segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A BANALIZAÇÃO DA CULTURA

 


Vargas Llosa


* Honório de Medeiros


Em 23 de novembro de 2015, causou celeuma uma "performance" denominada "Macaquinhos", apresentada em uma unidade do Sesc em Juazeiro do Norte, no Ceará, na qual os atores exploravam os ânus uns dos outros.

 Foi notícia nacional.

"A performance mostrava um grupo composto por homens e mulheres totalmente nus, em círculo, explorando com as mãos o ânus do companheiro a frente. De acordo com os artistas Caio, Mavi Veloso e Yang Dallas, idealizadores do projeto, a apresentação tem o intuito de 'ensinar que existe ânus, ensinar a ir para o ânus e ensinar a partir do ânus e com o ânus'".

Em agosto de 2017, o Santander Cultural abriu suas portas para a primeira exposição “queer” realizada no Brasil. De origem inglesa, o termo é utilizado para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou de gênero definido - notadamente gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Choveram denúncias nas redes sociais de pedofilia e zoofilia, principalmente para duas obras em especial: “Cenas do Interior II” (1994), de Adriana Varejão, com uma cena na qual um homem penetra uma cabra, e “Travesti da Lambada e Deusa das Águas” (2013), de Bia Leite, que faz referência ao meme da internet “criança viada”. 

Também há menção a um vídeo que mostrava um homem recebendo um jato de sêmen no rosto. A obra é intitulada “Come/Cry” e é assinada pelo “artista” Maurício Ianes. 

O nome do artista consta na lista entregue ao Ministério da Cultura como um dos autores das obras expostas no "Queermuseu". 

Mais recentemente, em uma performance na abertura do 35º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, o artista fluminense Wagner Schwartz se apresentou nu, no centro de um tablado. Em vídeo que circula nas redes sociais, sob fortes críticas, uma menina que aparenta ter cerca de quatro anos aparece interagindo com o homem, que estava deitado de barriga para cima, com a genitália à mostra.

 Serão, esses, sintomas da decadência da cultura? O decadente, na arte, o banal, o medíocre, o aviltante, exerce sua tirania destruidora tanto quanto a proibição da liberdade de expressão estética? 

Agora, recordo Bárbara Tuchman, em A Prática da História

"O maior recurso, e a realização mais duradoura da humanidade, é a arte. O domínio da linguagem demonstrado por Shakespeare e seu conhecimento da alma humana; a complicada ordem de Bach, o encantamento de Mozart". 

Entretanto não é somente a possibilidade da presença permanente do fenômeno da decadência, a ser questionado. É sua banalização. A banalização da decadência. 

O livro de Llosa, Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo, cujo título foi calcado no A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século, deixa confortável quem procura um texto, de melhor qualidade, que dê respaldo a essa sensação permanente de estranhamento e solidão, vivenciada por muitos, originada pelo descompasso entre a “cultura” na qual fomos criados e a realidade que encontramos nos dias de hoje. 

Não é, portanto, “saudosismo”, o que sentimos. 

Há, de fato, um progressivo e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendidos como pressupostos da construção do processo civilizatório. 

Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa, em Notas para uma Definição de Cultura, de 1948, tão atual, posto que, por exemplo, lá para as tantas, expõe: “E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura”.

É bem verdade que em ensaios tais como A Civilização do Espetáculo, e Breve Discurso sobre a Cultura, Vargas Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse fenômeno, muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais e animada pelo espírito de lucro, motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força motriz que que conduz o processo de destruição da cultura tradicional.

Llosa não nos oferece uma teoria que explique tudo.

Para Llosa, por exemplo, civilização do espetáculo é "a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal".

Trata-se de uma constatação. 

Como não lembrar do personagem de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, em seu permanente solilóquio: "O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?" 

Entendo, embora possa estar enganado, que Zygmunt Bauman e sua obra acerca da “vida líquida”, “modernidade líquida”, também não o conseguiu. Sua preocupação era descrever um fato, ou melhor, um fenômeno social, o processo civilizatório por nós vivido hoje.

