sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - III

 

Tertuliano Ayres Dias


* Honório de Medeiros


O FOGO DE PAU DOS FERROS, CONTINUAÇÃO...


Abaixo, a transcrição do depoimento de Tertuliano Ayres, o "Terto Ayres", participante da "Hecatombe de 1919", acerca do episódio, trinta e sete anos depois, a jornais da época, no Museu Histórico Lauro da Escóssia, em Mossoró, comprovando a deposição, à força das armas, do Coronel Joaquim Correia, pelo Coronel Adolpho Fernandes, uma prática quiçá importada do Cariri Cearense, onde era bastante comum por aquela época.

“Nos anos de 1907 a 1908 os pauferrenses, aqueles que se achavam em melhores condições financeiras, incentivados pelo Dr. Horácio Barreto e o Coronel Joaquim Correia, respectivamente Juiz de Direito e Chefe Político da localidade, resolveram comprar um instrumental para a organização de uma banda de música local”.

“A compra foi de 12 a 14 instrumentos, inclusive a pancadaria e o seu custo foi de um conto de réis e pouco. A referida corporação musical teve, porém, vida efêmera e a sua existência não chegou a dois anos". 

Extinta, porém, a banda de música, os instrumentos ficaram espalhados em mãos diversas dos que fizeram parte da banda, sem conservação, em completo abandono”.

“Eu também fiz parte da banda e em meu poder encontravam-se um ou dois instrumentos que estavam em bom estado de conservação, visto que gostava imensamente da arte musical e por este motivo jamais deixei de estudar música”.

“Em 1918 eu resolvi organizar uma nova corporação musical lançando, para isso, mão dos instrumentos abandonados, em conjunto com Horácio Bernardino, músico da antiga banda. Reunimos novos elementos, fiz-me professor de música. Dentro de alguns meses, estávamos com a banda formada”.

“A banda era composta por gente moça, solteiros e independentes, levando ali uma vida de festa, tocando por que gostávamos da arte e não como meio de vida. O Coronel Joaquim Correia era o Chefe Político de Pau dos Ferros e pessoa de muito prestígio. Nós, da banda de música, acompanhávamos a política do Coronel, com exceção de um único elemento”.

“O Governador do Estado era o Dr. Ferreira Chaves, a quem o Coronel acompanhava e para quem muito trabalhou em sua eleição".

"Encontrava-se em Natal o Dr. Horácio Barreto que, a chamado do Dr. Ferreira Chaves, ali ocupava um lugar de destaque no Governo do Estado”.

“Em Pau dos Ferros, a política fervia e o Coronel Adolpho Fernandes, juntamente com o Dr. Guilherme Lins, Francisco Dantas, Galdino de Carvalho e Mano Marcelino organizaram-se, chefiados em Natal pelo Dr. Horácio Barreto e o próprio Governador Ferreira Chaves, para derrubar o Coronel Joaquim Correia de qualquer maneira”.

“O prestígio do Coronel Correia, no entanto, em Pau dos Ferros, era grande, e destituí-lo por meio do voto popular seria muito difícil". 

"Nesse estado de coisas inesperadamente chegou a Pau dos Ferros o Tenente João Pedro com uma tropa de 10 soldados. Isso surpreendeu a todos por que lá já existia um destacamento suficiente para policiar a cidade".

"Causou estranheza, também, o fato de a tropa vinda não se aquartelar com o destacamento local, indo abrigar-se em uma residência, a de Marcelino Dantas, no centro da cidade. A chegada dessa tropa foi na segunda quinzena de Março”.

“Em fins de Março surgiu uma história: o partido do Coronel Adolpho Fernandes e Dr. Guilherme queria dividir o instrumental da banda de música em meu poder, uma vez que pessoas do citado partido tinham contribuído para sua compra". 

"Diante disso eu e outros ligados ao Coronel Correia procuramos fazer um levantamento dos que tinham contribuído para a compra dos instrumentos e, assim, encontramos, se não todos, mas quase, e a grande maioria, correligionários”.

“No dia 3 de abril por volta das três horas da tarde atravessava eu a rua quando vem ao meu encontro Adolpho Fernandes e me diz: ‘Terto, eu quero uma reunião em sua casa para tratarmos desse negócio da música’. Eu lhe perguntei: quando? Ele me respondeu: 'Daqui a pouco'. Eu lhe disse: 'sim, senhor'”.

“E por volta das três horas chegaram, em minha casa Adolpho Fernandes, Dr. Guilherme Lins, Francisco Dantas, Martiniano Papagaio e outros, todos pertencentes ao partido político do Dr. Horácio Barreto, por eles representados". 

"Convidei-os a entrar e sentarem-se”.

“Adolpho Fernandes expôs que aquele instrumental pertencia a várias pessoas e queria a divisão. Vi logo que o assunto era importante e que se tratava de política. Propus, então, chamar o Coronel Correia para tomar parte no assunto, no que fui atendido. Minutos depois chegava o Coronel Correia”.

