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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

D. EFIGÊNIA, OU DA ARTE DE FAZER O BEM

 



* Honório de Medeiros


Dona Efigênia pontificava naquela rua onde morei.

Gorda, imensa, um pouco surda – talvez por puro cálculo – passava o dia sentada em uma cadeira de balanço na ampla sala de estar que dava para um jardim lateral. Um portão de ferro batido, pintado de branco, lhe separava do resto do mundo em sua casa antiga, senhorial, de esquina. 

Sempre perfumada, penteada e bem vestida, ficava o dia inteiro colada a uma mesinha redonda cheia de quinquilharias na qual reinavam, incontestes, o telefone e o rádio.

“Prefiro o rádio”, disse-me ela uma vez quando lhe perguntei qual a razão do eterno silêncio da televisão. “As pessoas participam mais”.

Eu cumpria fielmente o ritual de visitá-la tantas vezes fosse a sua cidade. E tenho certeza que ela gostava de minhas visitas. Prova-o o doce de coco verde sempre disponível e do qual eu gostava imensamente.

Acredito até saber a razão de sua simpatia para comigo: ao contrário da grande maioria dos que a procuravam, eu não estava interessado em fofocas ou, melhor dizendo, meu interesse era secundário, existia apenas na justa medida em que ilustraria alguma opinião sua a respeito de fatos e pessoas, isso sim, extremamente interessante, porque revelava um agudo poder de observação e análise.

Pois Dona Efigênia, viúva, com pensão mais que razoável deixada pelo falecido, além de algumas casas alugadas, filhos dispersos pelo mundo, era uma renomada e rematada fofoqueira, na opinião de quase todos. 

Talvez fofoqueira não fizesse jus ao que de fato ela era. Como uma aranha postada no centro de uma imensa teia ela recebia, analisava e devolvia informações ao longo do dia de uma imensa variedade de informantes: serviçais, comadres, afilhados, sobrinhos, primos, amigos, o carteiro – por quem tinha especial predileção, dado que vivia batendo perna pelos cantos – o leiteiro, as crianças da rua, os vizinhos, pessoas de outros lugares, o padre, o rádio e o telefone.

Devo ter esquecido alguns, óbvio, mas não esqueço sua sala de visitas quase sempre cheia e ela quase sempre em silêncio escutando até que, em determinado momento, chamava alguém para sentar em um banco baixo que ficava estrategicamente perto de sua cadeira de balanço e cochichavam algo durante alguns minutos após os quais a conversava particular era dada por encerrada.

Quando a conheci supus que aquela sua atividade começasse e acabasse conforme comentavam os maledicentes. Diziam estes que tudo aquilo não passava de fofocas de viúva velha. Depois de algum tempo compreendi que ela mesma criara essa camuflagem.

Era assim mesmo que ser enxergada pelos outros. A camuflagem ocultava o verdadeiro propósito de sua atividade diária.

Através da colheita de informações ela ficava sabendo o que de errado havia acontecido no seu entorno: alguma gravidez indesejada, uma demissão inesperada, uma prestação do colégio atrasada, uma virgindade perdida, um exame médico além do alcance de quem dele estava precisando, uma traição que se consumava, uma despensa desabastecida, uma violência doméstica cometida, um recém-nascido abandonado...

Então Dona Efigênia entrava em ação: chamava um, chamava outro, cobrava antigos favores, pedia novos, recebia dinheiro de quem lhe devia e repassava para quem estivesse precisando, dava carões, espalhava conselhos, apontava caminhos, indicava obstáculos, aproximava pessoas, afastava outras, mandava fazer, mandava desmanchar, realizando um metódico, complexo e minucioso bordado social.

Eu conseguira desvendar a charada!

Dona Efigênia, há muito, descansa em paz e, se existe Céu, nos braços do Senhor.

Seu enterro foi algo inesquecível. Houve muitas flores, muitas lágrimas de saudade e gratidão. Dela ficou, em mim, a lembrança de alguém extremamente inteligente. De alguém extremamente bom, no antigo sentido do termo.

