sábado, 17 de janeiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - I

 


Rafael Fernandes Gurjão


* Honório de Medeiros


Quem critica o Cangaceirismo hostiliza a História e não entende o que é o Poder.

O Cangceirismo lança luz sobre a História e o Poder, consequencia de uma intrincada trama com o Coronelismo e o Fanatismo (Misticismo).

São os seguintes os principais cangaceiros que escreveram parte de sua história no Estado do Rio Grande do Norte: José Brilhante de Alencar Souza ("Cabé”), nascido em Pombal, na Paraíba, em 1824, e morto em Pão de Açúcar, Alagoas, em 1873; Jesuíno Alves de Mello Calado (“Jesuíno Brilhante”), nascido em Martins, RN, em 1844, e morto em Belém de Brejo do Cruz, novembro/dezembro de 1879; Macilon Leite de Oliveira (“Massilon”), nascido em Timbaúba dos Mocós, 1897, e morto em Caxias, Maranhão, em 1928; e Virgolino Ferreira da Silva (“Lampião”), nascido em 4 de junho de 1898, em Serra Talhada, Pernambuco, e morto em 28 de julho de 1938, em Poço Redondo, Sergipe.

O único norte-rio-grandense foi Jesuíno Brilhante, o primeiro dos cinco grandes da história do cangaço: Jesuíno, Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião e Corisco, em ordem cronológica. 

Existe a suspeita de que Virgínio Fortunato da Silva (“Moderno”), viúvo de uma irmã de Lampião, Angélica Ferreira da Silva, era dos Fortunato de Alexandria, no Rio Grande do Norte, mas isso nunca foi comprovado. 

E são os seguintes os fatos na História do Rio Grande do Norte nos quais Coronelismo e Cangaço estão fortemente entrelaçados: a invasão de Martins por Jesuíno em 1876; a invasão de Apodi por Massilon em 1927; a invasão de Mossoró por Lampião e Massilon em 1927. 

Todos essas atividades cangaceiras estão conectadas com o Coronelismo. 

Não houve Coronelismo no Sertão nordestino sem entrelaçamento com o Cangaceirismo; não houve Cangaceirismo sem Coronelismo. Acrescente-se a esses ingredientes o Fanatismo (Messianismo) e teremos um ponto-de-partida para a real história da época dos coronéis e cangaceiros.

Sempre tratamos esses fatos pelo COMO aconteceu e de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar o PORQUÊ factual que os originou.

Tanto o Coronelismo quanto o Cangaço são expressões particulares do momento histórico específico que caracteriza o fim da República Velha no Sertão nordestino, muito embora seu padrão, enquanto disputa pelo Poder, seja recorrente na história das civilizações sob outras formas, haja vista, por exemplo, sua semelhança com o feudalismo europeu e japonês. 

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, constituem-se em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar, tendo como fio-condutor e protagonista, o cangaceiro Massilon. 

Em 1924, José Augusto Bezerra de Medeiros, representante da fina flor da aristocracia rural algodoeira do Rio Grande do Norte, chegou ao poder. Seu intento, segundo cronistas da época, era construir uma oligarquia semelhante à dos Maranhão.

Em 1927, o Rio Grande do Norte, cujas principais regiões eram Natal, o Oeste e o Seridó, estavam sob seu controle político, a despeito do crescimento político e econômico dos Fernandes, cujas raízes estavam fincadas na Região que começava em Mossoró, passava por Apodi, Pau dos Ferros e terminava em Luis Gomes, fronteira com a Paraíba. 

Em 1928 Zé Augusto elegeu seu sucessor, o sobrinho-afim Juvenal Lamartine, controlando o Seridó e tendo o Oeste como aliado.

Entretanto, em 1930, veio a Revolução que culminou com o golpe político que elevou Getúlio Vargas ao Poder. 

Getúlio entregou o Poder, após uma série de interventores, a Mário Câmara, aliado de Café Filho e dos adversários de Zé Augusto no Estado. 

