quarta-feira, 4 de março de 2026

PSICOLOGIA EVOLUTIVA

 



* Honório de Medeiros
 



Apesar da chamada “teoria do design inteligente”, que diz ser insuficiente o darwinismo enquanto explicação para o surgimento e propagação da vida na terra, depois de abençoada por Sua Santidade o Papa, a verdade é que a Teoria da Evolução vai, aos poucos, se firmando como a única das macro-teorias oriundas do século XIX que sobrevive integralmente às críticas da comunidade científica.

As outras, como a psicanálise, nunca recebeu “status” científico; o marxismo ruiu com a Revolução Russa de 1917; a queda do Muro de Berlim, que permanece por terra; e a Teoria da Relatividade, de Einstein, por não ter conseguidou superar suas divergências fundamentais com a física quântica.

Um dos rebentos mais interessantes do darwinismo, chamemo-lo assim, é a Psicologia Evolutiva.

Como se pode depreender, trata-se de uma tentativa de explicação da psique humana utilizando-se as ferramentas próprias da Teoria da Evolução.

Nesse campo específico, nada tem suscitado tanto debate quanto às afirmações feitas pela Psicologia Evolutiva quanto a amor e sexo.

Por exemplo: a Psicologia Evolutiva explica que a traição, por parte do homem, é uma herança genética que o impele à tentativa de disseminar seus genes!

Isso seria algo ancestral – na aurora da história do homem, quando ele vagava pela terra caçando e coletando raízes e frutas, foram selecionados para sobreviver aqueles que tinham esse tipo de comportamento; quanto mais braços para a defesa e a procura de alimentos, melhor para a tribo.

A mulher, por outro lado, como era obrigada a conduzir, durante nove meses, sua gravidez, ficava estética e organicamente inviável para o jogo sexual, o que abria o espaço para a fecundação de outras.

Essa propensão, diz a teoria da evolução, não é um fatalismo, até mesmo porque o ser humano, que reina inconteste em pleno século XXI, para o bem ou para o mal, foi capaz de construir um aparato intelectual que lhe permitiu fazer opções de caráter ético fundamentais para assegurar sua sobrevivência.

Nesse sentido a Moral seria uma estratégia humana, uma espécie de instrumento adaptativo que lhe permite continuar sua saga sobre a face da Terra. 

Ou seja, embora haja essa tendência individualmente falando, enquanto espécie o homem aposta na fidelidade.

Não é assim que acontece se prestarmos bem atenção ao que se passa ao nosso redor?

Dessa forma a Psicologia Evolutiva explica muitas condutas masculinas e femininas. 

Uma delas, bastante curiosa, por sinal, é a chamada “Síndrome da Rejeição”. Por que a mulher, por exemplo, parece se interessar mais pelos homens que a rejeitam?

A resposta seria que a mulher, programada geneticamente para lidar com o procura masculina, ao sentir-se desprezada, sente ameaçada sua capacidade de interessar sexualmente e, assim, procriar.

Isso por que nosso objetivo básico, segundo a Teoria da Evolução, é propagar nossos genes.

Esta teoria não explica nosso amor desmesurado por nossos filhos?

Se forem polêmicas as afirmações feitas pela psicologia evolutiva no que diz respeito ao relacionamento amoroso, imaginem o que não se discute quanto à política, mais especificamente ao Poder.

Esta, entretanto, já é outra história.


* Honório de Medeiros
* @honoriodemedeiros

segunda-feira, 2 de março de 2026

ESBOÇO DE UM DISCURSO ACERCA DA CRÍTICA RACIONAL DA ARTE

 


Arte: Gerard Mansoif


* Honório de Medeiros


A arte também é um discurso acerca do Real.

O conteúdo de sua manifestação, através da forma, discursa em linguagem peculiar, fragmentariamente, acerca da totalidade da "coisa-em-si" (a poesia fragmentária de T. S. Elliot é densa, filosoficamente).

Importa observar que a densidade da manifestação artística está diretamente proporcional ao conteúdo, e a dialética mecanicista do observador na fenomenologia do objeto-arte, esvai-se na constatação dedutiva da forma como consequência, jamais como causa.

Ou seja, o conteúdo antes, como idéia-impulso, a forma depois.

Constitui obstáculo epistemológico entregar, à produção artística, o aspecto de algo produzido, enquanto inconsciente, aos devaneios apriorísticos do artista.

Isso é a chamada escatologia das entranhas da psique. 

Ao contrário, a razão elabora aquilo que a emoção estética sugere tecendo, a partir do fragmento exposto, a cosmovisão racional do artista, quer ele queira, quer não.

O artista, então, apropria-se do real, e discursa acerca dessa apropriação. Apropriar-se é semelhante a apreender.

Quando ocorre, significa que lhe pos o limite do seu próprio limite e constituiu um estatuto artístico enquanto ser-que-observa, critica (consciente ou inconscientemente) e fala (sentido "lato") quanto ao objeto observado ou intuído.

Assim a dialética da arte é a luta do ser-que-observa com o algo-a-ser-observado, veiculada através de uma linguagem peculiar.

A arte, óbvio, diz algo acerca de algo, mesmo que esse algo seja palco de muitas dúvidas quanto ao ponto de partida para sua elaboração.

Afinal, o objeto envolve com sua beleza intrínseca ou é envolvido com a arte? Ou interagem?