“O Dr. Guilherme Lins, em tom severo, disse que estavam ali para dividirem os instrumentos da banda de música. Por sua vez, o Coronel Correia disse que sim, pois era um caso fácil de ser resolvido visto estar ali a lista dos contribuintes, e como instrumento era algo indivisível, propunha pagar a parte dos outros e ficava com eles, ou vice-versa”.

“A esta proposta o Dr. Guilherme, em tom alto, respondeu que aquilo era proposta para botocudo e não para ele, ao que o Coronel Correia retrucou: ‘não conheço outra forma, por se tratar de peças indivisíveis, mas sugiro que, neste caso, que o Senhor lance outra fórmula’. Nisto, Francisco Dantas interrompe dizendo que é para partir ao meio e o pedaço que lhe tocasse daria a um ferreiro para fazer solda”.

“Neste momento silenciaram todos, não havendo discussão, nem alteração dos ânimos, apenas silêncio, que foi interrompido por Martiniano Papagaio que, levantando-se, foi abrindo o palitó como que para puxar uma arma e, dirigindo-se ao Dr. Guilherme, disse: ‘É tempo, Dr.', e foi partindo para o Coronel Correia. Essas palavras eu as ouvi, pois estava bem próximo a Martiniano”.

“Outros, porém, confessaram que ouviram Martiniano completar a frase dizendo: ‘é tempo, Dr., não viemos para isto?’ E ao terminar as últimas palavras desfechou uma facada contra o Coronel Correia. Ao lado deste estava o Padre Galvão que se levantando ligeiramente deu com a mão no braço de Martiniano que empunhava a faca, desviando assim o golpe, ferindo-se levemente”.

“Tumultuou-se o ambiente.”

“Chico Bernardino, tabelião público e amigo do Coronel Correia, apanhou o chapéu que estava em cima de uma mesinha e foi saindo quando lhe surge Francisco Dantas interrompendo-lhe a passagem, com a mão dentro do palito em posição de puxar a faca ou uma outra arma. Eu, nessa ocasião, afastei Francisco Dantas, dizendo-lhe: 'você está doido, Dantas?'”.

“Entrei para um quarto ligado à sala, e quando passei pela segunda porta que daria para o corredor da sala, vi o barbeiro Cecílio deitado no chão. Martiniano tinha lhe rasgado o ventre com a faca, pois no momento em que partiu para o Coronel Correia os amigos deste lhe cercaram defendendo-o e Cecílio caiu, com o ventre rasgado, dizendo: ‘por este eu morro’”.

“Além do barbeiro, que teve morte imediata, sofreram ferimentos graves papai - José Ayres -, e Manuel Justino, genro do Coronel Correia, ferido por Martiniano".

"No momento desta carnificina meu irmão Paschoal Ayres viu quando papai foi furado por Martiniano e, não sei como, de posse de uma faquinha, que naquele tempo tinha o nome de salva-vidas, o atingiu. Logo que Martiniano recebeu a facada, retirou-se da casa. Penso mesmo que esta facada foi salvadora, pois sem ela Martiniano invadiria a casa a esfaquear quem encontrasse, desde que amigo do Coronel Correia”.

“Neste tumulto eu gritava chamando a polícia para nos garantir. Procurei entrar no interior da casa à procura de uma arma, com o fito de impedir que minha família fosse alcançada por aquela selvageria. A única arma que encontrei foi uma chaleira com água fervendo que estava no fogo para fazer café e oferecer aos presentes, velho costume do Sertão”.


CONTINUA...


* honoriodemedeiros@gmail.com
@honoriodemedeiros

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - II

 

Coronel Joaquim José Correia

* Honório de Medeiros


O FOGO DE PAU DOS FERRO, CONTINUAÇÃO...



“Ponderei que a nenhum dos contribuintes serviriam pedaços de instrumentos, ao que respondeu o Dr. Guilherme: ‘a nós serve’”.

“Fiz ainda outras propostas conciliadoras que não foram aceitas, repetindo o Sr. Doutor Guilherme: ‘só nos serve a divisão dos instrumentos, ainda que sejam em pedaços’”.
 
“Propoz meu amigo Joaquim de Hollanda que se depositasse o instrumental acrescentando eu: ‘pondo-se em hasta pública para se dividir o produto proporcionalmente à contribuição de cada um’”.

“Esta proposta também não foi aceita pelo Sr. Doutor Guilherme que, nessa ocasião, atirou-me palavras grosseiras, secundado nesse gesto pelo Sr. Adolpho Fernandes”.

“Em seguida levantou-se bruscamente o Sr. Martiniano Rego, e disse: ‘vamos Doutor Guilherme, já é tempo, não viemos para isso?’”

“E sacando uma formidável faca o mesmo Martiniano arremessou contra mim, sendo o golpe recebido por Cecílio Nascimento que tomou a minha frente caindo morto instantaneamente”.

