Raul Fernandes, autor de "A Marcha de Lampião", filho do Coronel Rodolfo Fernandes
* Honório de Medeiros
O ATAQUE A MOSSORÓ, CONTINUAÇÃO...
Estamos em 1927.
O Coronel Rodolpho Fernandes é o Prefeito de Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte. Mossoró rivaliza com Natal, a capital. Sua população, incluindo a do município, era de 20.300 habitantes. Natal alcançava 30.600, nos diz Raul Fernandes em A Marcha de Lampião.
A ascensão ao poder do Coronel revela o predomínio político que sua família, Mathias Fernandes Ribeiro, descendente de um português, adquirira ao longo do tempo, e que se baseava, fundamentalmente, na exploração industrial da cultura do algodão.
Aqueles eram novos tempos, o Coronel o pressentia.
O Sertão, através de José Augusto Bezerra de Medeiros granjeara, para si, o poder que os Maranhão, ricos usineiros do açúcar, entregaram lentamente aos coronéis proprietários de terra onde o algodão brotava e enriquecia.
Entretanto, esse mesmo poder, calcado na terra, cedia lentamente, por sua vez, espaço a uma burguesia que se firmava por intermédio da industrialização e do comércio em larga escala.
Os Fernandes estavam à frente desse processo de mudança e iriam viver seu apogeu logo mais, após a vitoriosa campanha do Partido Popular contra Mário Câmara e a eleição do médico Rafael Fernandes para dirigir os destinos do Rio Grande do Norte.
Enquanto não se consolidava de vez o poder nas mãos dos Fernandes, na capital seguidores de José Augusto olhavam com preocupação esse avanço político da família alto-oestana em Mossoró, cidade líder inconteste do Oeste Potiguar, sob o comando do Coronel Rodolpho Fernandes e, no Alto Oeste, em Pau dos Ferros, liderada pelo Coronel Adolpho Fernandes, seu primo.
De Mossoró para dentro, até a fronteira com a Paraíba, portanto de Apodi, passando por Martins, a Luis Gomes, os Fernandes dominavam. Em Apodi, embora o Coronel Chico Pinto não fosse Fernandes, era correligionário e amigo pessoal do Prefeito de Mossoró.
A oposição não descansava, era aguerrida e chegava até os salões do Palácio do Governo, onde auxiliares diretos de José Augusto o intrigavam junto a Rodolpho Fernandes e vice-versa.
Em carta dirigida ao escritor Nertan Macedo, Paulo Fernandes, filho de Rodolpho, chegou a ser enfático quanto a essa intriga entre os dois líderes políticos: “O Governador do Rio Grande do Norte, Doutor José Augusto Bezerra de Medeiros e o seu chefe de polícia, Desembargador Manoel Benício de Melo, estavam à época, em franco dissídio com o prefeito de Mossoró (meu pai); O Sr. Mirabeau Melo, chefe da repartição do telégrafo em Mossoró, era irmão do chefe de polícia, e atuava como informante das coisas locais e porta voz do governo; era um medíocre intrigante, inadequado para a missão que o destino lhe reservou, pois tanto o governador do estado e seu chefe de polícia como o prefeito de Mossoró eram homens de bem e do mesmo partido político, de modo (que) só se compreende o dissídio entre eles, em torno do problema de interesse público, em virtude da ação maléfica de mexeriqueiros” (...).
Tal oposição chegou ao cúmulo de tentar levar o Coronel Rodolpho, um homem sério, respeitado, ao ridículo, como nos lembrou Paulo Fernandes na mesma carta: “As advertências à população e providências tomadas por meu pai eram exploradas pela oposição até com o ridículo. Chamavam-no, por exemplo, de velho medroso, por se preocupar com um possível ataque de Lampião à cidade”(...).
Raul Fernandes confirmou: “Adversários políticos e maledicentes desfrutavam, com vantagem, o receio do Prefeito”.