A essência da discussão submerge na metafísica, embora a construção artística adense-se na medida de uma crítica racional, em busca da verdade.

Essa busca é infinita (não há verdade absoluta em arte, como não há em campo algum do conhecimento humano, porque a descoberta parcial altera as condições do futuro a ser descoberto).

É necessário uma metafísica dos pressupostos de uma crítica racional da arte.

O ponto-de-partida seria a densidade da intuição racionalizada (posta em discussão; sobrevivente à interação com o meio intelectual), exposta e observada tendo-se em conta o conteúdo da forma.

Criar-se-ia, então, uma tipologia e uma fenomenotécnica ímpar, que observará poemas como este, à luz de uma perspeciva clara e simples, constratando com decursos vazios e sem nexo

finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado

Em 1694, Basho (Trilha Estreita ao Confim; São Paulo: Iluminuras; 1997) deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos lhe pedem que faça o poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o "poema de morte". Na mesma noite tem um sonho e, ao acordar, escreveu seu último poema, exposto acima.


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NEM OS CORONÉIS SÃO OS BARÕES DA RALÉ

 

O cartoon de Dalcio Machado é o vencedor do Salon International de la Caricature et du Cartoon em 2024.


* Honório de Medeiros


Li, e fiquei impressionado, com Clãs Políticos no Congresso Nacional, da pesquisadora Lauren Schoenster, "Transparência Brasil".

Procurem no Google. Leiam. Vão redescobrir o óbvio. Ou serem surpreendidos.

Mudaram pouco os coronéis. Principalmente nos rincões. Não mudou o coronelismo. É a mesma estrutura de Poder de antes. Poucos mandam, muitos obedecem. Será que Jorge Luiz Borges sempre esteve certo? A democracia é mesmo uma ficção estatística?

Quando a massa consegue alguma coisa, fruto de um espasmo circunstancial tipo uma manobra politiqueira de um segmento integrante dos poucos que mandam, o Sistema se abala, mas volta logo ao normal e tudo continua como dantes.

Certo, também, Giuseppi di Lampeduza e sua célebre frase em O Leopardo, "algo deve mudar para que tudo fique como está".

Entretanto, os poucos que mandam, mandam mesmo? É certo que, mandando ou não, vivem bem, às custas do "Zé Povinho".

Nos tempos de hoje, o malandro não é mais o Barão da Ralé, como disse Chico Buarque, em samba antológico, a não ser que seja um malandreco.

Os coronéis criam e manipulam os malandros e os malandros, para os coronéis, são ralé do mesmo jeito, nada de Barões.

Eles, também, terminam sendo usados pelo dinheiro que pasmem para esse antropomorfismo, tem vida própria, cria, dita, interpreta e  impõe as regras do jogo.

Cada ser humano que o segura em suas mãos inocentes ou criminosas nada mais faz que ser uma marionete nesse jogo imenso, colossal, incomensurável, no qual cada um de nós dá mais de si, seja de que forma seja, do que o necessário para aumentar a vida do dinheiro e alimentar cada um dos membros da Ralé que compõem a teia, a malha, o sistema, que sem ter um ponto de partida nem de chegada, é algo em si mesmo e enreda tudo e todos...

O filósofo francês Jean Baudrillard, em quem os criadores de "Matrix" se inspiraram, disse, em Simulacros e Simulações, que o que a humanidade vive não é a realidade. Sustenta ele que a Sociedade, hoje, substituiu a realidade por signos e símbolos. Pode ser que esteja certo e tudo isso não passe de um imenso simulacro a esgotar cada um de nós, grão de areia perdido no cerne de um incomensurável deserto.

Eu, pelo meu lado, penso que a criatura engoliu o criador.

Nada mais.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

AS IDEIAS SÃO ARMAS; AS IDEIAS SÃO AS ARMAS

 


Trasímaco da Calcedônia


* Honório de Medeiros


No começo, Jean Jacques Rousseau disse que nascemos iguais.

Esqueceram a lição de Trasímaco da Calcedônia.

Muitos acreditaram.

Voltaire, não.

Depois, veio Karl Marx e escreveu que a superestrutura ideológica, em última instância, emana da infraestrutura econômica.

Como se o fato antecedesse a ideia de sua própria existência.

Falácia antropomórfica.

Muitos acreditaram.

Karl Popper, Friedrich Hayek, Raymond Aron, Ludwig Von Mises, Hanna Arendt, André Glucksmann, Bernard Henri-Lévy, Roger Scruton, Cornelius Castoriadis, os anarquistas, não.

Deu no que deu.

As ideias são armas. As ideias são AS armas.

Os lobos sabem disso; os carneiros, não.

Quem melhor escreveu acerca disso foi Charles Darwin.

Ponto final.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

UM POSTULADO FUNDAMENTAL PARA O ENSINO

 


Sir Karl Raymund Popper
Fonte: New Scientist


* Honório de Medeiros



APRENDEMOS quando nos defrontamos com um problema, qualquer que seja ele (Sir Karl Raymund Popper).



Que o ensino, no Brasil, é completamente ultrapassado, basta cada um de nós recordar seus tempos de estudante e a ênfase dada, em cada Escola ou Faculdade, ao primado da INFORMAÇÃO sobre o CONHECIMENTO.

Em texto publicado anteriormente dissemos qual a distinção entre INFORMAR-SE OU SER INFORMADO e CONHECER (http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2012/09/aprender-aprender.html).

