terça-feira, 17 de março de 2026

AQUELAS NOITES NO SERTÃO

 



* Honório de Medeiros


Naquelas noites, no Sertão remoto nordestino, a escuridão tomava conta do Sítio onde, à luz do lampião, no terreiro, meu Compadre – eu, menino, o tratava assim, e ele assim me tratava – reunia, no seu entorno, a família e os amigos, para ouvirem as estórias que faziam parte da antiga tradição oral dos nossos antepassados sertanejos, sempre acompanhadas de uma xícara de café quente, coado na hora, e bolachas pretas.

Às vezes havia luar e o mar de prata criava imagens fantasmagóricas nos arbustos lá fora, confins da luz; ao vê-las, instintivamente nos aproximávamos um pouco mais dos adultos, e somente relaxávamos quando a gargalhada do meu Compadre pontuava suas estórias.

Até então, ele tinha nos deixado, a todos, em permanente suspense, por um tempo aparentemente sem fim.

Decerto, nunca mais pude fugir de qualquer compromisso alegando uma mentira inocente sem recordá-lo, e a um desses “causos” que ele nos contou.

Dizia respeito a alguém do seu conhecimento, “parente distante”, que para fugir de uma obrigação social, jurou, por intermédio de um bilhete, estar em casa, de repouso, por motivo de doença.

Ao voltar de um forró onde se esbaldou a noite inteira, em outra localidade, mal apeou do cavalo escutou choro e lamentações, e seu pressentimento foi confirmado pelos fatos – ela, sua esposa, jazia, muito doente, nos braços das filhas.

Exposto assim parece pouco, quase nada, mas somente sabe acerca da magia sobrenatural daquelas noites quem as viveu no Sertão, à luz bruxuleante do lampião, céu estrelado, ouvindo, de quando em vez, dentre outros, o canto sinistro dos rasga-mortalhas.

Eram estórias de amores; assombrações; gestas; valentias; honras; ódios entre famílias; cangaceiros; botijas, descobertas por intermédio de sonhos que precisaram de uma sabedoria centenária para serem interpretados corretamente; raptos consensuais ou não; caçadas às onças, nas quais somente a habilidade espantosa do caçador o fazia escapar com vida; pescarias milagrosas; recuperações da saúde através de feitiços, poções ou orações de benzedeiras e curandeiros; vidências, estórias de maus-olhados e mandingas; secas e invernadas desmedidas; justiças divinas a corrigirem desmandos humanos; feitos com armas; aventuras de parentes e amigos nas terras desconhecidas da Amazônia, para a qual tantos tinham ido e não mais voltado; estórias dos segredos da Serra das Almas, onde foram encontradas as ossadas de vários homens ao lado de espadas, escudos, elmos, pepitas de ouro e outros apetrechos do tempo em que o Brasil era recém-nascido; e tantas outras...

Na forma arrastada com a qual meu Compadre as contava havia uma magia que prendia nossa atenção, uma sabedoria antiga da qual ele era herdeiro e na qual era mestre; havia alguém que cultivara a tradição, o dom de contar um “causo”, uma cadência hipnótica na voz, uma lógica precisa para o encadear das frases engastadas com palavras que o mestre Luís da Câmara Cascudo não hesitaria em classificar como egressas do puro português colonial, e que os folgados das cidades grandes alcunhariam de “matutês”, por pura ignorância.

O desfecho sempre apresentava uma lição de vida e, não raro, belas conclusões a externar uma apropriada observação acerca da natureza dos homens e seu destino de desprezar o caminho certo, a senda justa, a trilha verdadeira na vida, em troca das facilidades enganosas que o diabo apresentava, enquanto armadilhas, para a perdição da alma dos incautos.

Meu Compadre não era somente um contador de estórias sem igual e um dos últimos herdeiros daquela raça de titãs que colonizou o Sertão, alguém dotado de arguta percepção a respeito dos homens e das coisas, a quem eu escutava embevecido; também era uma fonte inspiradora para mim, a principal delas quando penso na cultura sertaneja, como se tudo quanto eu lesse acerca do tema precisasse ser confrontado com a memória de sua existência, para, em mim, adquirir a necessária credibilidade.

Ele também era um poeta, em um certo sentido muito próprio, alguém com o dom de dizer belamente, em momentos especiais, com tiradas de brilho incomum, algo que nunca brotaria, com facilidade, dos nossos corações e mentes.

Dele escutei, certa vez, quando falávamos da morte, rompendo um mutismo inabitual, que "a morte, para quem fica, é uma saudade sem esperanças". Acaso alguém poderia ser mais preciso e poético ao descrever esse sentimento?

De outra, referindo-se aos caminhos e descaminhos de um amigo comum, saiu-me com essa, aludindo à eterna vitória da esperança sobre a razão: "compadre, quem nos puxa mesmo é a mão da ilusão..."

Passaram-se os anos, muitos, desde então, e o pó do tempo escondeu impiedosamente muitas lembranças minhas dos tempos de menino.

Algumas, entretanto, sobreviveram. Vez por outra, por exemplo, eu me lembro daquelas noites no Sertão, e fico imaginando o quanto meu Compadre gostaria de escutar esta minha história (ou estória), acerca do seu dom de narrador.

Não por vaidade – nunca conheci ninguém tão simples, mas pelo inusitado, para ele, da recordação.

Pois se ele, quando se foi, há muito tempo, imaginasse que um dia alguém iria lembrar daquelas noites no terreiro de sua casa, no Sítio, Encanto, beiradas da Serra das Almas, Sertão profundo, à luz das estrelas, da lua, e de uma fogueira bruxuleante, daria uma grande risada com aquele jeito manso e ficaria muito satisfeito.