Ao longo da vida me pego, de vez em quando, lembrando de alguma observação sua. Invariavelmente paro, componho em minha mente o quadro de sua presença naquela sala de estar hoje silenciosa, sentada em sua cadeira de balanço, pego no seu breviário que eu herdei, e me ponho a ler e é essa a homenagem saudosa que lhe presto.


honoriodemedeiros@gmail.com
@honoriodemedeiros

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

ÀS MARGENS DO RIACHO

 



Às margens do pequeno riacho, sentado e com as costas repousando no espaldar inclinado de uma grande pedra, gozando a sombra de uma quixabeira, o adolescente, absorto, observava o revolutear de uma folha seca em suas águas.

A água fazia a folha ir e vir, às vezes afundar para reaparecer uma pouco mais à frente, acalmar-se e, pouco depois, irromper velozmente contra as pedras que afloravam ante seu percurso, numa sarabanda caótica de recuos e avanços que, mesmo assim, levavam-na riacho abaixo, para seu destino final.

O adolescente, esgotado por uma longa caminhada que o levou até o riacho, devaneava. 

No devaneio, imaginou que aquela água era como a vida, e a folha, ele. Foi uma fugaz imagem, essa, instantânea, mas ficou encravada em sua memória para sempre.

Algum tempo depois, já universitário, entre uma aula e outra, se deitou com dois amigos de infância à sombra do telhado de um depósito que ficava ao lado de um dos auditórios da Universidade.

Estavam começando uma nova fase da vida. Cada um dos amigos expôs o que imaginava ser seu próprio futuro, a partir do curso que estava fazendo. Cismavam, todos.

Quando chegou sua vez de falar, antes mesmo de expor seu pensamento, se lembrou repentinamente daquele instante vivido alguns anos antes, às margens do riacho.

Na medida em que relembrava o episódio, contando-o, acrescentava detalhes não ao fato em si, mas à interpretação. 

Pensava o fato e o interpretava. Agora já não era apenas uma comparação entre sua vida e aquela folha seca que revoluteou nas águas do riacho. 

Era isso e algo mais: a folha seca, embora tivesse um revolutear caótico, não iria além das margens do riacho, e, caso superasse os obstáculos com os quais se deparava, desaguaria no rio que aguardava suas águas, mas, quem sabe, poderia prosseguir até cada vez mais longe, para destino ignorado.

Ao longo dos anos esse episódio passou a ser como que uma chave simbólica, cada vez mais complexa, para abrir a porta que conduzia à sua metafísica pessoal. 

Essa metafísica, esse discurso racional de si para si lhe permitia tentar compreender, na medida do possível, como era a realidade, tudo que o cercava e envolvia, incluindo ele mesmo.

A folha era ele; a realidade, a água...


*honoriodemedeiros.blogspot.com
* @honoriodemedeiros
Imagem: Honorio de Medeiros

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

QUEM ERA O HOMEM DE OLHOS ACESOS?

 


* Honório de Medeiros


O pai de minha sogra tinha mais de noventa e seis anos quando esse fato aconteceu.

Andar curvado, pele curtida, mãos nodosas, cabelos finos e totalmente brancos, de uma magreza ascética, poucas palavras, um começo de senilidade que não lhe fizera perder totalmente o senso.

Homem tipicamente sertanejo e rural, daquela estirpe de nordestinos como já não os há, cuja palavra empenhada vale mais que qualquer cheque em branco, seu código de honra era imutável: uma vez tomada uma posição, não havia possibilidade de mudança.

Seus valores eram "preto no branco". Aprendera assim com seus avôs e pais e, segundo ele, deveria ser assim por que assim o era desde que o mundo é mundo.

Aconteceu que um dos seus muitos filhos, o mais velho, suscetível, em termos de honra, tanto quanto ele, depois de uma desavença onde não faltaram palavras ásperas de lado-a-lado, foi-se embora jurando nunca mais voltar.

Ele sentiu o golpe, mas não o acusou. Ano após ano, mesmo as lágrimas de mãe que sua esposa derramava escondido e ele pressentia, não lhe fez sequer murmurar o nome daquele que ousara levantar a voz e desrespeitar sua autoridade paterna.