Pois bem, o ensino tal qual é praticado hoje, no Brasil, com esse viés de INFORMAR, é anterior à presença, no País, dos jesuítas. Melhor, é anterior à Alta Idade Média, onde o ensino ocorria por intermédio do estímulo ao debate, à discussão, como nos mostra Jacques Le Goff em Os Intelectuais na Idade Média:

Com base no comentário de texto, a LECTIO, análise em profundidade que parte da análise gramatical, a qual produz a letra (LITTERA), ergue-se a explicação lógica que fornece o sentido (SENSUS) e termina pela exegese que revela o contéudo da ciência e do pensamento (SENTENTIA).

Mas o comentário provoca a discussão. A dialética permite ultrapassar a compreensão do texto para ir aos problemas que levanta, faz com que o texto se apague diante da busca da verdade. Um extensa problemática substitui a exegese. De acordo com procedimentos próprios, a LECTIO se desenvolve em QUAESTIO. O intelectual universitátio nasce a partir do momento em que põe em questão o texto, que não é mais do que uma base, e enmtão de passivo se torna ativo. O mestre deixa de ser um exegeta, torna-se um pensador. Dá suas soluções, cria. Sua conclusão da QUAESTIO, a DETERMINATIO, é a obra de seu pensamento.

A partir de 1599, a Companhia de Jesus colocou em vigor o famoso Ratio Studiorum, uma espécie de coletânea privada, que surgiu com a necessidade de unificar o procedimento pedagógico dos jesuítas diante da explosão do número de colégios confiados aos jesuítas.

O modelo jesuítico, presente desde o início da colonização do Brasil pelos portugueses, apresentava os passos fundamentais de uma aula: preleção do conteúdo pelo professor, levantamento de dúvidas dos alunos e exercícios para fixação, cabendo ao aluno a memorização para a prova.

Como se pode depreender falta, ao ensino, no Brasil de hoje, comparando com a época dos portugueses, o estímulo ao levantamento de dúvidas, à crítica, por parte dos alunos. 

As aulas são preleções e nada mais...

Gaston Bachelard, comentando o cenário dos obstáculos epistemológicos à obtenção do conhecimento, em A Formação do Espírito Científico, lembra que:

No decurso de minha longa e variada carreira, nunca vi um educador mudar de método pedagógico. O educador não tem o SENSO DE FRACASSO justamente porque se acha um mestre. Quem ensina manda.

Como aprendemos quando nos defrontamos com um problema, qualquer que seja ele, as preleções, meras exposições, podem até nos INFORMAR, mas, com certeza, em nada contribuem, além de fomentar o tédio, para o nosso CONHECIMENTO.

Aliás, é bom que saibamos distinguir entre APRENDER e CONHECER.

Que nós conhecemos quando aprendemos, quanto a isso não há qualquer dúvida. Se aprendemos, conhecemos; se conhecemos, aprendemos. Entretanto, por uma questão pedagógica, costumamos distinguir o APRENDER do CONHECER no sentido de que, no primeiro caso, nos referimos, tecnicamente, a aquilo que resulta da busca deliberada de conhecer.

Aqui, o “deliberada” faz a diferença, na medida em que podemos CONHECER sem que tenhamos nos encaminhado para isso, bem como podemos CONHECER enquanto resultado desejado, buscado, e alcançado.

Não por outra razão, se eu digo “eu aprendo”, estou me referindo ao processo por intermédio do qual eu obtenho o conhecimento. Se eu digo “eu conheço”, significa que compreendo, entendo, apreendo aquilo acerca do qual me refiro.

Ou seja, o APRENDER decorre do processo de aprendizado, que é algo que se busca conscientemente. Nesse sentido, o CONHECER engloba o APRENDER, vez que o CONHECER tanto pode ocorrer desde que queiramos, quanto pode ocorrer mesmo que não o queiramos.

No sentido utilizado neste texto, todavia, não há distinção a ser feita. Aqui, APRENDER tem o sentido de CONHECER, e o conhecimento é alcançado, no sentido que se deve almejar nas escolas e universidades, na medida em que problematizamos a realidade, ou seja, enquanto alunos, criticamos sistematicamente, vigorosamente, a informação que nos é ofertada por intermédio das preleções dos professores.

Recordemos Popper, em Conjecturas e Refutações:

Cada problema surge da descoberta de que algo não está em ordem com nosso suposto conhecimento; ou examinado logicamente, da descoberta de uma contradição interna entre nosso suposto conhecimento e os fatos; ou, declarado talvez mais corretamente, da descoberta de uma contradição aparente entre nosso suposto conhecimento e os supostos fatos.

E Bachelard, na obra acima mencionada:

No fundo, o ato de conhecer dá-se CONTRA um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos (...)

Ainda:

Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas.

E, por fim:

Em resumo, o homem movido pelo espírito científico deseja saber, mas para, imediatamente, melhor questionar.

Portanto o estímulo a essa crítica sistemática e vigorosa, ao debate, à discussão, por parte dos alunos, às informações veiculadas pelos centros de saber deve ser um postulado fundamental do ensino que pretenda alcançar níveis superiores de excelência.

Na verdade, esse estímulo deveria se constituir numa verdadeira “PAIDÉIA”, um ideal de civilização, algo intrínseco à nossa Sociedade, principalmente hoje em dia, com a permanente ameaça à Liberdade por parte do Estado, dos seus aparelhos de controle, e daqueles que o usam em proveito próprio.