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segunda-feira, 16 de março de 2026

DE HIPERGARANTISMO OU ABSOLUTISMO JUDICIAL



Honório de Medeiros                                                                

Um dos mitos fundantes da nossa concepção de Estado é a do contrato social: nós cedemos nossa liberdade para que sejamos impedidos de nos destruirmos uns aos outros.

Tal noção, até onde sabemos, foi pela primeira vez exposta por Licofronte, discípulo de Górgias, como podemos ler na “Política”, de Aristóteles (cap. III):

De outro modo, a sociedade-Estado torna-se mera aliança, diferindo apenas na localização, e na extensão, da aliança no sentido habitual; e sob tais condições a Lei se torna um simples contrato ou, como Licofronte, o Sofista, colocou, "uma garantia mútua de direitos", incapaz de tornar os cidadãos virtuosos e justos, algo que o Estado deve fazer.

E, muito embora um estudioso "outsider" do legado grego tal qual I. F. Stone defenda que a primeira aparição da teoria do contrato social está na conversa imaginária de Sócrates com as Leis de Atenas, relatada no “Críton”, de Platão, há quase um consenso acadêmico quanto à hipótese Licofronte estar correta.

É o que se depreende da leitura de “Os Sofistas”, de W. K. C. Guthrie, ou da caudalosa obra de Ernest Barker.

Bellum omnium contra omnes, guerra de todos contra todos até a auto-aniquilação no Estado de Natureza, é o que ocorreria se imperasse a liberdade absoluta, disse-nos Hobbes no final do Século XVI, início do Século XVII, recuperando a noção de contrato social.

Isso, se não houver a criação de um artefato – o Estado –, assegurando-se, assim, a sobrevivência dos homens quando estiverem em contato uns com os outros, pois haverá a submissão da vontade de todos à vontade de um só ou de um grupo, e esta atuará em tudo quanto for necessário para a manutenção da paz comum.

Entretanto é com Jean Jacques Rousseau, após John Locke, que se firmou o mito fundante do contrato social, influenciando diretamente a Revolução Americana e a Francesa, bem como a ideia de Estado conforme a concebemos ainda hoje.

Em “O Contrato Social”, Rousseau põe na vontade dos homens, da qual surge o Estado, a origem absoluta de toda a lei e todo o direito, fonte de toda a justiça. O corpo político, assim formado, tem um interesse e uma vontade comuns, a vontade geral de homens livres.

Quanto a esse corpo político, José López Hernández em “Historia de La Filosofía Del Derecho Clásica y Moderna”, observou que Rousseau atribuiu o poder legislativo ao povo, existindo enquanto tal por intermédio do contrato social, detém a soberania e, portanto, todo o poder do Estado.

As leis, inclusive a do contrato social, que emanam do povo, assim as vê Rousseau: “são atos da vontade geral, exclusivamente”; “é unicamente à lei que todos os homens devem a justiça e a liberdade”; “todos, inclusive o Estado, estão sujeitos a elas”.

O ideário acima exposto, no qual a lei a todos submete por que decorrente da vontade geral do povo – este, frise-se mais uma vez, surgido graças ao contrato social e detentor da soberania - pode ser encontrado em obras muito recentes, como o “Curso de Direito Constitucional”, primeira edição de 2007, do Ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil Gilmar Ferreira Mendes, e outros. Às páginas 37, lê-se:

"Por isso, quando hoje em dia se fala em Estado de Direito, o que se está a indicar, com essa expressão, não é qualquer Estado ou qualquer ordem jurídica em que se viva sob o primado do Direito, entendido este como um sistema de normas democraticamente estabelecidas e que atendam, pelo menos, as seguintes exigências fundamentais: a) império da lei, lei como expressão da vontade geral"; (...)

Assim como é encontrado, expressamente, enquanto cláusula pétrea, imodificável, na Constituição da República Federativa do Brasil, no parágrafo único do seu artigo 1º:

"Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".

Há algo de estranho, portanto, nessa doutrina do “ativismo judicial” que viceja célere nos tribunais do Brasil, principalmente no nosso Supremo Tribunal Federal. 

Entenda-se, aqui, como “ativismo judicial”, o “suposto” papel constituinte do Supremo, na sua função de reelaborar e reinterpretar continuamente a Constituição, conforme pregação sutil do Ministro Celso de Mello em entrevista ao “Estado de São Paulo”, e a atividade judicante de preencher uma “possível” lacuna legal ou mudar o sentido de uma norma infraconstitucional já existente, por meio de uma sentença, baseando-se em princípios difusos e indeterminados da Constituição Federal, estratégia empregada na Itália, Alemanha e pelo próprio STF.

“Não é por razões ideológicas ou pressão popular. É porque a Constituição exige. Nós estamos traduzindo, até tardiamente, o espírito da Carta de 88, que deu à corte poderes mais amplos”, diz, arrogantemente, o Ministro do STF Gilmar Mendes.

Pergunta-se: teria o judiciário legitimidade, levando-se em consideração a doutrina exposta acima, para avançar na seara do legislativo, passando por cima da soberania do povo em produzir leis através de seus representantes, seja preenchendo lacunas (criando leis), seja alterando o sentido de normas jurídicas, seja modificando, via sentença, a legislação infraconstitucional?

Ainda: teria amparo legal o STF para tanto?

Em que se basearia, qual seria o fulcro dessa atividade de invasão da competência do legislativo criando-se normas jurídicas através de sentenças, ou modificando-se o sentido de outras por meio de interpretações?