“Nessa ocasião o Sr. Francisco Dantas de Araújo, atirando-me uma punhalada, foi ela atingir o meu genro Manoel Justino que igualmente tinha se atravessado na minha frente, procurando livrar-me”.

“Logo após o Sr. Lindolpho Noronha sacando uma pistola para atirar em mim, foi esta arma arrebatada pelo Sr. Francisco Olívio”.

“A esse tempo, vendo o meu genro Manoel Justino que deitava golfadas de sangue pela boca, entrando para o interior da casa procurei segui-lo alcançando-o já cambaleando para cair gravemente ferido”.

“Quando examinava o ferimento do meu referido genro, ouvi uma voz que dizia: ‘José Ayres está muito ferido; corri então ao encontro desse amigo, e na ocasião em que examinava o seu ferimento, chegou o Dr. Régulo Tinôco, Juiz de Direito da Comarca, e me convidou para uma conferência em sua casa, ao que aquiescendo lhe respondi: ‘estou às suas ordens, Sr. Doutor, mas V.Excia. me garante a vida’”.
 
“Está garantida, respondeu o Doutor”.

“Então demo-nos os braços procurando sair; ao chegar à porta da frente, nos separamos, e quando transpunha o batente da porta, disse o Delegado de Polícia para a força postada à frente da casa: ‘é este o homem’, e os soldados foram apontando os rifles contra mim, não tendo porém feito o disparo por que o Sr. Doutor Régulo Tinoco, em tempo, falou: ‘Coronel Correia vai garantido por mim que sou o Juiz de Direito da Comarca’”.


“Chegando à casa do Sr. Doutor Régulo, onde demorei-me alguns minutos, ali soube que a minha neta Elysa Correia tinha sido baleada pela força pública comandada pelo Tenente João Pedro, e que Paschoal Ayres havia sido assassinado pela mesma força, que sobre ele atirara de rifle”.

“Em vista destas notícias, estando o Doutor Régulo ocupado, disse-lhe que, precisando tomar providências a respeito de pessoas amigas e de minha família gravemente feridas, e outros detidos na cadeia pública, conforme acabava de saber, pedia-lhe licença para aquele fim, caso a conferência pudesse ser adiada, assegurando-lhe então que, à qualquer hora que ele julgasse desocupado, poderia mandar me chamar, que prontamente seria atendido”.

“Minutos depois fui novamente à casa do Sr. Doutor Régulo, atendendo o chamado de Sua Excelência por um praça da força pública, ali demorando-me alguns momentos, e como o Dr. Régulo me disse que estava muito ocupado, me retirei, voltando para minha casa onde, apenas chegado, falava-me, à porta, o Doutor Régulo, acompanhado do Delegado de Polícia Marcellino Onofre de Macedo e do Tenente João Pedro, comandante da força pública”.

“Recebendo-os, e quando lhes dava entrada em minha casa, disse-me o Doutor Régulo que tendo a polícia denúncia de se achar a minha casa cheia de armas e munições, vinha varejá-la, constando mais tarde que o Doutor Régulo fora acompanhando a polícia por consideração com a minha pessoa”.

“Efetivamente o Doutor Régulo não tomou parte no varejamento da casa tendo ficado sentado na sala de visita em companhia de meu genro Antônio Justino”.

“Varejada a casa com a mais rigorosa vigilância e cuidadoso exame pelo Delegado de Polícia e o Tenente João Pedro, e já ao saírem para a sala de visitas, eu disse: ‘os senhores já varejaram todos os compartimentos da casa na parte térrea, mas ainda falta o sótão que não foi visto. E apesar dos mesmos se recusarem a visitar esse departamento, alegando-me que não havia armamento em minha casa, eu insisti em conduzi-lo ao sótão, onde subindo apenas o Delegado, lá encontrou dois rifles velhos desmantelados e enferrujados, onde se deposita todos os móveis imprestáveis em minha aludida casa’”.

“Eis aí o histórico dos desgraçados fatos do dia e de Abril”.

“Disse o ‘Mossoroense’ que ‘Paschoal Ayres foi quem iniciou a sangueira de Pau dos Ferros, apunhalando o Sr. Martiniano Rego’. Paschoal Ayres, só depois que viu Martiniano Rego apunhalar seu pai José Ayres podendo adquirir, no momento da catástrofe, uma faca salva-vida, desta fez uso em legítima defesa, ferindo o mesmo Martiniano.”

“Disse ainda o ‘Mossoroense’ que ‘a morte de Paschoal Ayres resultou de um tiroteio havido entre as hostes aguerridas do Correismo e a força pública que procurando manter a ordem, foi recebida a tiros de rifles”.

“Ora, como se acreditar que os meus amigos, dentro da casa de José Ayres, tivessem feito fogo contra a força pública, quando eles de armas tinham as unhas e a boca para pedir socorro e garantia de vida?”