Zé Augusto reagiu. Driblou as pendengas com os Fernandes, afinal faziam parte da mesma base econômico-política, qual seja a aristocracia rural algodoeira que dominava o Seridó e o Oeste, e, juntos, criaram o Partido Popular para lutar contra a candidatura de Mário Câmara em 1934.

Assim, na mais cruenta eleição que jamais houve no Rio Grande do Norte, o Partido Popular saiu vitorioso, e Rafael Fernandes, o líder da família Fernandes, foi eleito Governador do Estado.

Zé Augusto elegeu-se Deputado Federal.

Durante a campanha foram assassinados o Coronel Chico Pinto, em Apodi, no início da refrega eleitoral, e Otávio Lamartine, filho de Juvenal Lamartine, no final.

Espancamentos, ameaças, humilhações, depredações, torturas, foram incontáveis.

O Coronel Chico Pinto era ligado aos Fernandes; Otávio Lamartine a Zé Augusto.

À sombra de ambos, tramando contra, outros coronéis; à sombra desses coronéis, cangaceiros...


O FOGO DE PAU DOS FERROS



Corria o ano de 1901.

No Cariri, mais precisamente em Missão Velha, o Coronel Antônio Joaquim de Santana, mais conhecido como Coronel Santana, apeou do poder, pelas armas, o Coronel Antônio Róseo Jacamaru, chefe político e intendente.

Pertencendo à família dos Terésios, originária de velhos troncos coloniais fundadores do Engenho de Santa Teresa, entre Missão Velha e Barbalha, o governou o Coronel Santana Missão Velha durante dezesseis anos e alimentou o sonho de dominar o sul do Ceará colocando, em cada município, na chefia, uma pessoa de seu sangue.

Seguiu-se a deposição do Coronel José Belém de Figueiredo, chefe político do Crato, em 1904, após tiroteio que durou dois dias e deixou vinte e uma vítimas, das quais oito mortas.

Logo depois, em 1906, após tiroteio que durou oito horas, caiu o Coronel Manuel Ribeiro da Costa, conhecido por Neco Ribeiro, sobrinho do célebre caudilho Joaquim Pinto Madeira, da guerra civil absolutista de 1832. Seu algoz foi o Coronel João Raimundo de Macedo, o Joca do Brejão.

Venceu quem conseguiu reunir um maior exército de “cabras”.

Veio, após, o fim do reinado político do Coronel Marcolino Alves de Oliveira, arrancado da chefia política do Quixadá pelos Coronéis Joaquim Fernandes de Oliveira e José Alves Pimentel e, em 1907, em Lavras da Mangabeira, caiu o Coronel Honório Correia Lima, curiosamente o filho mais velho de Dona Fideralina Augusto Lima e irmão de Gustavo Augusto Lima, seus carrascos.

Não foram diferentes os anos seguintes, como qualquer leitor poderá constatar lendo Império do Bacamarte, obra inigualável de Joaryvar Macedo, fonte dessa pequena introdução, sem qualquer sombra de dúvida uma referência para os estudiosos do fenômeno do coronelismo no Brasil, principalmente do Sertão nordestino, e sua relação com o cangaço e o misticismo próprios da região.

Joaryvar, alicerçado em profunda pesquisa bibliográfica, em jornais antigos, depoimentos pessoais, literatura de cordel, e fontes primárias, tais como processos-crimes, nos legou um impressionante painel histórico do Cariri cearense e seus principais personagens, os coronéis.

Teria sido esse fenômeno, o coronelismo, circunscrito ao Cariri, Sertão cearense? Claro que não.

Muito pelo contrário, acerca de sua importância, sua presença no mundo rural brasileiro, conseqüência tardia de certa estrutura de poder típica de uma aristocracia renascida na América litorânea - os senhores de engenho pernambucanos e paulistas -, renovação da velha árvore multissecular portuguesa, como podemos perceber a partir da obra de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, e sua abordagem do feudalismo nacional, “nascido neste lado do Atlântico, gerado espontaneamente pela conjunção das mesmas circunstâncias que produziram o europeu”.