Seria, como deixa transparecer o presidente do STF em suas entrevistas, por que a Constituição Federal tem um “espírito” e somente os integrantes daquela Casa, em última instância, conseguem enxergá-lo em sua essência última?

Que espírito é esse? O mesmo ao qual se refere São Paulo: “a letra mata, o espírito vivifica”?

Autoritário, tal argumento. Sob o véu de fumaça que é a noção de que haja um “espírito constitucional” a ser apreendido (interpretado segundo técnicas hermenêuticas somente acessíveis a iniciados – os guardiões do verdadeiro e definitivo saber) está o retorno do mito platônico das formas e ideias cuja contemplação é privilégio dos Reis-Filósofos.

É a astúcia da razão a serviço do Poder.

Platão, esse gênio atemporal, legou aos espertos, com sua gnosiologia a serviço de uma estratégia de Poder, a eterna possibilidade de enganar os incautos dizendo-lhes, das mais variadas e sofisticadas formas, ao longo da história, que somente “alguns”, os que estão no comando, podem encontrar e dizer “o espírito” da Lei, o certo e o errado, o bom e o mal, o justo e o injusto.

O mesmo estratagema a Igreja de Santo Agostinho, esse platônico empedernido, por séculos usou para administrar seu Poder: unicamente a ela cabia ligar a terra ao céu, e o céu à terra, por que unicamente seus príncipes sabiam e podiam interpretar corretamente o pensamento de Deus gravado na Bíblia.

E, assim, como no Brasil a última palavra acerca da “correta” interpretação de uma norma jurídica é do STF, e somente este pode “contemplar” e “dizer” o verdadeiro “espírito das leis”, em sua essência última, aos moldes dos profetas bíblicos, mesmo que circunstancialmente, estamos nós, além de submetidos ao autoritarismo dos pouco preparados representantes do povo, ao autoritarismo dos ativistas judiciais.



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sexta-feira, 13 de março de 2026

ELES, LOBOS; NÓS, OVELHAS

 


* Honório de Medeiros


"Foi buscar lã e saiu tosquiado"
DITO POPULAR


Antes que me acusem de “simplismo” lembro, aos leitores, que guardando as proporções devidas entre o gênio e o provinciano inquieto, o texto a seguir, pelo menos na aparência, pode guardar alguma semelhança remota, no que diz respeito à ausência do embasamento erudito tão caro aos acadêmicos (nada mais que argumentos de autoridade quando não é possível comprovação empírica), ao “Manifesto Comunista” de Marx e Engels e ao “Servidão Voluntária” de La Boètie, ou mesmo ao “O que é a Propriedade”, de Proudhom.

Entretanto ouso dizer que é possível um tratamento “acadêmico” ao que se vai expor. Tanto é possível fazê-lo a partir da Filosofia, com Marx e os anarquistas ou, para não ser acusado de tendência óbvia pelo pensamento de esquerda, com base no pensamento de Gaetano Mosca, comprovadamente um autor de direita, quanto a partir da Sociologia, desde que haja, como matriz, a Teoria da Evolução de Darwin.

Posto isso, gostaria de iniciar apresentando a célebre fábula de La Fontaine, “o Lobo e o Cordeiro”, devidamente parafraseada:

“Um cordeiro matava a sede nas águas límpidas de um regato”.

“Eis que se avista um lobo que por lá passava em jejum e que lhe diz irritado”:

“Que ousadia a sua, turvando, em pleno dia, a água que bebo. Vou castigar-te”.

“Majestade, permita-me um aparte – diz o cordeiro – veja que estou matando a sede vinte passos adiante de onde o Senhor se encontra. Não seria possível eu ter cometido tão grave grosseria”.

“Mas turva, e ainda pior é que você falou mal de mim no ano passado”.

“Mas como poderia – pergunta assustado o cordeiro – se eu não era nascido”?

“Ah, não? Então deve ter sido seu irmão”.

“Peço-lhe perdão mais uma vez, mas deve haver um engano, pois eu não tenho irmão”.

“Então foi algum parente seu: tios, pais... Cordeiros, cães, pastores, nenhum me poupa, assim vou me vingar”.

“E o leva até o fundo da mata, onde o esquarteja e come sem qualquer processo judicial”.

Os lobos são a elite política; as ovelhas, o povo.

Desde que o mundo é mundo, excetuando, talvez, um período provavelmente mítico no qual o Homem vivia anarquicamente de caça e coleta[1], sem chefes nem hierarquias[2], a Sociedade é assim mesmo: de um lado os exploradores, do outro lado, os explorados.

Lembremo-nos como era antes nas grandes civilizações arcaicas: a grega, a judia, a chinesa, a hindu. O quê mudou de lá para cá? Nada, exceto a forma: se antes a polícia do chefe usava lança, hoje usa fuzil AK-47; se antes o tributo era o butim arrancado violentamente sem qualquer justificativa, hoje a extorsão se faz sob a desculpa de se dar condições ao Estado para que este melhore a vida das ovelhas em Sociedade.

Não vou perder tempo discutindo o que é o Estado. Desde que surgiu, quando surgiu a Polícia, o Tributo, a Norma Jurídica, e a Propaganda, o Estado é isso mesmo que você, caro leitor, pensa que é: um conjunto de aparelhos de controle social que a elite política criou para manter o “status quo”.