O limite ao Estado foi, é, e sempre será, a Sociedade livre e não-alienada.


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O JUSTO NÃO ESTÁ EM MIM



* Honório de Medeiros


O Nominalismo de Guilherme de Ockham questionou a possibilidade de as "Coisas" (a "Coisa-Em-Si”, o" Objeto”, o "Ser”, a "Realidade”) dizerem, ao Sujeito Cognoscente, aquilo que elas são: suas essências, em um sentido platônico.

Ou seja, nós é que, enquanto Demiurgos, ordenamos, organizamos, dizemos aquilo que nossos sentidos apreendem de forma caótica, a partir do nosso conhecimento pré-adquirido (Immanuel Kant, Gaston Bachelard, Sir Karl Raymund Popper, etc.).

Podemos rastrear tal concepção nominalista, de certa forma, até o relativismo sofista de Protágoras de Abdera, a Antístenes versus Platão, mesmo até Parmênides de Eleia, quiçá Heráclito de Éfeso.

O Nominalismo também impede a fenomenologia de Henri Bergson e Edmund Husserl, bem como a pretensão de uma ciência cujo objetivo seja “compreender”: não é o termo “salinas” (lugar onde se cultiva sal) que me diz algo; eu é que digo algo acerca dele, a partir do conhecimento entranhado que já possuo.

Não é por outra razão a beleza filosófica desse trecho do Ato II, Cena II, de "Romeu e Julieta", do genial William Shakespeare:

JULIETA - Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há em um simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservava a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título.
Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.

Quanta beleza!

Não há, pois, essência ("coisa-em-si") a ser apreendida e aprisionada em um nome, Platão estava errado, os sofistas estavam certos.

Thomas Nagel, em Visão a Partir de Lugar Nenhum; São Paulo: Martins Fontes; 2004 (Nota) percebeu: “Chomsky e Popper rechaçaram as intransigentes teorias empiristas do conhecimento”.

Nominamos relações, processos, evanescências: não há coisas previamente  nominadas dizendo-nos a essência de algo.

O Justo não está fora de mim, está em mim. É uma construção, um poema, uma equação, uma fábula, um discurso, um murmúrio...


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A BANALIZAÇÃO DA CULTURA

 


Vargas Llosa


* Honório de Medeiros


Em 23 de novembro de 2015, causou celeuma uma "performance" denominada "Macaquinhos", apresentada em uma unidade do Sesc em Juazeiro do Norte, no Ceará, na qual os atores exploravam os ânus uns dos outros.

 Foi notícia nacional.

"A performance mostrava um grupo composto por homens e mulheres totalmente nus, em círculo, explorando com as mãos o ânus do companheiro a frente. De acordo com os artistas Caio, Mavi Veloso e Yang Dallas, idealizadores do projeto, a apresentação tem o intuito de 'ensinar que existe ânus, ensinar a ir para o ânus e ensinar a partir do ânus e com o ânus'".

Em agosto de 2017, o Santander Cultural abriu suas portas para a primeira exposição “queer” realizada no Brasil. De origem inglesa, o termo é utilizado para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou de gênero definido - notadamente gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Choveram denúncias nas redes sociais de pedofilia e zoofilia, principalmente para duas obras em especial: “Cenas do Interior II” (1994), de Adriana Varejão, com uma cena na qual um homem penetra uma cabra, e “Travesti da Lambada e Deusa das Águas” (2013), de Bia Leite, que faz referência ao meme da internet “criança viada”. 

Também há menção a um vídeo que mostrava um homem recebendo um jato de sêmen no rosto. A obra é intitulada “Come/Cry” e é assinada pelo “artista” Maurício Ianes. 

O nome do artista consta na lista entregue ao Ministério da Cultura como um dos autores das obras expostas no "Queermuseu". 

Mais recentemente, em uma performance na abertura do 35º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, o artista fluminense Wagner Schwartz se apresentou nu, no centro de um tablado. Em vídeo que circula nas redes sociais, sob fortes críticas, uma menina que aparenta ter cerca de quatro anos aparece interagindo com o homem, que estava deitado de barriga para cima, com a genitália à mostra.

 Serão, esses, sintomas da decadência da cultura? O decadente, na arte, o banal, o medíocre, o aviltante, exerce sua tirania destruidora tanto quanto a proibição da liberdade de expressão estética? 

Agora, recordo Bárbara Tuchman, em A Prática da História

"O maior recurso, e a realização mais duradoura da humanidade, é a arte. O domínio da linguagem demonstrado por Shakespeare e seu conhecimento da alma humana; a complicada ordem de Bach, o encantamento de Mozart". 

Entretanto não é somente a possibilidade da presença permanente do fenômeno da decadência, a ser questionado. É sua banalização. A banalização da decadência. 

O livro de Llosa, Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo, cujo título foi calcado no A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século, deixa confortável quem procura um texto, de melhor qualidade, que dê respaldo a essa sensação permanente de estranhamento e solidão, vivenciada por muitos, originada pelo descompasso entre a “cultura” na qual fomos criados e a realidade que encontramos nos dias de hoje. 

Não é, portanto, “saudosismo”, o que sentimos. 

Há, de fato, um progressivo e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendidos como pressupostos da construção do processo civilizatório. 

Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa, em Notas para uma Definição de Cultura, de 1948, tão atual, posto que, por exemplo, lá para as tantas, expõe: “E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura”.

É bem verdade que em ensaios tais como A Civilização do Espetáculo, e Breve Discurso sobre a Cultura, Vargas Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse fenômeno, muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais e animada pelo espírito de lucro, motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força motriz que que conduz o processo de destruição da cultura tradicional.

Llosa não nos oferece uma teoria que explique tudo.

Para Llosa, por exemplo, civilização do espetáculo é "a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal".

Trata-se de uma constatação. 

Como não lembrar do personagem de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, em seu permanente solilóquio: "O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?" 

Entendo, embora possa estar enganado, que Zygmunt Bauman e sua obra acerca da “vida líquida”, “modernidade líquida”, também não o conseguiu. Sua preocupação era descrever um fato, ou melhor, um fenômeno social, o processo civilizatório por nós vivido hoje.

Bauman disse: "a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante", nas quais "as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades". 

Eu me pergunto, então, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa "vida precária" em "condições de incerteza constante" uma fase do processo evolucionário acerca do qual teorizou Charles Darwin? 

Somos hoje, ainda, devedores nesse aspecto, de tentar entender o padrão oculto que rege os fenômenos, de Freud, Marx e Darwin, por assim dizer.

Mas não é o caso de abordar esse tópico por aqui. Apenas registro o alívio em constatar que não estamos errados quando nos sentimos órfãos de uma cultura, uma “Paideia” que, desde os meados do século XX, vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás. 

Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea. 

É a banalização e aviltamento da cultura... 


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMO ENTENDER GETÚLIO VARGAS?

 



* Honório de Medeiros 
 
Como entender o camaleônico Getúlio Vargas?

No volume 1 do excepcional “GETÚLIO” (1882-1930), de Lira Neto, parece estar a resposta.

Borges de Medeiros, que andara às rusgas com os Vargas, voltara a cortejá-los.

São os idos de 1913-1915. Faz, então, o convite a Getúlio para ocupar o importantíssimo, na época, cargo que ele mesmo ocupara, de Chefe da Polícia Estadual.

Getúlio analisou e recusou o convite.

“Mesmo rejeitando o convite”, conta-nos Lira Neto, (Getúlio) “tomou os cuidados necessários para que seu gesto não fosse interpretado por Borges de Medeiros como um acinte”.

Instado, pelos amigos, a se explicar, Getúlio Vargas o fez:

“Na luta, vencer é adaptar-se, isto é, condicionando-se ao meio, apreender as forças dominantes, para dominá-lo”, esclareceu ao amigo Telmo Monteiro.

“Para Getúlio”, prossegue Lira Neto, “aquela frase, de clara inspiração darwinista, passara a funcionar como uma espécie de mantra. Faria questão de repassá-la aos filhos, como uma fórmula explicativa da vida e do mundo”.

“Vencer não é esmagar ou abater pela força todos os obstáculos que encontramos – vencer é adaptar-se", repetiria certo dia Getúlio Vargas ao filho mais velho, Lutero.

Como o garoto ficasse em dúvida a respeito do verdadeiro significado da sentença, o pai detalharia: "Adaptar-se não é o conformismo, o servilismo ou a humilhação; adaptar-se quer dizer tomar a coloração do ambiente para melhor lutar”.

Essa informação, essencial para entender Getúlio Vargas, o escritor Lira Neto colheu no “DIÁRIOS” (2 volumes; São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas; 1995), e soube compreender sua importância.

Quanto a essa importância, muito embora a informação, por si somente, a assegure, convém observar que dada sua relação com o pensamento de Lamarck, não propriamente com o de Darwin, pode ensejar rios de tinta enquanto dissertações de mestrado e/ou teses de doutoramento.

Principalmente se a cotejarmos com as consequências teórico-políticas da existência de uma Lei da Evolução, qual seja o pensamento de Maquiavel ou de Gaetano Mosca, ou se a cotejarmos com a vida de notórios manipuladores, tais quais Talleyrand ou Fouché, sobreviventes históricos de sua própria época política.

O certo é que Lira Neto, de forma brilhante, apreendeu a medula do aparentemente proteiforme Getúlio Vargas e a expôs no primeiro volume de sua biografia, uma obra seminal.

Nesse pequeno trecho lemos, oculto por uma vida intensa, complexa, onipresente ainda hoje, como pensava e agia o mais importante político brasileiro do século XX.


ARTE: chargistaclaudio.zip.net
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A CRÍTICA É O PRESSUPOSTO DO CONHECIMENTO CONSCIENTE

 


A árvore do Conhecimento


* Honório de Medeiros


Um dos maiores, senão o maior mal do qual padece a Educação, é a crença – o termo correto é esse – no aprendizado por informação.

Pressupõe essa crença que nosso cérebro é um recipiente vazio a ser preenchido com informações.

Karl Popper denominou essa crença de “Teoria do Balde Vazio”, e ela depende, fundamentalmente, da suposição de que conhecemos por que observamos, o que nos conduz a um empirismo ingênuo, no qual a observação do que somos e do que nos cerca é possível graças ao raciocínio indutivo.