Era como se o filho não existisse, e as notícias esparsas, trazidas pelos outros até o seio da família não lhe eram comunicadas, circulando sem o seu conhecimento, por entre a mãe e irmãos.

Dias antes da última eleição municipal que o encontrou vivo, uma ligação da desconhecida esposa desse seu filho comunicou sua doença: entubado, inconsciente, comatoso, jazia na unidade de tratamento intensivo de um grande hospital em uma cidade distante, no norte do País.

Criou-se uma sincronia macabra entre a expectativa do dia eleição e o da sua morte, nessa altura, já esperada.

Embora todos, em casa, soubessem da situação, e poupassem o pai por temor de um agravamento da sua fragilidade de idoso, a ansiedade pelo desfecho, tanto da eleição, quanto da morte - agravada pela dificuldade de se obterem informações - aumentava cada vez mais.

No dia anterior ao da eleição, às oito horas da manhã, uma das suas filhas, como de costume, foi acordá-lo para o café e o encontrou falando como se estivesse se dirigindo a alguém. Perguntou-lhe: “com quem está falando, papai?” “Com esse homem de olhos acesos que não para de me olhar”. “Quem, papai, aqui não tem ninguém”. “Você pensa que eu sou doido; o que ele queria aqui no meu quarto?”

A filha imediatamente teve um palpite, e, angustiada, sentou-se lentamente na cama. “Papai, esse homem era novo ou velho?” “Era novo, ainda.” Nesse instante, o telefone tocou estridentemente lá fora. Ela correu para atender. Do outro lado da linha, a informação esperada: “seu irmão acabou de falecer.”

Mas ainda não acabara o inexplicável. À noite, enquanto era acomodado em sua cama, véspera tumultuada de eleição, o pai virou-se para a filha e resmungou. Atenta, ela lhe indagou: “o que é papai?” “Essas almas”, respondeu, “hoje está cheio delas aqui.”

Pouco tempo depois, chegou sua vez...


honoriodemedeiros@gmail.com
@honoriodemedeiros
Imagem: @michaellalima

sábado, 1 de julho de 2023

É PRECISO MUITO POUCO PARA SERMOS FELIZES

 

Imagem: Honório de Medeiros

Honório de Medeiros: honoriodemedeiros.blogspot.com


Deslizo por sobre a superfície das coisas. Não sei nada, nada, de nada. O pouco que sei é inconsistente. Entretanto, enquanto me espanto com minha própria ignorância, fico perplexo com o conhecimento e poder dos outros. Há muita gente sabida mundo afora. Como sabem, eles! E eu, cá, tosco. Algumas pessoas, não muitas, trazem, esculpida no rosto, a tragédia de intuir, no outro, essa quimera da arrogância intelectual. Para elas, a quem foi dada a sensibilidade enquanto dom, a vida é apenas um lapso temporal. Entendem que não vale a pena qualquer tipo de arrogância e poder. E entendem, também, a solidão terrível dos que acham que sabem e podem e não percebem que por não saberem, verdadeiramente não podem...

É preciso muito pouco, às vezes, para sermos felizes. 

terça-feira, 27 de junho de 2023

A SOLIDÃO QUE NOS DEFINE

 

Imagem: Honório de Medeiros
Castelo Brennand, Recife (PE), março de 2021

Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)

No final das contas essa entrega às redes sociais é mais uma declaração pungente da solidão que nos define. Somos, em essência, solitários. Incapazes de estabelecermos pontes pontes entre nós, conseguimos dialogar virtualmente sem olhar nos olhos do nosso interlocutor, enquanto um biombo imaginário nos protege do olhar do outro. Assim, perdemos a possibilidade de sermos ternos, cúmplices, amorosos, partícipes de um projeto comum que resgate o imenso abismo que separa cada um de nós, desde que nascemos.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

VERDADE OBJETIVA

 