“E se tivessem essas armas, presos que foram imediatamente à hecatombe, por que a força pública e o criminoso Delegado de Polícia não as apreenderam? Onde estavam essas armas? Não foram, logo após os crimes, varejadas as casas de José Ayres e a minha? Quais as armas encontradas?”

“A morte de Paschoal Ayres deu-se do seguinte modo: quando a força pública que, sob o comando do Tenente João Pedro, atirava de rifle sobre a casa de José Ayres, a invadiu, a família deste procurou abrigar-se em um quarto da mesma casa para se livrar das balas; desse quarto pôde Paschoal, pulando uma janela que dava para o quintal da casa, correr completamente desarmado, sendo perseguido pelos praças que continuaram a atirar contra o mesmo até que, a uma certa distância, um dos projéteis o atingiu, deitando-o por terra, onde veio a falecer poucos momentos depois”.

“Houve tiroteio, é verdade, mas somente da força pública contra uma família mansa, pacífica e de bons costumes, não tendo sido ela assassinada por um milagre da providência.”

“Disse mais o ‘Mossoroense’ que ‘a outra morte e outros ferimentos de parte a parte, foram conseqüências da luta travada dentro de casa, onde diversos amigos meus, bem armados, atiravam com premeditada atenção’".

“Santo Deus! Quanta miséria!”

“Cecílio do Nascimento quando caiu vítima da facada que lhe vibrou Martiniano Rego, não estava armado. Paschoal Ayres, quando caiu assassinado pela bala de rifle da força pública, estava completamente desarmado, pois a faca que ele adquirira na ocasião da carnificina já lhe havia sido tomada por um membro da família. Com Manoel Justino, apunhalado por Francisco Dantas de Araújo, não foi encontrada arma de espécie alguma. José Ayres, ferido por Martiniano Rego e preso, não tinha arma. Tertuliano Ayres, Tertuliano Primo, filho e genro de José Ayres e Pedro Correia, meu neto, presos juntamente com José Ayres e recolhidos à cadeia, não tinham armas”.

“Onde, pois, estavam essas armas?”

“Por que não disse ‘O Mossoroense’ que os únicos armados de facas, punhais, revólveres, pistolas e rifles eram os criminosos apontados e a força pública ali destacada sob o comando do Tenente João Pedro e a serviço deles?”

“Por que não disse que os que ali foram com premeditada intenção de praticar aqueles crimes são os Srs. Adolpho Fernandes, armado de revólver, Doutor Guilherme Lins, armado de revólver, tanto assim que quando correu sofreu uma queda no meio da rua caindo-lhe, igualmente da mão o revólver, Galdino de Carvalho, de revólver, Francisco Dantas de Araújo de punhal e revólver, o mesmo que apunhalou Manoel Justino, Lindolpho Noronha de pistola que foi tomada pelo Sr. Francisco Olívio, quando aquele procurava atirar contra mim, Martiniano Rego de faca, com a qual assassinou o infeliz Cecílio quando este procurava livrar-me da facada que o dito Martiniano tentou vibrar-me, e com a mesma ainda feriu José Ayres, gravemente no ventre”.

“Por que ‘O Mossoroense’ não diz que a casa do Sr. Galdino de Carvalho era um verdadeiro arsenal onde encontravam dezenas de rifles e munição para mais de dois mil cartuchos, e para onde todos os criminosos corriam dando assim lugar a que a força pública pudesse alvejar os meus amigos, sem o risco de atingir a qualquer deles criminosos?”

“Está aí a realidade dos fatos criminosos do dia 3 de abril, premeditados e ajustados que ao ‘Mossoroense’ não convinha dizer, sobre os quais até hoje nenhuma providência se conhece no sentido de serem punidos os criminosos, continuando alguns dos mesmo, a ostentarem, em pleno mercado público, em dias de feiras, armas, e a repetirem a ameaça terrorista de que se eu a Pau dos Ferros voltar, me tirarão para sempre a vida”.

“Natal, 13 de junho de 1919”

“JOAQUIM CORREIA”

Segundo informação do Professor João Bosco Queiroz Fernandes na obra mencionada, não foi possível encontrar a edição do jornal O Mossoroense que publicou editorial acusando o Coronel Joaquim Correia de causador da “Hecatombe de 1919”, motivando sua resposta, intitulada “Sucessos de Pau dos Ferros”, com transcrição acima apresentada.

Ao que consta a edição desapareceu.

Há indícios, segundo o professor, de que a péssima repercussão do Editorial originou seu desaparecimento.

CONTINUA...

sábado, 17 de janeiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - I

 


Rafael Fernandes Gurjão


* Honório de Medeiros


Quem critica o Cangaceirismo hostiliza a História e não entende o que é o Poder.

O Cangceirismo lança luz sobre a História e o Poder, consequencia de uma intrincada trama com o Coronelismo e o Fanatismo (Misticismo).

