sexta-feira, 18 de maio de 2012

A COPA NATALINA

Woden Madruga

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Por Woden Madruga



O artigo do deputado e ministro Aldo Rebelo, “A Copa em Natal”, publicado nesta Tribuna, quarta-feira (16), é um primor de vereador. Começando pelas lutas dos índios empurrando os franceses do Rifoles para fora da barra do Potengi. Referiu-se aos holandeses (não os do fantástico carrossel da seleção da Holanda de 1974, do técnico Dinus Michelis - seu inventor - e do craque Johann Cruyft, plagiado agora pelo Barcelona, mas os compatriotas de Jacob Rabi, cabreiro e sanguinário), lembrou-se de Nísia Floresta, depois de tirar um fino em Clara e Felipe Camarão, e, num pulo, chegou a Cascudo, sem esquecer de citar mais duas celebridades: Micarla de Souza e Rosalba Ciarlini. O ministro do Esporte parecia estar se exercitando para a prova do Enem. Seria aprovado?

Tenho minhas dúvidas. No capítulo futebol, tiraria zero. Na apologia que fez da construção da Arena das Dunas, enfileirando as mesmas mesmices oficiais e outros lugares comuns - sempre reservados - o ministro escreveu que o estádio “acolherá a tradição e paixão dos torcedores do ABC, América, Alecrim, Riachuelo e outros times...”. Ora bolas, o time do Riachuelo já não existe há mais de vinte anos. A última vez que o Riachuelo pisou o gramado (os locutores esportivos de hoje dizem “adentrando o gramado”) do finado Machadão, o almirante Tamandaré ainda era guarda-marinha.

Semana passada teve outra figuraça de Brasília que “adentrou” no cenário natalense. Foi o presidente da Câmara dos Deputados, o gaúcho (nascido em Canoas) Marcos Maia, PT (o Rabelo, que também presidiu a Câmara, é alagoano-pernambucano, do PCdoB, eleito por São Paulo). Era a primeira vez que o canoense visitava a cidade. Veio apenas para receber o título de Cidadão Natalense, que lhe foi conferido pela luzidia Câmara de Vereadores. Desceu aqui de um avião da Força Aérea, em voo oficial, e se dirigiu do aeroporto até a Rua Jundiaí, no Tirol, onde fica a Câmara Municipal. Era noite. Casa lotada de políticos e personagens afins. Na mesma noite retornou a Brasília, sem ter visto o por do sol de Igapó.

No discurso de agradecimento, com acentuado sotaque gaúcho-canoense, o deputado disse que se sentia honrado e feliz por ser, a partir daquele instante, mais um “natalino”. Na cabeça do deputado quem nasce em Natal é natalino, certamente o seu imaginário despertando em volta dos Três Reis Magos adorando o menino na manjedoura. Na lógica do canoense, perfeito: Natal, natalino. Mas o novo “natalino” corrigiu a gafe, soprado por alguém mais bem informado (na Câmara Municipal sempre tem um mais sabido) e se autoproclamou, feliz que só e sem um desconfiômetro, “a partir de agora, sou um natalense”.

Quando li nos blogues daqui e de acolá a gafe do presidente da Câmara dos Deputados, me lembrei do meu tempo de menino (puxa, como faz tempo!) e que tinha um amigo que se chamava Natalino, batizado e registrado em cartório. Eram três irmãos, todos do mesmo tope: Natalino, Riograndino e Ipiranga. Filhos do velho Luiz Cortez, dono da mais famosa banca de jornais e revistas de Natal, o Zepelim, que ficava na esquina da avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa (calçada do Natal Clube), Natal do tempo da Guerra, idos de 40 e 50. O irmão mais velho do trio foi Antônio Cortez, vereador de Natal por muitos mandatos. Saudades deles todos, principalmente de Ipiranga e Riograndino, que eram companheiros das peladas na Praça João Tibúrcio e da Rua das Laranjeiras, por trás do Convento Santo Antônio, e das conversas fiadas na esquina com a Rua Padre Pinto, mais embaixo, na jusante, a Casa de Maria Boa, atiçando a curiosidade (ou seria a imaginação?) da maloca excitada. Por ali passavam figuras respeitáveis da aldeia.

Pois bem, se o deputado Marco Maia, homenageado pela Câmara de Vereadores, se autoproclamou um “natalino”, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, depois de seu artigo nesta Tribuna do Norte, pode ser considerado (por que não?) um “riograndino”.

Leva jeito.

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