Imagem: Honório de Medeiros


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


De qualquer forma, somos perdedores. Em um mundo no qual o princípio basilar da razão, o da verdade objetiva, desmorona lentamente, substituído pelo relativismo das narrativas subjetivas, somente o permanente confronto, até mesmo físico, nele encontra guarida. Onde tudo pode ser, nada é; onde nada é, tudo pode ser. Se fôssemos minimamente sensato, aproveitaríamos o que nos aproxima e deixaríamos de lado o que nos afasta. Este é o ponto-de-partida para evitarmos o caos, a fragmentação, a insanidade.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

ENQUANTO A VIDA PASSA COMO EM UM SONHO

 

Imagem: Honório de Medeiros

Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


Quero sentar na calçada nos finais de tarde, xícara de café à mão, o chiste, o causo, o juízo-temerário, a anedota, a estória e a história na ponta da língua e na raiz do ouvido, o pensar leve, o dizer ameno, o lamento - se houver necessidade - sentido, enquanto a vida passa como em um sonho, suave e derruidora, o tempo, evanescente, se esgota, até que não haja mais o momento seguinte e eu, sábio posto que velho - assim espero - possa ter a certeza de que tudo pelo qual se ensanguenta o homem, a não ser quando em defesa de si mesmo e dos seus, não vale a pena, e que acertei quando despi a mente, até o nada, do supérfluo, e compreendi o tamanho da minha ignorância.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

ESTADO E INDIVÍDUO

 

Imagem: Honório de Medeiros

Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


O duplo (1) de Enrique Vila-Matas, narrando seu périplo em Bordeaux, (no livro Perder Teorias), onde proferiria uma palestra que não houve, lembrou, enquanto vagava ao léu, a "literatura da percepção", citando Franz Kafka, que percebera "para onde iria evoluir a distância entre Estado e Indivíduo, Singularidade e Coletividade, Massa e Cidadão".

Não aceitou, o duplo, na continuação do seu raciocínio, que a "literatura da percepção" fosse o mesmo que "literatura profética"(2), a qual denominou de "nada interessante". Lembra, também, o duplo, o hoje pouco conhecido Julien Gracq, escritor para escritores, autor de O Mar das Sirtes, que segundo seu pensamento, faria parte da corrente que têm a capacidade de antevisão, ou seja, daqueles que conheceriam o grande problema dos dias atuais, qual seja "a situação de absoluta impossibilidade, de impotência do indivíduo frente à máquina devastadora do Poder, do sistema político".

(1) Duplo: personagem que, calcado no autor, adquire qualidade de projeção e posteriormente se transforma em uma entidade autónoma que sobrevive ao seu criador, partilhando com ele uma certa identificação.

(2) Literatura profética: ironia a partir dos textos, tal e qual o Apocalipse, atribuído a São João, que dizem como será o futuro.

terça-feira, 20 de junho de 2023

HÁ UM INFINITO DENTRO DO HOMEM

 

Imagem: Honório de Medeiros
Rio São Francisco, Piranhas, Alagoas, 2 de maio de 2022


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


Penso no que nos cerca e envolve, dou razão à minha amada e me conformo, mas não perco a esperança. Enquanto espero que mudem as coisas, e os dias rolam na minha vida como as contas de um terço rolam nas mãos daqueles que rezam, escapo para o último andar do prédio onde moro, prédio entre prédios, subo a escada que conduz ao topo e, lá, derramo meu olhar descontente por sobre a cidade febril. Gulosamente sinto, sobre mim, o infinito do céu no qual os limites existentes são o voo dos pássaros e de um ou outro avião. Há um infinito dentro do Homem, e outro, além, e ele não percebe...

segunda-feira, 19 de junho de 2023

QUANDO SE AMA O ABISMO

 

Imagem: Honório de Medeiros


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


A minha alma é uma  chama
insaciável de infinitos.
Flameja para o desconhecido sua ânsia,
mas é preciso asas quando se ama o abismo.

domingo, 18 de junho de 2023

DE ENCONTROS

 

Imagem: Honório de Medeiros


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)



Não gosto de marcar encontros.

Deixo ao sabor do acaso, vê-la.

Assim, saio quando quiser,

Ou fico, caso queira.