São os seguintes os principais cangaceiros que escreveram parte de sua história no Estado do Rio Grande do Norte: José Brilhante de Alencar Souza ("Cabé”), nascido em Pombal, na Paraíba, em 1824, e morto em Pão de Açúcar, Alagoas, em 1873; Jesuíno Alves de Mello Calado (“Jesuíno Brilhante”), nascido em Martins, RN, em 1844, e morto em Belém de Brejo do Cruz, novembro/dezembro de 1879; Macilon Leite de Oliveira (“Massilon”), nascido em Timbaúba dos Mocós, 1897, e morto em Caxias, Maranhão, em 1928; e Virgolino Ferreira da Silva (“Lampião”), nascido em 4 de junho de 1898, em Serra Talhada, Pernambuco, e morto em 28 de julho de 1938, em Poço Redondo, Sergipe.

O único norte-rio-grandense foi Jesuíno Brilhante, o primeiro dos cinco grandes da história do cangaço: Jesuíno, Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião e Corisco, em ordem cronológica. 

Existe a suspeita de que Virgínio Fortunato da Silva (“Moderno”), viúvo de uma irmã de Lampião, Angélica Ferreira da Silva, era dos Fortunato de Alexandria, no Rio Grande do Norte, mas isso nunca foi comprovado. 

E são os seguintes os fatos na História do Rio Grande do Norte nos quais Coronelismo e Cangaço estão fortemente entrelaçados: a invasão de Martins por Jesuíno em 1876; a invasão de Apodi por Massilon em 1927; a invasão de Mossoró por Lampião e Massilon em 1927. 

Todos essas atividades cangaceiras estão conectadas com o Coronelismo. 

Não houve Coronelismo no Sertão nordestino sem entrelaçamento com o Cangaceirismo; não houve Cangaceirismo sem Coronelismo. Acrescente-se a esses ingredientes o Fanatismo (Messianismo) e teremos um ponto-de-partida para a real história da época dos coronéis e cangaceiros.

Sempre tratamos esses fatos pelo COMO aconteceu e de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar o PORQUÊ factual que os originou.

Tanto o Coronelismo quanto o Cangaço são expressões particulares do momento histórico específico que caracteriza o fim da República Velha no Sertão nordestino, muito embora seu padrão, enquanto disputa pelo Poder, seja recorrente na história das civilizações sob outras formas, haja vista, por exemplo, sua semelhança com o feudalismo europeu e japonês. 

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, constituem-se em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar, tendo como fio-condutor e protagonista, o cangaceiro Massilon. 

Em 1924, José Augusto Bezerra de Medeiros, representante da fina flor da aristocracia rural algodoeira do Rio Grande do Norte, chegou ao poder. Seu intento, segundo cronistas da época, era construir uma oligarquia semelhante à dos Maranhão.

Em 1927, o Rio Grande do Norte, cujas principais regiões eram Natal, o Oeste e o Seridó, estavam sob seu controle político, a despeito do crescimento político e econômico dos Fernandes, cujas raízes estavam fincadas na Região que começava em Mossoró, passava por Apodi, Pau dos Ferros e terminava em Luis Gomes, fronteira com a Paraíba. 

Em 1928 Zé Augusto elegeu seu sucessor, o sobrinho-afim Juvenal Lamartine, controlando o Seridó e tendo o Oeste como aliado.

Entretanto, em 1930, veio a Revolução que culminou com o golpe político que elevou Getúlio Vargas ao Poder. 

Getúlio entregou o Poder, após uma série de interventores, a Mário Câmara, aliado de Café Filho e dos adversários de Zé Augusto no Estado. 

Zé Augusto reagiu. Driblou as pendengas com os Fernandes, afinal faziam parte da mesma base econômico-política, qual seja a aristocracia rural algodoeira que dominava o Seridó e o Oeste, e, juntos, criaram o Partido Popular para lutar contra a candidatura de Mário Câmara em 1934.

Assim, na mais cruenta eleição que jamais houve no Rio Grande do Norte, o Partido Popular saiu vitorioso, e Rafael Fernandes, o líder da família Fernandes, foi eleito Governador do Estado.

Zé Augusto elegeu-se Deputado Federal.

Durante a campanha foram assassinados o Coronel Chico Pinto, em Apodi, no início da refrega eleitoral, e Otávio Lamartine, filho de Juvenal Lamartine, no final.

Espancamentos, ameaças, humilhações, depredações, torturas, foram incontáveis.

O Coronel Chico Pinto era ligado aos Fernandes; Otávio Lamartine a Zé Augusto.

À sombra de ambos, tramando contra, outros coronéis; à sombra desses coronéis, cangaceiros...


O FOGO DE PAU DOS FERROS



Corria o ano de 1901.

No Cariri, mais precisamente em Missão Velha, o Coronel Antônio Joaquim de Santana, mais conhecido como Coronel Santana, apeou do poder, pelas armas, o Coronel Antônio Róseo Jacamaru, chefe político e intendente.