Este não é o espaço apropriado para analises acerca dessas teorias. Convém lembrar, de forma parafraseada, entretanto, um “blague” que Popper, em tom irônico, apresentou em uma de suas obras dedicadas à Teoria do Conhecimento: "se solicitarmos a algumas pessoas que durante certo tempo cronometrado, apenas observem, e, em seguida, nos digam o que aprenderam com essa observação, provavelmente todas elas indagarão: 'em relação ao quê?'”.

Pois parece óbvio que somente é possível conhecer algo, a partir de um conhecimento pré-existente, o que situa a observação no seu devido lugar, qual seja o de comprovar, ou negar, nossas hipóteses teóricas.

Não por outra razão a informação não precedida de um conhecimento criticado, que nos permita compreender aquilo acerca do qual que estamos sendo informados, resulta em nada.

Também, não por outra razão, lê-se sem que se compreenda, participa-se dos fatos manipulados, fala-se e escreve-se o que não tem sentido, concretizando a imagem fiel da alienação intelectual que descreve tão bem o mundo em que vivemos.

Para que se estabeleça o processo de aquisição do conhecimento, é preciso que algo deflagre, em nós, a angústia criativa de sobreviver a uma realidade que não mais é apreendida como o era até aquele preciso momento.

Ocorre em situações críticas, deliberadamente, como ocorre independentes de nossa vontade. O senso comum diz isso de forma brilhante: “a necessidade é a mãe da invenção”.

Podemos, claro, gerar esse processo de conhecimento.

Se formos estimulados a criticar (no sentido de buscar falhas, contradições, desarmonias) na informação que nos é fornecida, com certeza avançaremos. A crítica, portanto, é o pressuposto do conhecimento consciente.

É como Gaston Bachelard, o poeta/filósofo, afirmou: “O conhecimento é sempre a reforma de uma ilusão”.

Não há de ser por outro motivo que o pensador dinamarquês Soren Kiekergaard nos impelia a “duvidar de tudo”.

Muito mais recentemente, Karl Popper propôs que o conhecimento novo – não apenas a filosofia – começasse sempre por problemas. Tais problemas surgiriam do contraste entre o conhecimento antigo, a expectativa de que regularidades, padrões, se mantivessem, inclusive em relação a nós mesmos, e sua fragmentação.

Ao nos depararmos com algo que esse conhecimento antigo não explica, há uma fragmentação nas nossas expectativas e surge, então, um problema a ser solucionado.

Observemos que tal teoria pressupõe a existência de um conhecimento inato pré-adquirido (genético), referendada pela Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin.

A técnica mais banal para o exercício da crítica é o uso do contra-argumento (contraexemplo). Uma vez tendo recebido alguma informação, devemos submete-la à crítica argumentando contra, na medida de nossas possibilidades. 

Ou seja, devemos "dialetizar" (no sentido de Bachelard e sua "Filosofia do Não") a informação recebida. Se a informação sobreviver à crítica, avançamos.

Nada teremos a perder, muito teremos a ganhar em utilizando a crítica. Outra técnica simples é indagar, dialogar com a informação. Para tanto cabe usar o que nos ensina a técnica jornalística, indagando a nós mesmos e respondendo: Quem? Quando? Como? Onde? O quê? Por quê?

Uma vez que o espírito da crítica pedagógica, a vigilância epistemológica que pode conduzir à ruptura epistemológica, à “reforma das ilusões”, se estabeleça como “Paidéia”, padrão cultural, ideal civilizatório, o avanço será inexorável.

Para que se tenha ideia de como não evoluímos ao longo desses anos, em discurso na solenidade de formatura de todas as turmas concluintes do ano de 1982, representando os alunos, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de dizer:

“Como entender, por exemplo, que no âmbito da Universidade, onde o sonho e a crítica deveriam caminhar de mãos dadas, permeando a efígie do futuro de esperança e conhecimento, nada mais se encontre do que o imediatismo, o pragmatismo solerte e a mera repetição anacrônica de informações? Como aceitar a inacreditável relação professor-aluno, completamente abstraída da consciência do saber, que conjuntamente com a preocupação de suscitar dialéticas, referendar críticas e debates livres, numa ontologia da ideia ensinada e na aplicação do racionalismo docente, constitui a preocupação básica de Gaston Bachelard, exposta em sua obra “Racionalismo Aplicado”, onde nos lembra: “De fato, numa educação de racionalismo aplicado, de racionalismo em ação de cultura, o mestre apresenta-se como negador de aparências, como freio a convicções rápidas. Ele deve tornar mediato o que a percepção proporciona imediatamente. De modo geral, ele deve entrosar o aluno na luta das ideias e dos fatos, fazendo-o observar bem a inadequação primitiva de ideia com o fato”.

Se na observação do problema limitamo-nos ao componente psicológico da relação professor-aluno, necessário se faz observar os próprios problemas estruturais em torno dos quais gravitam os específicos. Precisamos ir ao encontro do espírito mais geral que preside os fatos e as idéias no âmbito da Universidade. Fundamental é retornar à consciência crítica e política no sentido socrático-aristotélico, que é seu pressuposto maior. Fundamental é acreditar que quimera e contestação, a discussão, a livre manifestação de idéias - alicerce do conhecimento - caminham ou caminharão nos corredores da Universidade.”

Portanto precisamos ensinar a criticar, para que seja possível conhecer, afastando, de vez, essa perspectiva ideologicamente equivocada e intelectualmente ultrapassada de informar para formar.


