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quinta-feira, 9 de julho de 2026

PARA QUE SERVEM AS PALAVRAS

 

Imagem: https://duas-ou-tres.blogspot.com/2010/08/eca-de-queiroz.html


* Honório de Medeiros


"As palavras valem também para isso, dar alguma existência aos nossos delírios", diz Raduam Nassar em "Cantigas d'amigos", Cadernos de Literatura Brasileira, Ariano Suassuna. 

Ariano, entrevistado pelo Cadernos, em certo momento: "não sou um escritor de muitos leitores; costumo dizer que sou um autor de poucos livros e poucos leitores -, (...) Mesmo que eu não publique, tem um círculo de leitores que sempre lê o que escrevo".

Retruca o Cadernos: "Este é um circuito antimoderno, o circuito da comunidade interessada".

Qual uma confraria de amigos, na Idade Média. Bocaccio, Cino de Pistoia, Petrarca; a rede dos trovadores na Provença, sul da França e Península Ibérica...

Assim é, assim será, dado o caráter dos tempos atuais, no qual a imagem evanescente e superficial é tudo e as palavras, suas profundezas, mesmo se delírios, manjar para poucos.

Quem ainda lê Proust? 

Aqui a palavra é arte. 

Relendo "O Crime do Padre Amaro" do imenso Eça de Queiróz, lá encontro essa ideia pela voz do seco Padre Notário:

- Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou um pedreiro-livre! O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que será que passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali... E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Aí está o que é - a absolvição é uma arma".

Recordo que dizia para meus alunos de Filosofia do Direito ser a confissão um inteligente serviço secreto, à serviço da aristocracia, para a manutenção dos interesses da elite política.

A palavra: arte ou instrumento. Às vezes ambos ao mesmo tempo.

Não somente a palavra escrita, mas também a falada, mesmo a que dá existência aos nossos delírios.

Natal, em 7 de março de 2015.

domingo, 21 de junho de 2026

NO RUMO DO REMANSO NA BEIRA DA SERRA DAS ALMAS

 


Imagem: Honório de Medeiros

* Honório de Medeiros.
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros


No rumo do remanso na beira da Serra das Almas, para visitar Antônio Gomes, passei por Martins para dois dedos de prosa com Seu Antônio de Luzia, que Deus o mantenha tal qual está.

Cheguei, saldei, puxei a cadeira de balanço, dei atenção a passarinhada, admirei os cajueiros em flor.

Depois do gole no café quentinho, feito na hora, e da rapadura, perguntei como iam as coisas, e ele, naquela voz arrastada e grave, me respondeu que "do mesmo jeito, só que mais velhas".

Era um final de tarde meio quente, no Sítio Canto. Só vez por outra alguém passava e arriscava um dedo de prosa. A estrada de barro nos protegia do calor o quanto podia. Verde de um lado, do outro, tudo nos embalava em uma calmaria que Seu Antônio demorava a perturbar.

E nós dois, como outras vezes, café tomado, calados, cabeça pousada por inteiro no espaldar das cadeiras de balanço, nos entregávamos à quietude e ao canto dos passarinhos.

Lá pelas tantas uma vizinha distante encostou. Deu boa tarde e se danou a falar, sem esperar um retorno.

Comçou a contar o caso de uma sobrinha solteirona que embuchara pelas bandas dos Cariris Velhos, numa noite de São João regada a neblina, fogueiras, sanfonas e cachaça.

Falou, falou, falou tanto que espantou os sabiás que cantavam nos cajueiros do terreno em frente.

Finalmente se foi, depois de perguntar por meio mundo de gente. Tentou cascavilhar minha vida, mas minha demora em responder as suas perguntas parace que a incomodaram.

Quando saiu, seu Antônio, sem olhar para mim, sentenciou: "essa mulher se ofende com o silêncio".

E mais não disse e nem lhe foi perguntado até a hora da coalhada, à boca da noite, com as primeiras estrelas aparecendo e alguns sacis se preparando para as presepadas habituais...

