A aplicação do método científico
no estudo dos fenômenos sociais pressupõe a admissão do postulado de Émile
Durkheim, qual seja o de que, para sua aplicação, fato social equivaleria a
fato natural.
Ao próprio postulado fato social
= fato natural aplica-se o método científico que o demonstra verdadeiro.
O método científico consiste,
grosso modo, em propor teorias que sejam testáveis e, em seguida, testa-las
para corroborá-las ou nega-las.
Se não for passível de teste, a
teoria formulada não pertence à ciência, e, assim, não pode ser declarada
verdadeira ou falsa.
A implicação dessas teorias se
revela até mesmo no âmbito jurídico, no que diz respeito à possibilidade de
danos materiais e/ou morais (p. ex. a afirmação de que Jerônimo Rosado foi
coiteiro de Lampião).
Revela-se, também, como vetor
necessário a ser observado no que diz respeito à seriedade com a qual os
pesquisadores do Cangaço devem ou deveriam obter da mídia e do meio acadêmico.
Revela-se, por fim, para afastar
o pouco respeito com o qual é tratado, às vezes, o tema, ao situá-lo como algo
especificamente menor ou pequeno, nordestino e folclórico, no sentido negativo
dos termos.
Nesse sentido não podemos
confundir as afirmações feitas pela ciência, alusivas ao tema, com o tratamento
a ele dado, por exemplo, pela literatura de cordel. São dimensões distintas.
Quando misturadas vamos
encontrar literatura querendo ser ciência e ciência que é literatura, como por
exemplo a comparação entre cangaceiros e samurais), ou seja, confusão que
ressalta o aspecto menor, preconceituoso quanto ao nordestino, e folclórico no
sentido negativo.
Exemplos de enunciados ou
afirmações formuladas sem a devida preocupação com o método científico:
a) A afirmação de que Lampião era um estrategista militar.
Basta consultar A Arte da Guerra, de Sun Tzu; O Livro dos
Cinco Anéis, de Miyamoto Musashi; ou a obra de Carl von Clousewitz acerca da
guerra, e nos lembrarmos do ataque a Mossoró, que essa teoria cai por terra.
A suposta capacidade militar de Lampião era resultado de um
misto de esperteza banal, coragem contra os fracos, corrupção e incompetência
das forças policiais.
b) A afirmação de que Lampião é um produto do meio. Essa
afirmação é tautológica – todos somos produto do meio.
O problema é o juízo de valor que é construído a partir
dessa afirmação. Pensemos assim: se o meio conduz à criminalidade, a favela da
Rocinha inteira, com seus 100.000 habitantes, seria formada por criminosos.
Lampião poderia ter fugido do crime da mesma forma como
muitos fugiram sem entrar no cangaço, mesmo tendo passado pelo que ele passou.
c) A afirmação de que Lampião era um revolucionário.
Essa é hilariante. Lampião voltou sua crueldade
especialmente contra fracos e oprimidos. Acaso há algum episódio de luta sua
contra os coronéis, inclusive aqueles que o traíram, como Zé Pereira e Isaías
Arruda?
d) A afirmação de que o cangaço foi um fenômeno resultante
de conflitos agrários.
Esta é uma
perspectiva pequena porque decorrente de outra maior – complexa e determinante
– de conflitos resultantes de relações de poder.
Ou seja, em uma perspectiva macro, o problema da terra foi
um problema de Poder, mas tal problema não engendra um determinismo no sentido
marxista do termo.
O que se quer dizer é que não há uma relação direta entre
conflito por terras e cangaço, haja vista os cangaceiros que entraram no
cangaço por optarem pela vida bandida, insuflados pela aura mítica que o envolvia.
É o mesmo fenômeno que leva filhos da classe média ou alta a
optarem pelo banditismo;
e) A afirmação de que Lampião não morreu em Angicos.
Aqui robustecemos o aspecto lendário, mítico, tipicamente
artístico, em detrimento da ciência.
Qual a prova acerca da possibilidade de Lampião não ter
morrido em Angicos? Nenhuma. Acaso quem conheceu Lampião e viu sua cabeça
decapitada não teria imediatamente denunciado a fraude?
f) A afirmação de que Jerônimo Rosado foi coiteiro de
Lampião;
g) A afirmação de que Jerônimo Rosado é um herói da
resistência mossoroense;
h) A estética do cangaço defendida por Pernambucano de
Mello.
A afirmação correta seria: a estética do bando de Lampião.
Não há qualquer manifestação estética nos outros cangaceiros. É puro marketing;
i) A comparação entre cangaceiros e samurais;
j) A afirmação de que Lampião não era cruel, brutal,
monstruoso (basta lembrar o massacre dos policiais em Queimadas, na Bahia);
l) A afirmação do motivo romântico de Massilon para querer invadir
Mossoró.
Na verdade, o estudo do fenômeno
do cangaço deve avançar para um novo patamar, um novo paradigma.
Esse novo paradigma é o da
aplicação do método da ciência. Devemos trabalhar com a análise e interpretação
de todo o material existente, uma vez que provavelmente não há mais fontes
primárias relevantes de pesquisa.
Precisamos estudar a relação
entre Coronelismo, feudalismo no Brasil e cangaço.
Estudar o papel do Poder e das
Forças Públicas em relação ao Cangaço.
Estudar o papel da Igreja em
relação ao cangaço. Não somente Pe. Cícero, mas aqueles lenientes com os
coronéis que acoitavam e os cangaceiros. Não se trata de denunciar, mas de
entender.
Estudar, por exemplo, o papel
das forças políticas em Mossoró na época da invasão de Lampião: por que a
conduta omissiva do Juiz e do Promotor da cidade quanto ao exercício de suas
atribuições? Por que a conduta da Polícia matando Jararaca?
Por fim propor e discutir um
novo conceito para cangaço, dentro de uma perspectiva que identifique o geral
nos particulares e afaste, de vez, o estudo do fenômeno do cangaço do mero
"contar de casos".
@honoriodemedeiros
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