E não lhe magoo.

sábado, 17 de junho de 2023

SAIR DE CENA

 

Imagem: Honório de Medeiros
Lachine, Quebec, Canadá, 22 de outubro de 2022


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


Um homem tem que saber a hora de sair. Recolher-se. Tirar as esporas, guardar os arreios, encostar a cela. Perceber que seu tempo passou. Refrear os últimos ímpetos, pendurar as armas, despir a casaca. Não mais se afadigar debaixo do sol. Beber seu café, contar casos, ver seus rebentos irem para a arena. Sair de cena: com calma, para não parecer rendição, mas com certa ligeireza, de quem sabe o que está fazendo. Dizer adeus. Afinal até a chuva não é mais como era antes.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

BUSQUE-ME

 

Imagem: Honório de Medeiros


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)

Não me exporei, mas cá estou. Venha a mim, se puder. Busque-me. Assim farei eu, se o desejar. Pois nada tenho. Nada tenho que valha a pena dizer. Por enquanto. Nem mesmo sei se tive. Ou terei. Eu lhe digo mais, agora, com este meu silêncio de noite fechada.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

NO TEATRO DA VIDA

 


Imagem: Honório de Medeiros (17 de abril de 2022, Piranhas, Alagoas)


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


Estamos cansados. Encenamos uma peça, no teatro da vida, que não escolhemos, com parceiros que nos foram impostos ou não soubemos selecionar, cuja finalidade não é aquela que nosso coração escolheria. A razão ansiosa, pode ser; o coração, não. Lutamos pela admiração alheia deixando de lado o olhar melancólico da nossa verdadeira face, que nos olha do espelho surpresa com os nossos fracassos. Admiração não merecida, vazia, sem sentido. E, quando menos esperamos, o tempo passou, tudo aquilo pelo qual valia a pena viver se foi como uma bolha de sabão exposta ao vento, tudo desaparece como um pôr-do-sol que se despede, e, então, chega o inverno, a última das estações, e resta, apenas, um sabor amargo na boca e a sensação de adeus.  

quarta-feira, 14 de junho de 2023

FLÂNEUR

 

Imagem: Bárbara Lima


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


Sair por aí, qual um "flâneur", em busca de arrebatar uma flor para colocar na lapela ou na casa do botão, beber uma xícara de café ou uma taça de vinho, quem sabe arrancar um sorriso de alguém que passa com um certo ar melancólico, mas sem recordar o passado e tudo que ele evoca e provoca, tampouco se preocupar com o futuro, livre, leve e solto, apenas vivendo o momento presente, essa doce mistura de esperança e ilusão, até que os dias se transformem em neblina, depois venha a chuva, e, por fim, o adeus, e não haja mais o agora.

terça-feira, 13 de junho de 2023

O QUE NOS RESERVAVA CADA CAMINHO QUE NÃO FOI PERCORRIDO?

 

Imagem: Honório de Medeiros


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


Cada um de nós, no presente, é refém das escolhas que fez no passado. Bifurcações, encruzilhadas, caminhos com possibilidade única de retorno, veredas, portas, qualquer opção tomada nos encaminhou para um futuro e desfez, naquele preciso instante, para sempre, a possibilidade de vivermos o que foi deixado para trás. Muito embora, às vezes, pudéssemos ter uma pálida ideia do que viria quando optamos, são tantos os desdobramentos seguintes que qualquer certeza logo se desfaz, tal sua evanescência. Angustia-nos sabermos que a escolha foi um ponto-sem-volta, que nunca saberemos, concretamente, o que aconteceria se, no passado, tivéssemos seguido por caminho diferente. Aquela rua que não foi transposta, a esquina que não foi dobrada, aquele adeus, o não ou o sim que dissemos, há tanto tempo, o que nos reservava cada caminho que não foi percorrido?

segunda-feira, 12 de junho de 2023

UM HOMEM-ILHA

 

Imagem: Honório de Medeiros


Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


Não lhes pergunto acerca dessa melancolia, o cinza do dia-a-dia, uma espera solitária, quando cai a noite. "Siga em frente", digo para mim mesmo. "Pegue o trem". "Reaja". Descarto. Onde está o Outro? Não há. Não me aproximo: a intimidade, qualquer que seja, gera o desprezo. Então, fico parado, em meu canto, sou uma ilha. Compreendo-me, não me importo, devaneio: sou uma tarde de domingo, um adeus, uma bolha de sabão levada pelo vento, um nicho no tempo que flui, apenas uma ilusão, nada mais que palavras vazias. Na minha frente, o trem passa e o Outro se vai, um homem-ilha...

domingo, 11 de junho de 2023

QUE DESTINO TOMAR?