Diz-nos Faoro: “O quadro teórico daria consistência, conteúdo e inteligência ao mundo nostálgico de colonos e senhores de engenho, opulentos, arbitrários, desdenhosos da burocracia, com a palavra desafiadora à flor dos lábios, rodeados de vassalos prontos a obedecer-lhe ao grito de rebeldia. Senhores de terras e senhores de homens, altivos, independentes, atrevidos – redivivas imagens dos barões antigos”.

O próprio Joaryvar Macedo assim começa Império do Bacamarte: “No território pátrio, o fenômeno do coronelismo esboçou-se na Colônia, tornou-se realidade no Império e consolidou-se após o advento da República”.

Ainda: “Entre nós a Primeira República, também denominada, consoante já se esclareceu, República dos Coronéis, teve no coronelismo uma das suas marcas principais. Mais acentuado no Nordeste, o fenômeno generalizou-se por todo o País, do Amazonas ao Rio Grande do Sul”.

No Rio Grande do Norte, que houve coronéis, disso não há qualquer dúvida. Basta consultar Coronéis do Seridó, de Pery Lamartine, e conhecer desde o Coronel João Damasceno Pereira de Araújo, o João Damasceno do Saco do Martins, até o Coronel Cazuza do Ipueira, passando por Silvino Bezerra de Araújo Galvão, José Bernardo de Medeiros, Laurentino Theodoro da Cruz e vários outros senhores proprietários de terra e líderes políticos. 

Todos eles descendentes de portugueses que avançaram Sertão adentro, a arrancar da indiada insubmissa a terra que lhe pertencia imemorialmente até o fim da Guerra dos Bárbaros (1687-1697), quando, por fim, do Vale do Açu, passando por Apodi, no Alto Oeste, até o Seridó, em Acauã, os vitoriosos fincaram definitivamente seus marcos sob os despojos do conflito.

Mas teria, havido, no Rio Grande do Norte, alguma deposição, entre coronéis, pela força das armas? Alguma violenta tomada do poder?

Sim, houve, muito embora pouco conhecido hoje, um episódio em nada diferente de tantos ocorridos no Cariri, do qual talvez tenha vindo o eco, dada a relativa proximidade entre aquela região e o Alto Oeste potiguar, onde ocorreu a história aqui abordada. Para contá-la, a melhor fonte pesquisada foi Joaquim José Correia LIDER OESTANO, do professor João Bosco Queiroz Fernandes, Coleção Pauferrense.

Estamos em 1919. Com o advento da República o Partido Republicano foi organizado no Rio Grande do Norte sob a liderança de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão.

Em Pau dos Ferros essa responsabilidade caberia ao Coronel Joaquim José Correia, sob a liderança direta de Joaquim Ferreira Chaves, que havia sido juiz do município até 1887, quando então foi promovido para Nova Cruz.

Joaquim Ferreira Chaves partira tendo deixado o Partido Republicano Federal cindido ao meio em Pau dos Ferros. De um lado, Joaquim José Correia e as famílias Rêgo e Ayres. Do outro, o Coronel Adolpho Fernandes e as famílias Bessa e Marcelino Oliveira.

Em 20 de março de 1917, pressionado por Ferreira Chaves, Joaquim Correia e Adolpho Fernandes assinaram um acordo político por intermédio do qual caberia, ao primeiro, a liderança política regional, mas, mesmo assim, teve demitidos seus correligionários dos cargos por eles ocupados e substituídos por indicações de seu opositor.

Como conseqüência, Joaquim Correia rompeu com Ferreira Chaves, embora permanecesse no Partido Republicano sob a liderança de Tavares de Lyra e Alberto Maranhão.