Pertencendo à família dos Terésios, originária de velhos troncos coloniais fundadores do Engenho de Santa Teresa, entre Missão Velha e Barbalha, o governou o Coronel Santana Missão Velha durante dezesseis anos e alimentou o sonho de dominar o sul do Ceará colocando, em cada município, na chefia, uma pessoa de seu sangue.

Seguiu-se a deposição do Coronel José Belém de Figueiredo, chefe político do Crato, em 1904, após tiroteio que durou dois dias e deixou vinte e uma vítimas, das quais oito mortas.

Logo depois, em 1906, após tiroteio que durou oito horas, caiu o Coronel Manuel Ribeiro da Costa, conhecido por Neco Ribeiro, sobrinho do célebre caudilho Joaquim Pinto Madeira, da guerra civil absolutista de 1832. Seu algoz foi o Coronel João Raimundo de Macedo, o Joca do Brejão.

Venceu quem conseguiu reunir um maior exército de “cabras”.

Veio, após, o fim do reinado político do Coronel Marcolino Alves de Oliveira, arrancado da chefia política do Quixadá pelos Coronéis Joaquim Fernandes de Oliveira e José Alves Pimentel e, em 1907, em Lavras da Mangabeira, caiu o Coronel Honório Correia Lima, curiosamente o filho mais velho de Dona Fideralina Augusto Lima e irmão de Gustavo Augusto Lima, seus carrascos.

Não foram diferentes os anos seguintes, como qualquer leitor poderá constatar lendo Império do Bacamarte, obra inigualável de Joaryvar Macedo, fonte dessa pequena introdução, sem qualquer sombra de dúvida uma referência para os estudiosos do fenômeno do coronelismo no Brasil, principalmente do Sertão nordestino, e sua relação com o cangaço e o misticismo próprios da região.

Joaryvar, alicerçado em profunda pesquisa bibliográfica, em jornais antigos, depoimentos pessoais, literatura de cordel, e fontes primárias, tais como processos-crimes, nos legou um impressionante painel histórico do Cariri cearense e seus principais personagens, os coronéis.

Teria sido esse fenômeno, o coronelismo, circunscrito ao Cariri, Sertão cearense? Claro que não.

Muito pelo contrário, acerca de sua importância, sua presença no mundo rural brasileiro, conseqüência tardia de certa estrutura de poder típica de uma aristocracia renascida na América litorânea - os senhores de engenho pernambucanos e paulistas -, renovação da velha árvore multissecular portuguesa, como podemos perceber a partir da obra de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, e sua abordagem do feudalismo nacional, “nascido neste lado do Atlântico, gerado espontaneamente pela conjunção das mesmas circunstâncias que produziram o europeu”.

Diz-nos Faoro: “O quadro teórico daria consistência, conteúdo e inteligência ao mundo nostálgico de colonos e senhores de engenho, opulentos, arbitrários, desdenhosos da burocracia, com a palavra desafiadora à flor dos lábios, rodeados de vassalos prontos a obedecer-lhe ao grito de rebeldia. Senhores de terras e senhores de homens, altivos, independentes, atrevidos – redivivas imagens dos barões antigos”.

O próprio Joaryvar Macedo assim começa Império do Bacamarte: “No território pátrio, o fenômeno do coronelismo esboçou-se na Colônia, tornou-se realidade no Império e consolidou-se após o advento da República”.

Ainda: “Entre nós a Primeira República, também denominada, consoante já se esclareceu, República dos Coronéis, teve no coronelismo uma das suas marcas principais. Mais acentuado no Nordeste, o fenômeno generalizou-se por todo o País, do Amazonas ao Rio Grande do Sul”.

No Rio Grande do Norte, que houve coronéis, disso não há qualquer dúvida. Basta consultar Coronéis do Seridó, de Pery Lamartine, e conhecer desde o Coronel João Damasceno Pereira de Araújo, o João Damasceno do Saco do Martins, até o Coronel Cazuza do Ipueira, passando por Silvino Bezerra de Araújo Galvão, José Bernardo de Medeiros, Laurentino Theodoro da Cruz e vários outros senhores proprietários de terra e líderes políticos. 

Todos eles descendentes de portugueses que avançaram Sertão adentro, a arrancar da indiada insubmissa a terra que lhe pertencia imemorialmente até o fim da Guerra dos Bárbaros (1687-1697), quando, por fim, do Vale do Açu, passando por Apodi, no Alto Oeste, até o Seridó, em Acauã, os vitoriosos fincaram definitivamente seus marcos sob os despojos do conflito.

Mas teria, havido, no Rio Grande do Norte, alguma deposição, entre coronéis, pela força das armas? Alguma violenta tomada do poder?

Sim, houve, muito embora pouco conhecido hoje, um episódio em nada diferente de tantos ocorridos no Cariri, do qual talvez tenha vindo o eco, dada a relativa proximidade entre aquela região e o Alto Oeste potiguar, onde ocorreu a história aqui abordada. Para contá-la, a melhor fonte pesquisada foi Joaquim José Correia LIDER OESTANO, do professor João Bosco Queiroz Fernandes, Coleção Pauferrense.