Pensemos, por exemplo, na Norma Jurídica. A elite política dissemina a idéia de que sua finalidade é o bem-estar social. Quando os gregos irridentes, nas guerras civis, pediram leis que submetessem a todos, a aristocracia pressionada acatou, mas tratou logo de controlar sua interpretação, produção e aplicação[3]. Hoje ainda é do mesmo jeito.

Aliás, a Norma Jurídica deve ter surgido como um estratagema de domínio: como não era mais possível dar ordens verbais a todos, e a escrita estava surgindo, nada melhor que cria-las, coloca-las em algum lugar público, e impor que “a ninguém é dado alegar o desconhecimento da lei”.

Tudo sob medida.

Pois bem, e essa elite política se perpetua? Claro, em todos os lugares. No Brasil, desde o Império.

As oligarquias, para sobreviverem, em certas circunstâncias históricas usam talentos aos quais agregam, consomem e expelem para fora do círculo íntimo do Poder Político: Dinarte Mariz fez isso; Aluízio Alves, também; Tarcísio Maia o fez, os Rosados o fizeram; Wilma de Faria idem, e assim por diante. São os escalões intermediários entre o círculo íntimo e a base mais abaixo, constituída de “inocentes úteis”.

Brigam entre si os integrantes da elite política[4]. Entretanto, se ameaçados, unem-se contra o inimigo comum.

Vejam o caso de Mossoró. Não por outro motivo o PT, até Lula chegar ao Poder, era um anátema, posto que representasse uma real ameaça aos interesses políticos/econômicos dos detentores do Poder. Hoje, a história é outra.

Essa elite política, para sobreviver, se espraia por todos os aparelhos do Estado: Judiciário, Legislativo, Executivo.

Aparelha tudo. Os aparelhos são integrados por membros das famílias que constituem a elite política ou agregados.

Quando não é possível a nomeação de familiares ou agregados, ainda resta a cooptação e o exílio, o esvaziamento político/social.

E, obviamente, se espraia também pela mídia servil, que bem paga, passa a filtrar os fatos – até mesmo criá-los, se for necessário - e lhes dá a conotação que interessa ao grupo dominante, assim como pelos negócios, através dos predadores empresariais, quase sempre sanguessugando, obliqua e dissimuladamente, a máquina estatal.

Obviamente, em certas circunstâncias históricas, como ocorreu recentemente no Brasil pós Lula, parece mudar os atores principais do teatro político. É possível. Mas a estrutura continua: uma nova elite política substitui a anterior que, derrotada, sai de cena.

Os atores são novos, mas o teatro e a tragicomédia são os mesmos, há sempre lobos e ovelhas, e continua tudo igual.

“Mutatis mutandis”.

Portanto temos que a elite política domina o Executivo, o Legislativo, o Judiciário; os meios de comunicação, a tributação e os negócios empresariais com o Estado, bem como a Polícia. 

Ou seja, domina tudo. E o domínio é extremamente eficiente: os tributos alimentam o Tesouro que vai pagar as obras que vão, por sua vez, pagar toda a máquina política. 

Tudo isso legitimado por uma propaganda eficiente que cria a impressão de que a arrecadação vai ser usada para produzir e manter políticas públicas de interesse da ovelhada.

Enfim, não por outras razões, como não somos lobos, somos ovelhas: nos tempos de hoje, enquanto alienados, indo inevitavelmente para a tosquia, tão logo sejamos convocados, sem “tugir nem mugir”, ou, quem sabe, quando muito, discreta e aceitavelmente perorando pelos cantos, em voz educadamente baixa, para não levar castigo.

[1] Jacques Le Goff.

[2] Robert Wright.

[3] Nikos Poulantzas.

[4] Gaetano Mosca.


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domingo, 8 de março de 2026

UM HOMEM TEM QUE SABER A HORA DE SAIR

 


Sarlat-La-Canéda


* Honório de Medeiros


Um homem tem que saber a hora de sair. 
Recolher-se.
Perceber que o tempo passou.
Tirar as esporas, encostar a cela.
Pendurar as armas, despir a armadura.
Não mais se afadigar debaixo do sol.
Beber seu café; contar casos.
Ver seus rebentos irem para a arena.
Sair de cena.
Com calma, para não parecer rendição,
e certa ligeireza de quem sabe o que está fazendo.
Dizer adeus.
Contemplar a lua; fugir do sol.
Afinal, mesmo a chuva não será como antes.
Natal/Cerro, 8 de março de 2026


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sexta-feira, 6 de março de 2026

DE VIAJAR PARA DENTRO DE SI

 


Imagem: Honório de Medeiros


Ela, tão amada, querendo me tirar de casa: “vamos, vai ser bom”. 

Eu: “estou cansado”. 

Ela: “mas você nem saiu esses dias”.

 Eu: “viajar para dentro de mim cansa demais”.


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quarta-feira, 4 de março de 2026

PSICOLOGIA EVOLUTIVA

 



* Honório de Medeiros
 



Apesar da chamada “teoria do design inteligente”, que diz ser insuficiente o darwinismo enquanto explicação para o surgimento e propagação da vida na terra, depois de abençoada por Sua Santidade o Papa, a verdade é que a Teoria da Evolução vai, aos poucos, se firmando como a única das macro-teorias oriundas do século XIX que sobrevive integralmente às críticas da comunidade científica.

As outras, como a psicanálise, nunca recebeu “status” científico; o marxismo ruiu com a Revolução Russa de 1917; a queda do Muro de Berlim, que permanece por terra; e a Teoria da Relatividade, de Einstein, por não ter conseguidou superar suas divergências fundamentais com a física quântica.