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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A RETÓRICA DOS OBJETOS

 


Imagem: Honório de Medeiros

Leonor da Aquitânia, uma das rainhas mais poderosas da Idade Média, foi mãe dos reis Ricardo Coração de Leão e João Sem-Terra (Inglaterra), além de ter exercido influência em toda a Europa. Faleceu em 1204 e está sepultada na Abadia de Fontevraud, na França, junto com seu marido Henrique II e seu filho Ricardo.


* Honório de Medeiros


“Ser é perceber” (George Berkeley, 1685-1753).


Os objetos "dizem".

Existe uma diferença entre “ver” e “enxergar”, sabemos disso[1]. Quando “vemos”, percebemos.

Os objetos, se percebidos, dizem-nos muito.

Imagine que você seja um advogado que foi introduzido na biblioteca de um potencial cliente, para discutir com ele acerca de um futuro contrato de honorários.

Você não se preparou para o encontro, seja porque não teve tempo, seja porque confiou em sua capacidade de persuasão.

Ao aguardar a chegada do seu possível futuro cliente em sua (dele) biblioteca, admira-se com a organização reinante: livros limpos, organizados por tema e, nos nichos, os autores postados em ordem alfabética.

A biblioteca condiz com o ambiente no qual ela repousa. Os outros objetos do espaço circundante também primam pela limpeza e organização: não há nada fora do lugar.

Tais objetos dizem que seu dono é alguém, portanto, organizado, até mesmo meticuloso.

Qual a probabilidade de você convencê-lo nesse encontro para o qual não está devidamente preparado com dados, documentos, legislação, jurisprudência e, até mesmo, doutrina?

Quase nenhuma.

Existe uma Retórica dos objetos, chamemo-la assim, na falta de uma denominação melhor.

O que se quer demonstrar é que “os objetos dizem, expressam algo”. E é fundamental conhecer essa Retórica, para quem se interessa em “decifrar” o meio com o qual interagimos.

Ramo desta área do conhecimento é a publicidade. Usa a técnica da Retórica dos Objetos para induzir associações de idéias que promovam o consumo.

Na Retórica dos Objetos é fundamental a noção de “estranhamento”. É por intermédio do “estranhamento” que decodificamos os objetos.

E o que seria o “estranhamento”? Trata-se de algo difícil de conceituar, tal como a liberdade. Sabemos o que é, mas não sabemos dizer com propriedade o que ela seja.

Em certo sentido, “estranhamento” é uma desarmonia em relação ao padrão comum. Tal qual em uma arte marcial, tornar-se hábil em captar essa desarmonia demanda contínuo exercitar-se até o limite do possível.

Recordemos o exemplo acima.

Para alguém acostumado a perceber, a organização limpa e meticulosa da biblioteca do cliente chama a atenção por fugir do padrão comum. Ao conectar essa constatação com a que resulta do “ver” os restantes dos objetos espalhados pelo ambiente, torna-se possível fazer alguma inferência, ou elaborar alguma hipótese, para sermos mais precisos, acerca da personalidade do seu proprietário.

Em episódio bastante interessante da série “The Mentalist”, agentes do FBI buscam, em uma sala, uma câmera de vídeo escondida.

As outras já foram encontradas e estavam postadas em lugares óbvios.

O personagem principal, Patrick Jane, ao ser introduzido na sala, observa que um determinado espelho estava colocado em uma altura um pouco acima do normal.

Levanta-se o espelho e lá está a câmera procurada.

Entretanto, como essa câmera filmava através do espelho? Patrick sabia que os ilusionistas usam muito um tipo de espelho que permite a quem está por trás visualizar através dele.

A noção "trabalhada" de “estranhamento” permitiu a localização imediata da câmera procurada.

Em outro episódio, bastante conhecido na literatura policial, Sherlock Holmes chama a atenção de Dr. Watson para o cão da propriedade onde acontece a investigação.

Dr. Watson retruca informando que o cão não latiu. Sherlock pondera, então: “por isso mesmo”.

Ou seja, Sherlock vivenciou, ali, uma sensação de estranhamento.

Um exemplo, pinçado da literatura, explica melhor a teoria acima:

"Enquanto se movimentavam pela pista, ele estudou o marido com olhos profissionais, de caçador tranquilo. Estava acostumado a fazê-lo: esposos, pais, irmãos, filhos, amantes das mulheres com quem dançava. Homens, enfim, acostumados a acompanhá-las com orgulho, arrogância, tédio, resignação e outros sentimentos igualmente masculinos. Havia muitas informações úteis nos alfinetes de gravata, nas correntes de relógio, nas cigarreiras e nos anéis, no volume das carteiras entreabertas diante dos garçons, na qualidade e no corte do paletó, nas listras de uma calça ou no brilhos dos sapatos. Até mesmo na forma de dar o nó na gravata. Tudo dera material que permitia a Max Costa estabelecer métodos e objetivos ao compasso da música; ou, dizendo de modo mais prosaico, passar de danças de salão a alternativas mais lucrativas" (O TANGO DA VELHA GUARDA; Arturo Pérez-Reverte). 



[1] http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/11/ver-e-enxergar-acionam-regioes-diferentes-do-cerebro-diz-estudo.html


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - XI

 

Alguns dos integrantes do bando de Lampião que invadiram Mossoró em 13 de junho de 1927


* Honório de Medeiros


O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ, CONTINUAÇÃO.