 

Imagem: Honório de Medeiros

Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


O cheiro da terra molhada pelo orvalho da manhã me acompanha enquanto caminho até a encruzilhada das quatro bocas: que destino tomar? Esvazio a mente de qualquer pensamento e deixo as pernas me levarem. Ouço o sabiá, o galo-de-campina, o bem-te-vi; um cachorro ladra ao longe; zurra um jumento; sigo em frente com o rosto banhado pelos primeiros raios de sol. Além, diviso as ruínas da casa abandonada onde morou Toinha Parteira, que tantas crianças trouxe ao mundo até que a foice de Raimundo, alucinado de ciúme, tirasse a luz dos seus olhos verdes plantados em um rosto moreno, quase negro. Reverencio as ruínas. Sigo em frente. A encruzilhada está mais próxima. Qual será o meu destino? Seu Antônio de Luzia me disse que assim como a Casa do Pai tem muitas moradas, cada passo que nós damos é um destino que escolhemos, e os outros ficam para trás. Isso foi há muito tempo, lá no Feijão, Sítio Canto, Serra da Conceição. Os pardais já se acoloiavam para dormir, fazendo um zoadeiro danado. Eu me lembro que era a hora da coalhada. Peguei o tamborete e segui seu Antônio: ia eu lá perder um quitute daquele? Agora, a história era outra. Pois bem, no final, peguei a trilha da direita que leva à morada do Urubu, cheia de pedras imensas, onde a lenda conta que, em noites, sem lua, os sacis pitam seu fumo enquanto fazem arte com os passantes. Sertão de Deus Dará, 20 de fevereiro de 2023.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

A GAROA BANHAVA AS PLANTAS...

 

Imagem: Honório de Medeiros

Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)

Acordei à meia-noite com um galo cantando desesperado em alguma quebrada próxima. Uma suindara gritou. Na mesma hora Tupã danou-se a latir. Olhei pela réstia da janela e uma claridade opaca, difusa, sobrenatural, tinha tomado conta da Serra. Deitei-me e adormeci novamente. Quando a madrugada chegou, peguei o cajado e saí para caminhar. Era o meu último dia em Vai-Não-Vem. A garoa banhava as plantas, o chão, os bichos, a mata, e as poucas pessoas que eu encontrava. Tudo jururu. Fiz meu percurso respirando água, embriagado de neblina, vendo a passarinhada passar em voo rasante. Não fui no rumo das Quatro-Bocas. Subi até a Pedra da Lua, onde, por vários minutos, me entreguei à liberdade e comunhão com tudo quanto há de mais elementar e profundo se a alma está leve e aberta: a terra, o ar, as pedras, as plantas, a água, a luz solar, os viventes...
Serra de São Bento, 22 de fevereiro de 2023.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

SOMOS ESTILHAÇOS

 

Imagem: Honório de Medeiros

Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)


A realidade pessoal fragmentada: somos estilhaços. Cada estilhaço tem vida própria e conduta errática. Nós somos a soma de todos esses estilhaços, um sentido que emana da ausência de sentido. Paradoxo do mentiroso. Somos a água da correnteza de um rio descendo em enxurrada, na busca do oceano. O rio é a vida, o oceano, o destino final, a integração com o Um. Somos folhas rodopiantes, alucinadas, em dias de ventos traquinas. Abismos no tempo, fendas nas essências das coisas, fluímos vertiginosos. Um grito solitário no silêncio sepulcral do universo, quase. Pontes, caminhos para um infinito desconhecido. Pó das estrelas.

Cerro Corá, fevereiro de 2023.