Um dos rebentos mais interessantes do darwinismo, chamemo-lo assim, é a Psicologia Evolutiva.

Como se pode depreender, trata-se de uma tentativa de explicação da psique humana utilizando-se as ferramentas próprias da Teoria da Evolução.

Nesse campo específico, nada tem suscitado tanto debate quanto às afirmações feitas pela Psicologia Evolutiva quanto a amor e sexo.

Por exemplo: a Psicologia Evolutiva explica que a traição, por parte do homem, é uma herança genética que o impele à tentativa de disseminar seus genes!

Isso seria algo ancestral – na aurora da história do homem, quando ele vagava pela terra caçando e coletando raízes e frutas, foram selecionados para sobreviver aqueles que tinham esse tipo de comportamento; quanto mais braços para a defesa e a procura de alimentos, melhor para a tribo.

A mulher, por outro lado, como era obrigada a conduzir, durante nove meses, sua gravidez, ficava estética e organicamente inviável para o jogo sexual, o que abria o espaço para a fecundação de outras.

Essa propensão, diz a teoria da evolução, não é um fatalismo, até mesmo porque o ser humano, que reina inconteste em pleno século XXI, para o bem ou para o mal, foi capaz de construir um aparato intelectual que lhe permitiu fazer opções de caráter ético fundamentais para assegurar sua sobrevivência.

Nesse sentido a Moral seria uma estratégia humana, uma espécie de instrumento adaptativo que lhe permite continuar sua saga sobre a face da Terra. 

Ou seja, embora haja essa tendência individualmente falando, enquanto espécie o homem aposta na fidelidade.

Não é assim que acontece se prestarmos bem atenção ao que se passa ao nosso redor?

Dessa forma a Psicologia Evolutiva explica muitas condutas masculinas e femininas. 

Uma delas, bastante curiosa, por sinal, é a chamada “Síndrome da Rejeição”. Por que a mulher, por exemplo, parece se interessar mais pelos homens que a rejeitam?

A resposta seria que a mulher, programada geneticamente para lidar com o procura masculina, ao sentir-se desprezada, sente ameaçada sua capacidade de interessar sexualmente e, assim, procriar.

Isso por que nosso objetivo básico, segundo a Teoria da Evolução, é propagar nossos genes.

Esta teoria não explica nosso amor desmesurado por nossos filhos?

Se forem polêmicas as afirmações feitas pela psicologia evolutiva no que diz respeito ao relacionamento amoroso, imaginem o que não se discute quanto à política, mais especificamente ao Poder.

Esta, entretanto, já é outra história.


* Honório de Medeiros
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segunda-feira, 2 de março de 2026

ESBOÇO DE UM DISCURSO ACERCA DA CRÍTICA RACIONAL DA ARTE

 


Arte: Gerard Mansoif


* Honório de Medeiros


A arte também é um discurso acerca do Real.

O conteúdo de sua manifestação, através da forma, discursa em linguagem peculiar, fragmentariamente, acerca da totalidade da "coisa-em-si" (a poesia fragmentária de T. S. Elliot é densa, filosoficamente).

Importa observar que a densidade da manifestação artística está diretamente proporcional ao conteúdo, e a dialética mecanicista do observador na fenomenologia do objeto-arte, esvai-se na constatação dedutiva da forma como consequência, jamais como causa.

Ou seja, o conteúdo antes, como idéia-impulso, a forma depois.

Constitui obstáculo epistemológico entregar, à produção artística, o aspecto de algo produzido, enquanto inconsciente, aos devaneios apriorísticos do artista.

Isso é a chamada escatologia das entranhas da psique. 

Ao contrário, a razão elabora aquilo que a emoção estética sugere tecendo, a partir do fragmento exposto, a cosmovisão racional do artista, quer ele queira, quer não.

O artista, então, apropria-se do real, e discursa acerca dessa apropriação. Apropriar-se é semelhante a apreender.

Quando ocorre, significa que lhe pos o limite do seu próprio limite e constituiu um estatuto artístico enquanto ser-que-observa, critica (consciente ou inconscientemente) e fala (sentido "lato") quanto ao objeto observado ou intuído.

Assim a dialética da arte é a luta do ser-que-observa com o algo-a-ser-observado, veiculada através de uma linguagem peculiar.

A arte, óbvio, diz algo acerca de algo, mesmo que esse algo seja palco de muitas dúvidas quanto ao ponto de partida para sua elaboração.

Afinal, o objeto envolve com sua beleza intrínseca ou é envolvido com a arte? Ou interagem?

A essência da discussão submerge na metafísica, embora a construção artística adense-se na medida de uma crítica racional, em busca da verdade.

Essa busca é infinita (não há verdade absoluta em arte, como não há em campo algum do conhecimento humano, porque a descoberta parcial altera as condições do futuro a ser descoberto).

É necessário uma metafísica dos pressupostos de uma crítica racional da arte.

O ponto-de-partida seria a densidade da intuição racionalizada (posta em discussão; sobrevivente à interação com o meio intelectual), exposta e observada tendo-se em conta o conteúdo da forma.

Criar-se-ia, então, uma tipologia e uma fenomenotécnica ímpar, que observará poemas como este, à luz de uma perspeciva clara e simples, constratando com decursos vazios e sem nexo

finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado

Em 1694, Basho (Trilha Estreita ao Confim; São Paulo: Iluminuras; 1997) deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos lhe pedem que faça o poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o "poema de morte". Na mesma noite tem um sonho e, ao acordar, escreveu seu último poema, exposto acima.