Estamos em 1919. Com o advento da República o Partido Republicano foi organizado no Rio Grande do Norte sob a liderança de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão.

Em Pau dos Ferros essa responsabilidade caberia ao Coronel Joaquim José Correia, sob a liderança direta de Joaquim Ferreira Chaves, que havia sido juiz do município até 1887, quando então foi promovido para Nova Cruz.

Joaquim Ferreira Chaves partira tendo deixado o Partido Republicano Federal cindido ao meio em Pau dos Ferros. De um lado, Joaquim José Correia e as famílias Rêgo e Ayres. Do outro, o Coronel Adolpho Fernandes e as famílias Bessa e Marcelino Oliveira.

Em 20 de março de 1917, pressionado por Ferreira Chaves, Joaquim Correia e Adolpho Fernandes assinaram um acordo político por intermédio do qual caberia, ao primeiro, a liderança política regional, mas, mesmo assim, teve demitidos seus correligionários dos cargos por eles ocupados e substituídos por indicações de seu opositor.

Como conseqüência, Joaquim Correia rompeu com Ferreira Chaves, embora permanecesse no Partido Republicano sob a liderança de Tavares de Lyra e Alberto Maranhão.

Essa cizânia política foi o pano-de-fundo da denominada “Hecatombe de 1919”, ocorrida em Pau dos Ferros, que ocasionou a retirada de Pau dos Ferros por parte de Joaquim Correia, para residir em Natal.

Segue o relato do Coronel, publicado em 13 de junho de 1919 no jornal A Opinião, de Natal, transcrita em 20 de julho do mesmo ano no jornal O Nordeste, de Mossoró, e editado por este articulista:

“No dia 2 de abril deste ano (1919), às duas horas da tarde, fui chamado pelo meu distinto amigo Tertuliano Ayres, então diretor e professor da Filarmônica Pauferrense, à casa de seu pai José Ayres”.

“Ali chegando, encontrei os senhores Adolpho Fernandes; Doutor Guilherme Lins; Francisco Dantas de Araújo; Galdino de Carvalho; Martiniano Rêgo (vulgo Papagaio); Hypólito Cassiano de Souza; Ezequiel de Souza, filho deste; Marcelino Francisco de Oliveira (vulgo Mano Marcelino); Lindolpho Noronha; e outros, meus adversários”.

“Depois de cumprimentar a todos, me disse o meu amigo Tertuliano Ayres:
- Coronel, mandei chamá-lo por que o Senhor Adolpho Fernandes pediu-me uma conferência em nossa casa e, aqui chegando, acompanhado dessas pessoas presentes, o Senhor Doutor Guilherme Lins apresentou-me uma lista das pessoas amigas dele que contribuíram para a compra do instrumental da Filarmônica Pauferrense, acrescentando que querem retalhá-lo hoje mesmo. Em vista disso, peço-lhe para entender-se com estes senhores, a fim de resolver o negócio amigavelmente”.

“Então pedi a lista para ver os contribuintes que nela figuravam, dizendo em seguida:
- Os senhores já estão munidos da lista de seus amigos que concorreram para a compra do instrumental, nós, porém, assim de surpresa, não podemos liquidar este negócio, por que nada existindo escrito, de momento, não nos é possível, com certeza, dizer quais os nossos amigos que também contribuíram para a dita compra, e, nem tampouco, com quanto contribuiu cada um, portanto peço aos senhores para adiarmos a liquidação para amanhã, à mesma hora de hoje, quando então poderemos chegar a um razoável acordo, pois vou colher informações nesse sentido”.

“O Senhor Doutor Guilherme Lins e outros seus amigos relutaram em atender esse pedido, repetindo aquele, com insistência: o negócio deve ser decidido hoje”.

“Afinal a reunião ficou adiada para o dia seguinte”.

“À hora marcada compareci à casa de José Ayres, onde já encontrei reunidos os mesmos do dia anterior e mais outros meus adversários, estando também presentes alguns amigos meus e o Reverendíssimo Padre Manoel Galvão, Vigário da Freguesia, como um dos contribuintes por parte da Igreja”.

“Ao entrar saudei a todos, dando as mãos aos senhores Doutor Guilherme, meu colega de Congresso, e Adolpho Fernandes, chefe situacionista de há poucos dias”.

“Sentando-me, disse: conforme me comprometi, trago hoje a lista dos amigos que também contribuíram para a compra do instrumental”.

“Em seguida passei a ler a dita lista, sendo impugnada a assinatura de Francisco Pedro pelo Senhor Doutor Guilherme, tendo o mesmo Francisco Pedro, ali presente, confirmado-a”.