Outros indícios se acumulam, ao longo do tempo, quanto à existência de um plano – cujo alvo seria o Coronel Rodolpho Fernandes – dentro do plano de invadir Mossoró em busca de dinheiro.

Abaixo, esses indícios serão elencados, como perguntas, um por um. 

Não há resposta para elas. Pelo menos até onde se sabe.

E, embora juntas permitam vislumbrar um todo coerente, dispersas, fragmentadas, fora do contexto que lhes dá razoabilidade, são folhas ao vento, muito remotamente apontando para as árvores de onde caíram.
Por que Massilon, especificamente ele, o executor em Brejo do Cruz e Apodi, servindo às mesmas pessoas, escolheu atacar os fundos da cresidência de Rodolpho Fernandes, enquanto Jararaca e Colchete distraiam os defensores pela frente?

Por que todo o ataque dos cangaceiris se concentrou contra a casa de Rodolpho quando, se de fato os cangaceiros queriam exclusivamente dinheiro, o alvo principal seria a agência do Banco do Brasil, onde até a véspera estavam guardados mais de novecentos contos de réis?

Por que não atacaram a residência do Gerente do Banco do Brasil em busca de resgate, como supostamente queriam fazer com o Prefeito?

Aliás, por que todas as trincheiras importantes visavam proteger a casa de Rodolpho? Tanto a da Estação Ferroviária, quanto a da Igreja de São Vicente eram ocupadas por fiéis amigos do Prefeito e guardavam diretamente sua residência.

Por que o Promotor e o Juiz não abriram processo alusivo à invasão de Mossoró por Lampião? O quê o processo – se aberto – traria à luz? O que se queria ocultar em não o abrindo?

Por que mataram Jararaca na calada da noite? Qual a relação existente entre sua morte e o seu recado mandado para o Coronel Rodolpho Fernandes pedindo para falar especificamente com ele?

Por que os executores de Jararaca não foram processados?

O episódio da morte de Jararaca é bastante revelador. Sérgio Dantas nos conta: (...) “no mesmo dia em que fora preso, Jararaca concedera bombástica entrevista ao jornalista Lauro da Escóssia, do noticiário “O Mossoroense”. Não mediu palavras".

Mais à frente, continua o escritor: “Jararaca pisou em terreno minado. Logo percebeu que tornara pública parte de uma teia intocável. Suas incisivas declarações puseram em dúvida a probidade moral de destacados chefes políticos de estados vizinhos. A repercussão das declarações, claro, fora inevitável. Decerto, o bandido temeu pela própria vida. Pressentira algum perigo. Chamou um militar, ainda cedo da tarde. Expressou-lhe o desejo de falar em particular com o Intendente Rodolpho Fernandes. O pedido, no entanto, lhe foi negado sem maiores explicações. A caserna tinha outros planos para o cangaceiro. À surdina, ensaiou conspiração. Tramaram abjeto extermínio e apostaram no sigilo. Sem mais demora executou-se o plano”.

Em tudo e por tudo está certo Sérgio Dantas. Somente errou quando afirmou que as declarações de Jararaca puseram em dúvida a probidade moral de chefes políticos de estados vizinhos. Não colocou em dúvida, Jararaca, apenas a probidade  moral de quem estava fora dos limites de Mossoró ou cidades vizinhas, como Apodi. 

Colocou sim, em dúvida, a probidade moral de alguns que estavam próximo, bem próximo.

Não seria possível as declarações de Jararaca terem chegado ao Ceará, por exemplo. Naquele tempo não havia sequer telefone. Havia, claro, telégrafo. Quem, no entanto, enviaria informações comprometedoras pelo telégrafo e, através dele, discutiria um plano para a eliminação do cangaceiro, principalmente quando o Chefe do Telégrafo de Mossoró era irmão do Chefe de Polícia do Governador do Estado? Como isso seria possível?

Também não seria possível enviar, a cavalo ou de automóvel, com tempo suficiente, informações alusivas à entrevista de Jararaca para os estados vizinhos. Não. O que Jararaca disse, e o que queria dizer a Rodolpho incomodou alguns que estavam por perto.
 
Finalizou o pesquisador Sérgio Dantas: “Jararaca sucumbira. Morreu porque sabia demasiado".

Mais a frente: “Findou o terrível salteador nas primeiras horas da manhã. Sua morte, entretanto, já havia sido decretada há dias. O laudo do exame cadavérico, por exemplo, fora assinado ainda na tarde do dia dezoito. E assim foi. Horas antes da execução e sob escuso pretexto de rotina, examinavam-se ferimentos de um corpo, sofridos durante uma batalha. Logo depois se chancelava, com base em conclusões médico-legais, documento de óbito de homem ainda vivo”.

Há, pois, muitas razões para supor que dentro do plano de invadir Mossoró em busca de suas riquezas, havia um outro plano, envolvendo o Coronel Rodolpho Fernandes.

Um plano que muitos intuem, vários asseveram, alguns duvidam, que permanece como um fantasma, assombrando quem se debruça por sobre o fato, espanando o pó do tempo e as sombras do esqhecimento.

Assim, esta série de artigos acerca do coronelismo no Rio Grande do Norte segue comprovando que, ao contrário do que se supõe, esse fenômeno existiu, nos mesmos moldes dos estados vizinhos, embora em menor escala...


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