Sítio Canto, Martins, dia desses...

quarta-feira, 20 de maio de 2026

OS ANARQUISTAS ESTÃO CERTOS?

 

https://officialjpp.com/cartazes---anarquistas.htm


* Honório de Medeiros
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros


Que dizem os anarquistas?

Qual o núcleo do capitalismo? A mais-valia. Sem mais-valia não há luta de classes.

Lê-se isso, por exemplo, em Raymond Aron, O Marxismo de Marx: "Por último é a teoria da mais-valia que serve como fundamento para o conjunto da construção teórica de Marx, pois o regime capitalista só funciona na medida em que gera mais-valia (...)".

Como surge a mais-valia? Via divisão do trabalho social. Sem que muitos trabalhem para poucos, gerando o excedente, não há mais-valia.

E como, por sua vez, surge a divisão do trabalho social? O que sabemos acerca desse momento da história no qual, pela primeira vez, surgiu a divisão do trabalho social?

Tal somente foi possível através da persuasão ou da força. A força da persuasão ou a persuasão da força.

Em ambos os casos, extensões do Poder Político, a capacidade de determinar ao outro(s) os rumos a serem tomados. 

O Poder Político de persuadir, oriundo da capacitação intelectual, do desnivelamento intelectual, ou o Poder Político da força, por intermédio da força física direta ou indireta. 

A força do Poder Político, o Poder Político da força.

Tão óbvio isso é que Engels tentou entender o papel da força quanto ao surgimento do capitalismo em Anti-Duhring.

Não há como negar a acumulação primitiva à custa do exercício da força. 

Então, na base, está o exercício do Poder Político. Somente há capital porque há Poder Político.

Os anarquistas Bakunin, Kropotkin, Max Stirner, Emma Goldman estão certos.

Entretanto nos subterrâneos da base, ainda muito pouco explorada, a Teoria da Evolução, de Charles Darwin...

segunda-feira, 6 de abril de 2026

"A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO", Mário Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa (Arte em desencarte.blogspot.com)



* Honório de Medeiros


Fecho o livro de Llosa, Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo, cujo título foi calcado em A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século, e sinto que encontrei um texto, da melhor qualidade, que desse corpo a essa sensação permanente de estranhamento e solidão vivenciada por tantos, originada pelo descompasso entre a “cultura” na qual fomos criados e a realidade que encontramos nos dias de hoje.

Não é, portanto, “saudosismo”, o que sentimos. Há, de fato, um progressivo, solerte e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendida esta como o pressuposto da construção do processo civilizatório.

Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa, em Notas para uma definição de cultura, de 1948, tão atual, posto que, por exemplo, lá para as tantas, expõe: “E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura”.

É bem verdade que em ensaios tais como A civilização do Espetáculo, e Breve Discurso sobre a Cultura, Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse fenômeno, muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais e animada pelo espírito de lucro, motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força que está por trás das rédeas que conduzem o processo de destruição da cultura tradicional.

Não nos é oferecido, de sua lavra, uma teoria que nos explique a causa de tudo isso.

Para Llosa, por exemplo, civilização do espetáculo é "a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal".

Como não lembrar do personagem de O lobo da estepe, de Hermann Hesse, em seu permanente solilóquio: "O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?"

Entendo, embora possa estar enganado, que mesmo Zygmunt Bauman e sua obra acerca da “vida líquida”, “modernidade líquida”, na qual mergulhei durante algum tempo, também não o conseguiu.

Sua preocupação é, também, descrever um fato, ou melhor, um fenômeno social, o processo civilizatório por nós vividos hoje, um degrau acima, em termos de tempo, com alguns instrumentos intelectuais diferenciados, como tentado pelo excepcional Norbert Elias.

Para Bauman, "a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante"; nas quais "as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades".

Eu me pergunto, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa "vida precária" em "condições de incerteza constante" uma face avançada do processo evolucionário de Charles Darwin?