Essa cizânia política foi o pano-de-fundo da denominada “Hecatombe de 1919”, ocorrida em Pau dos Ferros, que ocasionou a retirada de Pau dos Ferros por parte de Joaquim Correia, para residir em Natal.

Segue o relato do Coronel, publicado em 13 de junho de 1919 no jornal A Opinião, de Natal, transcrita em 20 de julho do mesmo ano no jornal O Nordeste, de Mossoró, e editado por este articulista:

“No dia 2 de abril deste ano (1919), às duas horas da tarde, fui chamado pelo meu distinto amigo Tertuliano Ayres, então diretor e professor da Filarmônica Pauferrense, à casa de seu pai José Ayres”.

“Ali chegando, encontrei os senhores Adolpho Fernandes; Doutor Guilherme Lins; Francisco Dantas de Araújo; Galdino de Carvalho; Martiniano Rêgo (vulgo Papagaio); Hypólito Cassiano de Souza; Ezequiel de Souza, filho deste; Marcelino Francisco de Oliveira (vulgo Mano Marcelino); Lindolpho Noronha; e outros, meus adversários”.

“Depois de cumprimentar a todos, me disse o meu amigo Tertuliano Ayres:
- Coronel, mandei chamá-lo por que o Senhor Adolpho Fernandes pediu-me uma conferência em nossa casa e, aqui chegando, acompanhado dessas pessoas presentes, o Senhor Doutor Guilherme Lins apresentou-me uma lista das pessoas amigas dele que contribuíram para a compra do instrumental da Filarmônica Pauferrense, acrescentando que querem retalhá-lo hoje mesmo. Em vista disso, peço-lhe para entender-se com estes senhores, a fim de resolver o negócio amigavelmente”.

“Então pedi a lista para ver os contribuintes que nela figuravam, dizendo em seguida:
- Os senhores já estão munidos da lista de seus amigos que concorreram para a compra do instrumental, nós, porém, assim de surpresa, não podemos liquidar este negócio, por que nada existindo escrito, de momento, não nos é possível, com certeza, dizer quais os nossos amigos que também contribuíram para a dita compra, e, nem tampouco, com quanto contribuiu cada um, portanto peço aos senhores para adiarmos a liquidação para amanhã, à mesma hora de hoje, quando então poderemos chegar a um razoável acordo, pois vou colher informações nesse sentido”.

“O Senhor Doutor Guilherme Lins e outros seus amigos relutaram em atender esse pedido, repetindo aquele, com insistência: o negócio deve ser decidido hoje”.

“Afinal a reunião ficou adiada para o dia seguinte”.

“À hora marcada compareci à casa de José Ayres, onde já encontrei reunidos os mesmos do dia anterior e mais outros meus adversários, estando também presentes alguns amigos meus e o Reverendíssimo Padre Manoel Galvão, Vigário da Freguesia, como um dos contribuintes por parte da Igreja”.

“Ao entrar saudei a todos, dando as mãos aos senhores Doutor Guilherme, meu colega de Congresso, e Adolpho Fernandes, chefe situacionista de há poucos dias”.

“Sentando-me, disse: conforme me comprometi, trago hoje a lista dos amigos que também contribuíram para a compra do instrumental”.

“Em seguida passei a ler a dita lista, sendo impugnada a assinatura de Francisco Pedro pelo Senhor Doutor Guilherme, tendo o mesmo Francisco Pedro, ali presente, confirmado-a”.

“Conhecidos assim os contribuintes de ambas as partes, fiz a seguinte proposta: proponho pagar aos senhores a importância com que contribuíram para a compra do instrumental, ficando nós com o mesmo, ou de modo contrário, os senhores nos pagam a importância com que contribuímos para a mesma compra, ficando com o dito instrumental”.

“Ao que respondeu imediatamente o Dr. Guilherme Lins: ‘não aceitamos absolutamente proposta alguma; só nos serve a divisão dos instrumentos, ainda que sejam em pedaços".

CONTINUA...

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