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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NEM OS CORONÉIS SÃO OS BARÕES DA RALÉ

 

O cartoon de Dalcio Machado é o vencedor do Salon International de la Caricature et du Cartoon em 2024.


* Honório de Medeiros


Li, e fiquei impressionado, com Clãs Políticos no Congresso Nacional, da pesquisadora Lauren Schoenster, "Transparência Brasil".

Procurem no Google. Leiam. Vão redescobrir o óbvio. Ou serem surpreendidos.

Mudaram pouco os coronéis. Principalmente nos rincões. Não mudou o coronelismo. É a mesma estrutura de Poder de antes. Poucos mandam, muitos obedecem. Será que Jorge Luiz Borges sempre esteve certo? A democracia é mesmo uma ficção estatística?

Quando a massa consegue alguma coisa, fruto de um espasmo circunstancial tipo uma manobra politiqueira de um segmento integrante dos poucos que mandam, o Sistema se abala, mas volta logo ao normal e tudo continua como dantes.

Certo, também, Giuseppi di Lampeduza e sua célebre frase em O Leopardo, "algo deve mudar para que tudo fique como está".

Entretanto, os poucos que mandam, mandam mesmo? É certo que, mandando ou não, vivem bem, às custas do "Zé Povinho".

Nos tempos de hoje, o malandro não é mais o Barão da Ralé, como disse Chico Buarque, em samba antológico, a não ser que seja um malandreco.

Os coronéis criam e manipulam os malandros e os malandros, para os coronéis, são ralé do mesmo jeito, nada de Barões.

Eles, também, terminam sendo usados pelo dinheiro que pasmem para esse antropomorfismo, tem vida própria, cria, dita, interpreta e  impõe as regras do jogo.

Cada ser humano que o segura em suas mãos inocentes ou criminosas nada mais faz que ser uma marionete nesse jogo imenso, colossal, incomensurável, no qual cada um de nós dá mais de si, seja de que forma seja, do que o necessário para aumentar a vida do dinheiro e alimentar cada um dos membros da Ralé que compõem a teia, a malha, o sistema, que sem ter um ponto de partida nem de chegada, é algo em si mesmo e enreda tudo e todos...

O filósofo francês Jean Baudrillard, em quem os criadores de "Matrix" se inspiraram, disse, em Simulacros e Simulações, que o que a humanidade vive não é a realidade. Sustenta ele que a Sociedade, hoje, substituiu a realidade por signos e símbolos. Pode ser que esteja certo e tudo isso não passe de um imenso simulacro a esgotar cada um de nós, grão de areia perdido no cerne de um incomensurável deserto.

Eu, pelo meu lado, penso que a criatura engoliu o criador.

Nada mais.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

AS IDEIAS SÃO ARMAS; AS IDEIAS SÃO AS ARMAS

 


Trasímaco da Calcedônia


* Honório de Medeiros


No começo, Jean Jacques Rousseau disse que nascemos iguais.

Esqueceram a lição de Trasímaco da Calcedônia.

Muitos acreditaram.

Voltaire, não.

Depois, veio Karl Marx e escreveu que a superestrutura ideológica, em última instância, emana da infraestrutura econômica.

Como se o fato antecedesse a ideia de sua própria existência.

Falácia antropomórfica.

Muitos acreditaram.

Karl Popper, Friedrich Hayek, Raymond Aron, Ludwig Von Mises, Hanna Arendt, André Glucksmann, Bernard Henri-Lévy, Roger Scruton, Cornelius Castoriadis, os anarquistas, não.

Deu no que deu.

As ideias são armas. As ideias são AS armas.

Os lobos sabem disso; os carneiros, não.

Quem melhor escreveu acerca disso foi Charles Darwin.

Ponto final.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

UM POSTULADO FUNDAMENTAL PARA O ENSINO

 


Sir Karl Raymund Popper
Fonte: New Scientist


* Honório de Medeiros



APRENDEMOS quando nos defrontamos com um problema, qualquer que seja ele (Sir Karl Raymund Popper).



Que o ensino, no Brasil, é completamente ultrapassado, basta cada um de nós recordar seus tempos de estudante e a ênfase dada, em cada Escola ou Faculdade, ao primado da INFORMAÇÃO sobre o CONHECIMENTO.

Em texto publicado anteriormente dissemos qual a distinção entre INFORMAR-SE OU SER INFORMADO e CONHECER (http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2012/09/aprender-aprender.html).

Pois bem, o ensino tal qual é praticado hoje, no Brasil, com esse viés de INFORMAR, é anterior à presença, no País, dos jesuítas. Melhor, é anterior à Alta Idade Média, onde o ensino ocorria por intermédio do estímulo ao debate, à discussão, como nos mostra Jacques Le Goff em Os Intelectuais na Idade Média:

Com base no comentário de texto, a LECTIO, análise em profundidade que parte da análise gramatical, a qual produz a letra (LITTERA), ergue-se a explicação lógica que fornece o sentido (SENSUS) e termina pela exegese que revela o contéudo da ciência e do pensamento (SENTENTIA).

Mas o comentário provoca a discussão. A dialética permite ultrapassar a compreensão do texto para ir aos problemas que levanta, faz com que o texto se apague diante da busca da verdade. Um extensa problemática substitui a exegese. De acordo com procedimentos próprios, a LECTIO se desenvolve em QUAESTIO. O intelectual universitátio nasce a partir do momento em que põe em questão o texto, que não é mais do que uma base, e enmtão de passivo se torna ativo. O mestre deixa de ser um exegeta, torna-se um pensador. Dá suas soluções, cria. Sua conclusão da QUAESTIO, a DETERMINATIO, é a obra de seu pensamento.