Bauman disse: "a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante", nas quais "as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades". 

Eu me pergunto, então, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa "vida precária" em "condições de incerteza constante" uma fase do processo evolucionário acerca do qual teorizou Charles Darwin? 

Somos hoje, ainda, devedores nesse aspecto, de tentar entender o padrão oculto que rege os fenômenos, de Freud, Marx e Darwin, por assim dizer.

Mas não é o caso de abordar esse tópico por aqui. Apenas registro o alívio em constatar que não estamos errados quando nos sentimos órfãos de uma cultura, uma “Paideia” que, desde os meados do século XX, vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás. 

Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea. 

É a banalização e aviltamento da cultura... 


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMO ENTENDER GETÚLIO VARGAS?

 



* Honório de Medeiros 
 
Como entender o camaleônico Getúlio Vargas?

No volume 1 do excepcional “GETÚLIO” (1882-1930), de Lira Neto, parece estar a resposta.

Borges de Medeiros, que andara às rusgas com os Vargas, voltara a cortejá-los.

São os idos de 1913-1915. Faz, então, o convite a Getúlio para ocupar o importantíssimo, na época, cargo que ele mesmo ocupara, de Chefe da Polícia Estadual.

Getúlio analisou e recusou o convite.

“Mesmo rejeitando o convite”, conta-nos Lira Neto, (Getúlio) “tomou os cuidados necessários para que seu gesto não fosse interpretado por Borges de Medeiros como um acinte”.

Instado, pelos amigos, a se explicar, Getúlio Vargas o fez:

“Na luta, vencer é adaptar-se, isto é, condicionando-se ao meio, apreender as forças dominantes, para dominá-lo”, esclareceu ao amigo Telmo Monteiro.

“Para Getúlio”, prossegue Lira neto, “aquela frase, de clara inspiração darwinista, passara a funcionar como uma espécie de mantra. Faria questão de repassá-la aos filhos, como uma fórmula explicativa da vida e do mundo”.

“Vencer não é esmagar ou abater pela força todos os obstáculos que encontramos – vencer é adaptar-se", repetiria certo dia Getúlio Vargas ao filho mais velho, Lutero.

Como o garoto ficasse em dúvida a respeito do verdadeiro significado da sentença, o pai detalharia: "Adaptar-se não é o conformismo, o servilismo ou a humilhação; adaptar-se quer dizer tomar a coloração do ambiente para melhor lutar”.

Essa informação, essencial para entender Getúlio Vargas, o escritor Lira Neto colheu no “DIÁRIOS” (2 volumes; São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas; 1995), e soube compreender sua importância.

Quanto a essa importância, muito embora a informação, por si somente, a assegure, convém observar que dada sua relação com o pensamento de Lamarck, não propriamente com o de Darwin, pode ensejar rios de tinta enquanto dissertações de mestrado e/ou teses de doutoramento.

Principalmente se a cotejarmos com as consequências teórico-políticas da existência de uma Lei da Evolução, qual seja o pensamento de Maquiavel ou de Gaetano Mosca, ou se a cotejarmos com a vida de notórios manipuladores, tais quais Talleyrand ou Fouché, sobreviventes históricos de sua própria época política.

O certo é que Lira Neto, de forma brilhante, apreendeu a medula do aparentemente proteiforme Getúlio Vargas e a expôs no primeiro volume de sua biografia, uma obra seminal.

Nesse pequeno trecho lemos, oculto por uma vida intensa, complexa, onipresente ainda hoje, como pensava e agia o mais importante político brasileiro do século XX.



ARTE: chargistaclaudio.zip.net
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A CRÍTICA É O PRESSUPOSTO DO CONHECIMENTO CONSCIENTE

 


A árvore do Conhecimento


* Honório de Medeiros


Um dos maiores, senão o maior mal do qual padece a Educação, é a crença – o termo correto é esse – no aprendizado por informação.

Pressupõe essa crença que nosso cérebro é um recipiente vazio a ser preenchido com informações.

