terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A ESTRANHA PEREIRO - I



Pereiro, Ceará

Por Honório de Medeiros

No pequeno cemitério – o antigo – de Pereiro, cidade duas vezes secular que se estende ao comprido e preguiçosamente entre serras, localizado no centro da cidade, passeio entre os túmulos, as árvores e as flores com sua guardiã, Dona Maria, procurando o jazigo perpétuo de Décio Hollanda, aquele mesmo que quis tomar Apodi pelas armas através da valentia de Massilon. Ela aponta: “são três; aqueles dois lá e este aqui, mas eu não sei quem é essa pessoa que o senhor está procurando.”

Voltamos para a entrada naquele caminhar desconexo de quem anda nos cemitérios antigos de cidades pequenas, tomando cuidado para não pisar em algum montículo inesperado que guarde os restos mortais de alguém. Eu lhe elogio a limpeza, a arborização e as flores do cemitério. “Obrigada”, diz. “Já faz vinte e cinco anos que estou aqui. Antes de mim era uma senhora com quem aprendi tudo e que também passou vinte e cinco anos.” “É muito tempo”, falo quase para mim mesmo. “Para eles, não”, responde, fazendo um arco amplo com o braço e envolvendo toda a área.

Dona Maria é baixinha, moreno-clara, entroncada. Sexagenária, eu diria. Muito limpa e bem arrumada, não há sinal de desmazelo em si. Os cabelos não guardam qualquer fio branco. Seria pintura? Não, observo de perto. Filhos, netos, todos foram criados através do labor contínuo e obscuro entres velas, flores frescas ou murchas e os restos mortais de seus conterrâneos.

“Qual o fato mais estranho que a senhora presenciou neste cemitério?” Ela não hesita em responder. Talvez a mesma história já tenha sido contada muitas vezes. “Uma viúva” - começa esboçando um olhar distante, “que chega sempre toda de preto para rezar naquele túmulo muito antigo encostado à parede. Ninguém sabe de quem ele é. O tempo já apagou, há muito, as inscrições. Não há qualquer documento a respeito. Eu mesma já pesquisei. Ela somente aparece quando não há ninguém, além de mim, no cemitério. Passa por mim, eu dou bom dia ou boa tarde, ela responde com um aceno de cabeça que intimida a gente, vai até o túmulo e reza em pé mesmo. Aí sempre acontece alguma coisa que me distrai e quando olho novamente ela já não está presente.”

“Alguém mais a viu?” “Não, somente eu.”

Chegamos à entrada. “Espere”. Desaparece por trás de algumas árvores e volta logo depois com uma flor branca entre os dedos. “Tome, é para o senhor”. “Ah, um bogari (jasminum sambac)!” “O senhor conhece?” “Era a flor predileta de minha mãe”. Eu agradeço, tocado. Ela nota a minha emoção. Vou me afastando, a flor próxima ao nariz, linda, pura, perfumada. Depois eu a ofereci à castelã da Casa-Grande da Fazenda Trigueiro, onde Frei Damião procedeu ao ritual exorcista próprio para afastar almas penadas, mas isso é outra história...

4 comentários:

Sérgio Dantas.'. disse...

Não sei se o devotado amigo-investigador encontrou, finalmente, o túmulo de Décio Holanda naquele cemitério, mas já adianto que isso não é tarefa facil. De efeito, muitos destes túmulos foram posteriomente ocupados por outras pessoas no correr dos anos. Isso é notório.
Para aqueles que 'comem poeira'; para aqueles que vão a campo buscar a real história, não são raros os obstáculos. Aliás,são mais freqüentes do que se imagina. A 'seriedade' e o 'método' pagam preços altíssimos. Eu bem sei o que é isso...(você sabe também).
Mas, retomando o ponto, veja por exemplo o caso do cangaceiro Chico Pereira: Ele foi sepultado em Currais Novos, mas se o amigo for até lá, não encontrará seu túmulo. De fato, no lugar onde ele foi enterrado, hoje jazem os restos da Sra. ROZITA DE SOUZA COELHO.
A Sra conhecida por 'Nena Benta' cuidou da ossada do cangaceiro por quase três decadas. E o fez por caridade, tão-só.
São coisas que só são descobertas com muito suor e persistência. Procurar por pessoas da cidade que tenham um pouco de conhecimento sobre a evolução histórica do lugar é de validade sem medida. Muitas vezes o coveiro ou o zelador não é o elemento mais indicado.
Sei que o amigo não é do tipo de criar mitos ou histórias fantásticas e seu apego é só com a verdade e a está buscando com firmeza. Assim, com esta visível persistência, as 'luzes etéreas' lhe mostrarão o caminho quando o amigo menos esperar.
Abraço e votos de um Feliz 2010.
Sérgio Dantas.'.
(O menor e mais obscuro dos estudiosos do cangaço nesta terra de Cascudo)

Sérgio.'. disse...

ADENDO:

Ainda sobre Décio Holanda, desejo sorte a um pesquisador que promete apontar todas as razões e motivos que culminaram com aos ataques às cidades de Apodi e Mossoró em 1927.
Seria de grande valia para a História, posto que NINGUÉM que eu tenha encontrado em minha modesta pesquisa, sabia informar detalhes sobre o assunto, mas apenas informações que reputei como 'genéricas', sem imputação a quem quer que seja. Salvo ao próprio Décio (em relação a Apodi).
E sobre Mossoró, particularmente, há algumas razões que podem parecer até ABSURDAS, uma vez que 'envolveriam' famílias importantes do lugar. Porém, espero que o interessado venha, efetivamente, a comprová-las.
A História real agradeceria imensamente.
Abraço
Sérgio.'.

firmino disse...

aeu sou dessa familia holanda cavalcante de albuquerque.Decio era um homem de feicoes belas e teve um irmao-adelino de holanda c. de albuquerque assinado por 2 soldados a mando do prefeito pedro olivio(1926). decio deixou a barba crescer e no ano seguinte assina o prefeito pedro olivio.dai ele se junta ao bando dos brinhantes,casou com a filha de tilon gurgel de nome chicuta e comandou o sequestro da cidade de apodi e fez o planejamento do ataque a mossoro...nao morreu em pereiro e talvez com medo de represalia se lampiao foi para goias e virou prefeito e morreu na cama. tem um filho chamado aercio que e coronel do exercito no rio que nao quer ouvir nem falar de pereiro e ceara..mas eu estou uma vez por mes em pereiro,gosto da cidade e me tratam muito bem poor la..eu sou holanda.

Honório de Medeiros disse...

CARO FIRMINO, POR FAVOR ENTRE EM CONTATO COMIGO ATRAVÉS DO E-MAIL honoriodemedeiros@gmail.com

OBRIGADO.