas, taoístas e seu estilo de vida, enquanto contraponto à hegemonia da sociedade de consumo e do marxismo ocidental.
Não por outra razão ainda hoje encontramos, em alguns nichos pulverizados que a internet tende a ressaltar, uma preocupação esotérica com a vida que parece muito distante do feijão-com-arroz cotidiano ao qual estamos acostumados.
Existem também espaços diminutos, embora alvoroçados, no campo das ideias, resultantes de raízes solidamente firmadas nessa tradição oriental, que se voltam para a tentativa de explicar os fenômenos da antimatéria, física quântica, teoria do caos, em uma perspectiva mais aberta, resvalando para a metafísica, menos atenta ao rigor metodológico ortodoxo próprio da ciência.
Que o diga Fritjof Capra, famoso físico teórico autor de O Tao da Física e O Ponto de Mutação.
Por fim, quanto a Herman Hesse, é possível entender que em Demian e Gertrud, ele tratou obliquamente, ao utilizar o Cainismo como pano de fundo da trama cujo epicentro é a relação entre Demian, Sinclair e Gertrud, da origem e essência do Bem e do Mal.
Mais: ao fazê-lo, trouxe para a claridade, ou pelo menos tentou, a misteriosa seita que seus personagens professavam e, para quem optou por se aprofundar na questão, os mistérios do Zoroastrismo, Maniqueísmo e Catarismo.
Todas essas seitas conectadas pela crença na Realidade enquanto emanação de uma divindade única e suprema, e constituída pela existência concomitante e antagônicas do Bem e do Mal (a Luz e as Trevas), formando a unidade definitiva e primordial de todas as coisas.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
"O JULGAMENTO DE SÓCRATES", I. F. STONE
quarta-feira, 1 de abril de 2026
"DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA", ÉTIENNE DE LA BOÉTIE
terça-feira, 31 de março de 2026
LIRA NETO, JORNALISMO COM MISSÃO BIOGRÁFICA
Por Gustavo Sobral
Aspirante a biógrafo profissional, o jornalista Lira Neto deixou o jornalismo para se aventurar numa escolha certa em seara incerta: tornar-se biógrafo.
Em A arte da biografia: como escrever histórias de vida (Companhia das Letras, 2022, 192p.), ele costura sua trajetória pessoal a reflexões, mostrando que biografar é, antes de tudo, um ofício comprometido com um propósito.
Para Lira Neto, tudo começa com uma pergunta de pesquisa e um objetivo claro: a biografia existe para compreender uma época a partir de uma trajetória individual ou coletiva. O biografado, assim, torna-se uma lente para ler seu tempo; e o tempo é moldado pela narrativa que o biógrafo constrói.
É preciso, portanto, levantar tudo que já foi publicado sobre o biografado, entre jornais, documentos pessoais, cartas, diários, memórias etc. A missão biográfica é jornalística, pois exige apurar, verificar, contar. E, nesse processo, também entra a entrevista com testemunhas da vida do biografado.
A entrevista exige um propósito e um roteiro prévio. O entrevistador deve ter em mente que entrevistar é um exercício de envolvimento, empatia e sedução. Mas nada disso adianta se o biógrafo não estiver munido de criatividade e imaginação. Por isso, o senso de detetive, o olhar do antropólogo e o espírito do arqueólogo também são essenciais na arte de biografar.
O detetive é aquele que, a partir de indícios, é capaz de recompor uma cena; o antropólogo, aquele capaz de reconhecer as condições e circunstâncias de produção de um dado documento; e o arqueólogo, aquele que, a partir da leitura de fragmentos, é capaz de reconstituir um contexto.
Já a escrita biográfica deve empregar todos os recursos disponíveis na arte de bem escrever. O texto deve evitar divagações, falta de foco e de ritmo, linguagem empolada, valorizar os detalhes e apresentar logo nas primeiras páginas o conflito.
Lira Neto sugere ainda optar por descrições cinematográficas e isso tudo para captar a atenção do leitor, o que, pela precisão dos fatos, pode se revelar uma tarefa difícil. Esses pormenores conferem um efeito de realidade à narrativa. Descrições, caracterizações de cenários e de personagens, estes e outros recursos retóricos geram uma ideia de testemunho.
O biógrafo tem o controle do tempo do discurso: pode avançar ou retardar a narrativa quando julgar conveniente. O texto também é o espaço para o biógrafo revelar as fontes e os métodos empregados, valendo-se de um recurso caro ao jornalismo: informar sobre as fontes consultadas e ser honesto quanto às lacunas.
Assim, a biografia se apresenta como uma arte, pois perpassa todo o seu processo uma postura criativa do biógrafo, da pesquisa ao texto. Sem contar que o texto exige do biógrafo não apenas rigor no trato das informações, mas também dedicação e completo envolvimento, até porque a biografia é, antes de tudo, uma escolha pessoal do biógrafo.
A biografia é uma doação a um processo de pesquisa que envolve o manejo de uma massa documental diversa, o domínio das técnicas de pesquisa e entrevista, a seleção das informações coletadas, o conhecimento da urdidura do texto e do processo narrativo.
Não é outra a ideia biográfica de Lira Neto neste livro: propor, a partir de sua experiência, a matéria que faz da biografia a arte de contar uma história de vida. Com isso, reafirma a biografia como território de encontro entre o jornalismo e a literatura. Um espaço em que o rigor factual se combina com o gesto criativo para contar de uma vida.
segunda-feira, 30 de março de 2026
CASCUDO, SEMPRE!
sexta-feira, 27 de março de 2026
"CONHECIMENTO OBJETIVO", de Sir Karl Raymund Popper
quinta-feira, 26 de março de 2026
REPORTAR O SERTÃO, JORNALISMO EM VIAGEM
* Gustavo Sobral
quarta-feira, 25 de março de 2026
NO REMANSO DA PIRACEMA, DE FRANÇOIS SILVESTRE
segunda-feira, 23 de março de 2026
COMO ENCONTRAR O TRABALHO DE SUA VIDA, DE ROMAN KRZNARIC