Karl Popper denominou essa crença de “Teoria do Balde Vazio”, e ela depende, fundamentalmente, da suposição de que conhecemos por que observamos, o que nos conduz a um empirismo ingênuo, no qual a observação do que somos e do que nos cerca é possível graças ao raciocínio indutivo.

Este não é o espaço apropriado para analises acerca dessas teorias. Convém lembrar, de forma parafraseada, entretanto, um “blague” que Popper, em tom irônico, apresentou em uma de suas obras dedicadas à Teoria do Conhecimento: "se solicitarmos a algumas pessoas que durante certo tempo cronometrado, apenas observem, e, em seguida, nos digam o que aprenderam com essa observação, provavelmente todas elas indagarão: 'em relação ao quê?'”.

Pois parece óbvio que somente é possível conhecer algo, a partir de um conhecimento pré-existente, o que situa a observação no seu devido lugar, qual seja o de comprovar, ou negar, nossas hipóteses teóricas.

Não por outra razão a informação não precedida de um conhecimento criticado, que nos permita compreender aquilo acerca do qual que estamos sendo informados, resulta em nada.

Também, não por outra razão, lê-se sem que se compreenda, participa-se dos fatos manipulados, fala-se e escreve-se o que não tem sentido, concretizando a imagem fiel da alienação intelectual que descreve tão bem o mundo em que vivemos.

Para que se estabeleça o processo de aquisição do conhecimento, é preciso que algo deflagre, em nós, a angústia criativa de sobreviver a uma realidade que não mais é apreendida como o era até aquele preciso momento.

Ocorre em situações críticas, deliberadamente, como ocorre independentes de nossa vontade. O senso comum diz isso de forma brilhante: “a necessidade é a mãe da invenção”.

Podemos, claro, gerar esse processo de conhecimento.

Se formos estimulados a criticar (no sentido de buscar falhas, contradições, desarmonias) na informação que nos é fornecida, com certeza avançaremos. A crítica, portanto, é o pressuposto do conhecimento consciente.

É como Gaston Bachelard, o poeta/filósofo, afirmou: “O conhecimento é sempre a reforma de uma ilusão”.

Não há de ser por outro motivo que o pensador dinamarquês Soren Kiekergaard nos impelia a “duvidar de tudo”.

Muito mais recentemente, Karl Popper propôs que o conhecimento novo – não apenas a filosofia – começasse sempre por problemas. Tais problemas surgiriam do contraste entre o conhecimento antigo, a expectativa de que regularidades, padrões, se mantivessem, inclusive em relação a nós mesmos, e sua fragmentação.

Ao nos depararmos com algo que esse conhecimento antigo não explica, há uma fragmentação nas nossas expectativas e surge, então, um problema a ser solucionado.

Observemos que tal teoria pressupõe a existência de um conhecimento inato pré-adquirido (genético), referendada pela Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin.

A técnica mais banal para o exercício da crítica é o uso do contra-argumento (contraexemplo). Uma vez tendo recebido alguma informação, devemos submete-la à crítica argumentando contra, na medida de nossas possibilidades. 

Ou seja, devemos "dialetizar" (no sentido de Bachelard e sua "Filosofia do Não") a informação recebida. Se a informação sobreviver à crítica, avançamos.

Nada teremos a perder, muito teremos a ganhar em utilizando a crítica. Outra técnica simples é indagar, dialogar com a informação. Para tanto cabe usar o que nos ensina a técnica jornalística, indagando a nós mesmos e respondendo: Quem? Quando? Como? Onde? O quê? Por quê?

Uma vez que o espírito da crítica pedagógica, a vigilância epistemológica que pode conduzir à ruptura epistemológica, à “reforma das ilusões”, se estabeleça como “Paidéia”, padrão cultural, ideal civilizatório, o avanço será inexorável.