A partir de 1599, a Companhia de Jesus colocou em vigor o famoso Ratio Studiorum, uma espécie de coletânea privada, que surgiu com a necessidade de unificar o procedimento pedagógico dos jesuítas diante da explosão do número de colégios confiados aos jesuítas.

O modelo jesuítico, presente desde o início da colonização do Brasil pelos portugueses, apresentava os passos fundamentais de uma aula: preleção do conteúdo pelo professor, levantamento de dúvidas dos alunos e exercícios para fixação, cabendo ao aluno a memorização para a prova.

Como se pode depreender falta, ao ensino, no Brasil de hoje, comparando com a época dos portugueses, o estímulo ao levantamento de dúvidas, à crítica, por parte dos alunos. 

As aulas são preleções e nada mais...

Gaston Bachelard, comentando o cenário dos obstáculos epistemológicos à obtenção do conhecimento, em A Formação do Espírito Científico, lembra que:

No decurso de minha longa e variada carreira, nunca vi um educador mudar de método pedagógico. O educador não tem o SENSO DE FRACASSO justamente porque se acha um mestre. Quem ensina manda.

Como aprendemos quando nos defrontamos com um problema, qualquer que seja ele, as preleções, meras exposições, podem até nos INFORMAR, mas, com certeza, em nada contribuem, além de fomentar o tédio, para o nosso CONHECIMENTO.

Aliás, é bom que saibamos distinguir entre APRENDER e CONHECER.

Que nós conhecemos quando aprendemos, quanto a isso não há qualquer dúvida. Se aprendemos, conhecemos; se conhecemos, aprendemos. Entretanto, por uma questão pedagógica, costumamos distinguir o APRENDER do CONHECER no sentido de que, no primeiro caso, nos referimos, tecnicamente, a aquilo que resulta da busca deliberada de conhecer.

Aqui, o “deliberada” faz a diferença, na medida em que podemos CONHECER sem que tenhamos nos encaminhado para isso, bem como podemos CONHECER enquanto resultado desejado, buscado, e alcançado.

Não por outra razão, se eu digo “eu aprendo”, estou me referindo ao processo por intermédio do qual eu obtenho o conhecimento. Se eu digo “eu conheço”, significa que compreendo, entendo, apreendo aquilo acerca do qual me refiro.

Ou seja, o APRENDER decorre do processo de aprendizado, que é algo que se busca conscientemente. Nesse sentido, o CONHECER engloba o APRENDER, vez que o CONHECER tanto pode ocorrer desde que queiramos, quanto pode ocorrer mesmo que não o queiramos.

No sentido utilizado neste texto, todavia, não há distinção a ser feita. Aqui, APRENDER tem o sentido de CONHECER, e o conhecimento é alcançado, no sentido que se deve almejar nas escolas e universidades, na medida em que problematizamos a realidade, ou seja, enquanto alunos, criticamos sistematicamente, vigorosamente, a informação que nos é ofertada por intermédio das preleções dos professores.

Recordemos Popper, em Conjecturas e Refutações:

Cada problema surge da descoberta de que algo não está em ordem com nosso suposto conhecimento; ou examinado logicamente, da descoberta de uma contradição interna entre nosso suposto conhecimento e os fatos; ou, declarado talvez mais corretamente, da descoberta de uma contradição aparente entre nosso suposto conhecimento e os supostos fatos.

E Bachelard, na obra acima mencionada:

No fundo, o ato de conhecer dá-se CONTRA um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos (...)

Ainda:

Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas.

E, por fim:

Em resumo, o homem movido pelo espírito científico deseja saber, mas para, imediatamente, melhor questionar.

Portanto o estímulo a essa crítica sistemática e vigorosa, ao debate, à discussão, por parte dos alunos, às informações veiculadas pelos centros de saber deve ser um postulado fundamental do ensino que pretenda alcançar níveis superiores de excelência.

Na verdade, esse estímulo deveria se constituir numa verdadeira “PAIDÉIA”, um ideal de civilização, algo intrínseco à nossa Sociedade, principalmente hoje em dia, com a permanente ameaça à Liberdade por parte do Estado, dos seus aparelhos de controle, e daqueles que o usam em proveito próprio.

O limite ao Estado foi, é, e sempre será, a Sociedade livre e não-alienada.


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O JUSTO NÃO ESTÁ EM MIM



* Honório de Medeiros


O Nominalismo de Guilherme de Ockham questionou a possibilidade de as "Coisas" (a "Coisa-Em-Si”, o" Objeto”, o "Ser”, a "Realidade”) dizerem, ao Sujeito Cognoscente, aquilo que elas são: suas essências, em um sentido platônico.

Ou seja, nós é que, enquanto Demiurgos, ordenamos, organizamos, dizemos aquilo que nossos sentidos apreendem de forma caótica, a partir do nosso conhecimento pré-adquirido (Immanuel Kant, Gaston Bachelard, Sir Karl Raymund Popper, etc.).

Podemos rastrear tal concepção nominalista, de certa forma, até o relativismo sofista de Protágoras de Abdera, a Antístenes versus Platão, mesmo até Parmênides de Eleia, quiçá Heráclito de Éfeso.

O Nominalismo também impede a fenomenologia de Henri Bergson e Edmund Husserl, bem como a pretensão de uma ciência cujo objetivo seja “compreender”: não é o termo “salinas” (lugar onde se cultiva sal) que me diz algo; eu é que digo algo acerca dele, a partir do conhecimento entranhado que já possuo.