“Conhecidos assim os contribuintes de ambas as partes, fiz a seguinte proposta: proponho pagar aos senhores a importância com que contribuíram para a compra do instrumental, ficando nós com o mesmo, ou de modo contrário, os senhores nos pagam a importância com que contribuímos para a mesma compra, ficando com o dito instrumental”.

“Ao que respondeu imediatamente o Dr. Guilherme Lins: ‘não aceitamos absolutamente proposta alguma; só nos serve a divisão dos instrumentos, ainda que sejam em pedaços".

CONTINUA...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O DIREITO É ENGANOSAMENTE TRANSPARENTE






* Honório de Medeiros


 O Direito é falsamente transparente.

E o é porque os juristas têm uma atitude ante o Direito de afirmar que conhecê-lo, no sentido científico, é apreendê-lo a partir da experiência que dele possamos ter em Sociedade.

Essa valoração da experiência implica em uma atitude pré-científica denominada “Realismo Ingênuo”, condizente com a “filosofia da identidade” de Hegel, na qual o Real = Razão, onde tudo quanto for razoável deve ser real e tudo quanto é real deve ser razoável.

Uma das conseqüências mais danosas da “filosofia da identidade” de Hegel é o suporte filosófico dado ao denominado “Realismo Político”, do qual são useiros e vezeiros, embora não o assumam, os Estados imperialistas.

O “Realismo Ingênuo” é um terrível e complexo obstáculo epistemológico ao conhecimento, porque encontra respaldo retórico no senso comum.

Basta lembrar o episódio da condenação de Galilei pela Igreja contrariada com a contestação ao fato, aparentemente incontroverso, de que o Sol girava em torno da Terra, e não o contrário, como o demonstrava a Ciência.

A raiz subterrânea de nosso sofrimento social é a ignorância da qual faz uso, em proveito próprio, consciente ou inconscientemente, os predadores sociais.
 
 
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

FILOSOFAR


* Honório de Medeiros


Diz a tradição que o filósofo é um amigo da sabedoria. Acrescento que pode ser um inimigo, também.

Mas é algo além disso, até porque não são todos os amigos da sabedoria que são filósofos, desde que a entendamos como conhecimento – termo quiçá desconhecido na Grécia antiga onde foi cunhada a definição de filosofia. 

É bem mais que isso, pois há os inimigos do conhecimento que são filósofos – dentre eles os irracionalistas de todos os matizes, incluindo os niilistas que seriam os terroristas contra o saber.

Da mesma forma que há amigos da sabedoria que, em relação a ela, cultivam um amor unilateral, não correspondido, pleno de atenção e aparato – pompa e circunstância – assim o são os eruditos, a quem se atribui a condição de citar autores e obras sem lhes entender verdadeiramente o conteúdo. 

Essa amizade há de ser crítica, é uma condição fundamental, para não ser ligeira e pouco consistente.

Crítica no sentido da busca deliberada, metódica, determinada, de falhas, contradições, erros, equívocos, na sabedoria exposta, objetivada, anunciada: tudo quanto está oculto no espírito dos filósofos não interessa ao mundo, assim como a poesia que não se faz conhecida não será admirada ou enaltecida. 

Há outra condição, um dever-ser, um valor: deve haver honestidade de propósitos no que diz respeito à busca da Verdade.

Sem que se faça presente esse pré-requisito o pseudofilósofo enreda seus argumentos nas armadilhas do ego e encontra miragens onde sequer há desertos. 

Portanto há critérios para alguém ser considerado filósofo: é preciso haver apreço pela busca ao conhecimento; é preciso que haja a crítica dessa trajetória; é preciso que essa busca e essas críticas sejam metódicas; é preciso ter o espírito honesto nessa caminhada. 

O filósofo deve ter o olhar da razão treinado para perceber as contradições da realidade na qual está imerso, sem esquecer que dela é parte integrante e inafastável.

Não há olhar neutro. O filósofa que indaga, observa, propõe é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto desse olhar.

E o treinamento deve ter sido, deve ser, obsessivo, é a ginástica do espírito: ler, ler novamente, reler; pensar, pensar o pensamento, pensar o pensamento pensado – livros e a vida, a vida que é um livro e os livros que são vidas. 

Por fim a filosofia é, então, o resultado de uma atitude.

O filósofo, amigo crítico, metódico e honesto da sabedoria, assume uma postura em relação à Verdade; a ela tem afeto, quer sua companhia, não a desrespeita nesse propósito, e a procura com critério.

Talvez, para alguns, não seja simpática essa atitude, como o demonstra, por um lado, o martírio de Sócrates na Grécia antiga; a humilhação de Galileu, na Idade Média; o assassínio de Trotsky na era contemporânea; e, por outro lado, o menoscabo da elite, tão revelador, para com a filosofia e poesia. 

Não importa. Se as idéias movem o mundo – e de fato o é, para o bem ou para o mal, quem as elabora, necessariamente, são os filósofos.

Ou não foi isso que Karl Marx fez?


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