Aliás, ainda hoje somos devedores, nesse aspecto, dos titãs do século XX, quais sejam Sigmund Freud, Karl Marx e Charles Darwin, por assim dizer. Entretanto, não é o caso de abordar esse tópico por aqui. 

O caso, aqui ,é apenas registrar o alívio ao constatarmos que não estamos errados, nós que sentimos que somos, cada vez mais, órfãos de uma cultura que desde os meados do século XX, vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás.

Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea.

É a banalização da cultura...


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

COMADRE


* Honorio de Medeiros


O que mais me impressionava em Comadre, como todos nós a chamávamos, no aspecto físico, era seu rosto. 

Nele, o sol e o suor escavaram miríades de rugas finas a recortar sua pele morena, gretada, compondo uma teia que aprisionava nosso olhar imediatamente.

Depois, as mãos. Mãos como garras. Fortes. Calosas. Descoradas por anos a fio de sabão e água. 

Por fim sua vestimenta: sempre um vestido de cor clara, chita humilde, o mesmo modelo, de mangas compridas – que ela, por razões óbvias, usava arregaçadas – que ia até o tornozelo, tudo encimado por uma espécie de coroa de pano branco de margens largas, propositadamente feitas para receber e acomodar o saco de roupas a serem lavadas.

Pois Comadre, como se pode perceber do texto, era a lavadeira não somente lá de casa, mas de praticamente toda a família.

Estava sempre feliz. Na minha meninice de bicho arredio, dado aos livros e devaneios, alternados por impulsos nervosos de convivência alegre, sua gargalhada compunha o sábado, assim como o carneiro guisado e o cuscuz molhado na graxa, na hora do almoço.

Lá em casa, mais aos sábados do em qualquer outro dia por conta da feira, até o meio da tarde o vai-e-vem e converseiro era permanente. 

Entrava-se e saiam. Saiam e entravam.

Todos confluíam para a área-de-serviço, contígua à cozinha: O leiteiro, a lavadeira, o pessoal que vinha com a feira semanal, parentes de outras cidades, aderentes, contraparentes, amigos, amigos dos amigos. 

Todos embalados por uma xícara de café e pão com manteiga.

Conversava-se, cantava-se, declamava-se, discutia-se, fofocava-se, trocavam-se receitas de bolos e de remédios. 

Naquele local, sem que me desse conta naquela época, a solidariedade fincava raízes e se propagava: todos se uniam para se amparar mutuamente. 

Escutavam-se mágoas, partilhavam-se alegrias, construía-se teimosamente a delicada trama de uma vida ancestral, fadada a desaparecer, na qual todos formavam a unidade, e a unidade era a sobrevivência.

Comadre, então, como eu diria muito tempo depois, quando o passado passou a interromper cada vez mais meu presente, era um modelo de sobrevivência. 

Paupérrima, viúva ainda jovem, criou sua dezena de filhos lavando roupa e sempre com aquela alegria de viver que me deixa, ainda hoje, perplexo e angustiado. 

Poderia ter sido um personagem de um Tolstoi tardio, quando o cristianismo primitivo passou a ser sua segunda natureza.

Vezes sem conta, quando próximo de sua tão sonhada aposentadoria, eu lhe perguntei: “Comadre, por que a senhora é tão feliz?” 

“Meu filho”, respondia-me com aquele seu sorriso luminoso estampado na face engelhada, “Deus não nos quer tristes.” 

“Mas Comadre”, retorquia eu, “e o sofrimento que nós vemos no mundo?” “E a violência, a fome, as doenças...?” 

“Olhe, meu filho, como posso duvidar de Deus? Ou acredito ou não acredito.” 

E seguia lépida e fagueira, a chistar, trouxa na cabeça, alegre, feliz, sem sequer desconfiar que sua lógica simples dera um nó em toda a minha metafísica.

honoriodemedeiros@gmail.com
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