Não é por outra razão a beleza filosófica desse trecho do Ato II, Cena II, de "Romeu e Julieta", do genial William Shakespeare:

JULIETA - Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há em um simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservava a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título.
Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.

Quanta beleza!

Não há, pois, essência ("coisa-em-si") a ser apreendida e aprisionada em um nome, Platão estava errado, os sofistas estavam certos.

Thomas Nagel, em Visão a Partir de Lugar Nenhum; São Paulo: Martins Fontes; 2004 (Nota) percebeu: “Chomsky e Popper rechaçaram as intransigentes teorias empiristas do conhecimento”.

Nominamos relações, processos, evanescências: não há coisas previamente  nominadas dizendo-nos a essência de algo.

O Justo não está fora de mim, está em mim. É uma construção, um poema, uma equação, uma fábula, um discurso, um murmúrio...


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A BANALIZAÇÃO DA CULTURA

 


Vargas Llosa


* Honório de Medeiros


Em 23 de novembro de 2015, causou celeuma uma "performance" denominada "Macaquinhos", apresentada em uma unidade do Sesc em Juazeiro do Norte, no Ceará, na qual os atores exploravam os ânus uns dos outros.

 Foi notícia nacional.

"A performance mostrava um grupo composto por homens e mulheres totalmente nus, em círculo, explorando com as mãos o ânus do companheiro a frente. De acordo com os artistas Caio, Mavi Veloso e Yang Dallas, idealizadores do projeto, a apresentação tem o intuito de 'ensinar que existe ânus, ensinar a ir para o ânus e ensinar a partir do ânus e com o ânus'".

Em agosto de 2017, o Santander Cultural abriu suas portas para a primeira exposição “queer” realizada no Brasil. De origem inglesa, o termo é utilizado para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou de gênero definido - notadamente gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Choveram denúncias nas redes sociais de pedofilia e zoofilia, principalmente para duas obras em especial: “Cenas do Interior II” (1994), de Adriana Varejão, com uma cena na qual um homem penetra uma cabra, e “Travesti da Lambada e Deusa das Águas” (2013), de Bia Leite, que faz referência ao meme da internet “criança viada”. 

Também há menção a um vídeo que mostrava um homem recebendo um jato de sêmen no rosto. A obra é intitulada “Come/Cry” e é assinada pelo “artista” Maurício Ianes. 

O nome do artista consta na lista entregue ao Ministério da Cultura como um dos autores das obras expostas no "Queermuseu". 

Mais recentemente, em uma performance na abertura do 35º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, o artista fluminense Wagner Schwartz se apresentou nu, no centro de um tablado. Em vídeo que circula nas redes sociais, sob fortes críticas, uma menina que aparenta ter cerca de quatro anos aparece interagindo com o homem, que estava deitado de barriga para cima, com a genitália à mostra.

 Serão, esses, sintomas da decadência da cultura? O decadente, na arte, o banal, o medíocre, o aviltante, exerce sua tirania destruidora tanto quanto a proibição da liberdade de expressão estética? 

Agora, recordo Bárbara Tuchman, em A Prática da História

"O maior recurso, e a realização mais duradoura da humanidade, é a arte. O domínio da linguagem demonstrado por Shakespeare e seu conhecimento da alma humana; a complicada ordem de Bach, o encantamento de Mozart". 

Entretanto não é somente a possibilidade da presença permanente do fenômeno da decadência, a ser questionado. É sua banalização. A banalização da decadência. 

O livro de Llosa, Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo, cujo título foi calcado no A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século, deixa confortável quem procura um texto, de melhor qualidade, que dê respaldo a essa sensação permanente de estranhamento e solidão, vivenciada por muitos, originada pelo descompasso entre a “cultura” na qual fomos criados e a realidade que encontramos nos dias de hoje. 

Não é, portanto, “saudosismo”, o que sentimos. 

Há, de fato, um progressivo e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendidos como pressupostos da construção do processo civilizatório. 

Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa, em Notas para uma Definição de Cultura, de 1948, tão atual, posto que, por exemplo, lá para as tantas, expõe: “E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura”.

É bem verdade que em ensaios tais como A Civilização do Espetáculo, e Breve Discurso sobre a Cultura, Vargas Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse fenômeno, muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais e animada pelo espírito de lucro, motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força motriz que que conduz o processo de destruição da cultura tradicional.

Llosa não nos oferece uma teoria que explique tudo.

Para Llosa, por exemplo, civilização do espetáculo é "a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal".

Trata-se de uma constatação. 

Como não lembrar do personagem de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, em seu permanente solilóquio: "O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?" 

Entendo, embora possa estar enganado, que Zygmunt Bauman e sua obra acerca da “vida líquida”, “modernidade líquida”, também não o conseguiu. Sua preocupação era descrever um fato, ou melhor, um fenômeno social, o processo civilizatório por nós vivido hoje.

Bauman disse: "a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante", nas quais "as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades". 

Eu me pergunto, então, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa "vida precária" em "condições de incerteza constante" uma fase do processo evolucionário acerca do qual teorizou Charles Darwin? 

Somos hoje, ainda, devedores nesse aspecto, de tentar entender o padrão oculto que rege os fenômenos, de Freud, Marx e Darwin, por assim dizer.

Mas não é o caso de abordar esse tópico por aqui. Apenas registro o alívio em constatar que não estamos errados quando nos sentimos órfãos de uma cultura, uma “Paideia” que, desde os meados do século XX, vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás. 

Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea. 

É a banalização e aviltamento da cultura... 


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