A par dessa situação política tensa, na qual vivia Rodolfo Fernandes, o futuro parecia promissor: sua liderança em Mossoró era inconteste, a cidade crescia a olhos vistos sob sua administração, dois dos seus três filhos homens faziam medicina fora e voltariam, brevemente, para dar continuidade a seu legado político, e sua família era, naquele período, uma das mais ricas do Estado.
Mesmo assim, o Coronel Rodolpho não descuidava. Conhecia bem os meandros da política interiorana. Não saía de sua lembrança a forma violenta através da qual seus parentes de Pau dos Ferros tomaram o poder naquela cidade alguns anos atrás, expulsando o Coronel Joaquim Correia.
As histórias acerca do cangaceirismo corriam de boca-em-boca pelas praças e ruas da cidade, sempre envolvendo coronéis e disputas políticas como pano-de-fundo.
Notícias vindas do Acre davam conta das aventuras de Childerico Fernandes, o Guerreiro do Yaco, irmão do Coronel Adolpho Fernandes, repletas de violência.
O Coronel Chico Pinto lhe punha a par dos desmandos de seus adversários que iriam redundar na invasão da cidade por Massilon e, posteriormente, em seu assassinato em 1934.
As estripulias de Massilon, conhecido em Mossoró, lá para as bandas de Brejo do Cruz, agindo a mando de pessoas que também tinham interesses políticos em Apodi; as histórias oriundas do Cariri cearense, de deposição de Coronéis por outros Coronéis através das armas, tudo isso lhe trazia profunda preocupação.
Assim, pareceu-lhe particularmente preocupante algumas informações que pessoas a si ligadas por laços comerciais e afetivos fizeram chegar aos seus ouvidos por aqueles dias do começo do ano de 1927.
É como nos disse seu filho Raul Fernandes em A Marcha de Lampião: “Na última quinzena de abril, de 27, a notícia veio à luz de modo concreto. Argemiro Liberato, de Pombal , escreveu ao seu compadre Rodolpho Fernandes sobre a pretensão dos chefes de bandidos. Dos remotos sertões de Pernambuco, da Paraíba e do Ceará surgiam indícios dos agenciadores da vergonhosa empreitada”.
Raul Fernandes disse mais à frente, em nota: “Ouvi de meu pai referências à missiva”.
Quem agenciava essa empreitada? A mando de quem? Com qual objetivo oculto, escondido por trás da cortina de fumaça que era a invasão da cidade em busca de suas riquezas, agiam seus autores intelectuais?
Com certeza Lampião não sabia do que se tramava contra Mossoró ou contra o Coronel Rodolpho Fernandes. Sérgio Dantas, em Lampião e o Rio Grande do Norte, é enfático quanto a isso, transcrevendo testemunho de Jararaca que ouvira as conversas do cangaceiro com o Coronel Isaías Arruda acerca do plano de invasão de Mossoró: “Lampião nunca tencionara penetrar nesse Estado porque não tinha aqui nenhum inimigo e se por acaso, para evitar qualquer encontro com forças de outros Estados, tivesse que passar por qualquer ponto do Rio Grande do Norte, o faria sem roubar ou ofender qualquer pessoa, desde que não o perseguissem”.
O Coronel Rodolpho Fernandes sabia mais que deixou transparecer naquele momento. Não falou a seus filhos acerca de tudo quanto estava por trás desse agenciamento que acontecia no Sertão paraibano e cearense.
Tampouco disse qualquer coisa a seus interlocutores, que tenha sido registrado para a história, nas reuniões onde expôs a possibilidade de invasão da cidade por Lampião e os convocou para a defesa.
Pressentia, entretanto, que o ataque à cidade, se viesse a acontecer, ocultava outro plano, cujo objetivo era ele.
Que outra explicação pode ser dada, se não essa, para a excessiva concentração de forças defensoras no entorno de sua residência, quando era sabido que ele, individualmente, jamais teria, consigo, dinheiro suficiente para qualquer resgate que valesse a empreitada do ataque a Mossoró?
CONTINUA...
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