Para que se tenha ideia de como não evoluímos ao longo desses anos, em discurso na solenidade de formatura de todas as turmas concluintes do ano de 1982, representando os alunos, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de dizer:

“Como entender, por exemplo, que no âmbito da Universidade, onde o sonho e a crítica deveriam caminhar de mãos dadas, permeando a efígie do futuro de esperança e conhecimento, nada mais se encontre do que o imediatismo, o pragmatismo solerte e a mera repetição anacrônica de informações? Como aceitar a inacreditável relação professor-aluno, completamente abstraída da consciência do saber, que conjuntamente com a preocupação de suscitar dialéticas, referendar críticas e debates livres, numa ontologia da ideia ensinada e na aplicação do racionalismo docente, constitui a preocupação básica de Gaston Bachelard, exposta em sua obra “Racionalismo Aplicado”, onde nos lembra: “De fato, numa educação de racionalismo aplicado, de racionalismo em ação de cultura, o mestre apresenta-se como negador de aparências, como freio a convicções rápidas. Ele deve tornar mediato o que a percepção proporciona imediatamente. De modo geral, ele deve entrosar o aluno na luta das ideias e dos fatos, fazendo-o observar bem a inadequação primitiva de ideia com o fato”.

Se na observação do problema limitamo-nos ao componente psicológico da relação professor-aluno, necessário se faz observar os próprios problemas estruturais em torno dos quais gravitam os específicos. Precisamos ir ao encontro do espírito mais geral que preside os fatos e as idéias no âmbito da Universidade. Fundamental é retornar à consciência crítica e política no sentido socrático-aristotélico, que é seu pressuposto maior. Fundamental é acreditar que quimera e contestação, a discussão, a livre manifestação de idéias - alicerce do conhecimento - caminham ou caminharão nos corredores da Universidade.”

Portanto precisamos ensinar a criticar, para que seja possível conhecer, afastando, de vez, essa perspectiva ideologicamente equivocada e intelectualmente ultrapassada de informar para formar.


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A RETÓRICA DOS OBJETOS

 


Imagem: Honório de Medeiros

Leonor da Aquitânia, uma das rainhas mais poderosas da Idade Média, foi mãe dos reis Ricardo Coração de Leão e João Sem-Terra (Inglaterra), além de ter exercido influência em toda a Europa. Faleceu em 1204 e está sepultada na Abadia de Fontevraud, na França, junto com seu marido Henrique II e seu filho Ricardo.


* Honório de Medeiros


“Ser é perceber” (George Berkeley, 1685-1753).


Os objetos "dizem".

Existe uma diferença entre “ver” e “enxergar”, sabemos disso[1]. Quando “vemos”, percebemos.

Os objetos, se percebidos, dizem-nos muito.

Imagine que você seja um advogado que foi introduzido na biblioteca de um potencial cliente, para discutir com ele acerca de um futuro contrato de honorários.

Você não se preparou para o encontro, seja porque não teve tempo, seja porque confiou em sua capacidade de persuasão.

Ao aguardar a chegada do seu possível futuro cliente em sua (dele) biblioteca, admira-se com a organização reinante: livros limpos, organizados por tema e, nos nichos, os autores postados em ordem alfabética.

A biblioteca condiz com o ambiente no qual ela repousa. Os outros objetos do espaço circundante também primam pela limpeza e organização: não há nada fora do lugar.

Tais objetos dizem que seu dono é alguém, portanto, organizado, até mesmo meticuloso.

Qual a probabilidade de você convencê-lo nesse encontro para o qual não está devidamente preparado com dados, documentos, legislação, jurisprudência e, até mesmo, doutrina?

Quase nenhuma.

Existe uma Retórica dos objetos, chamemo-la assim, na falta de uma denominação melhor.

O que se quer demonstrar é que “os objetos dizem, expressam algo”. E é fundamental conhecer essa Retórica, para quem se interessa em “decifrar” o meio com o qual interagimos.

Ramo desta área do conhecimento é a publicidade. Usa a técnica da Retórica dos Objetos para induzir associações de idéias que promovam o consumo.

Na Retórica dos Objetos é fundamental a noção de “estranhamento”. É por intermédio do “estranhamento” que decodificamos os objetos.

E o que seria o “estranhamento”? Trata-se de algo difícil de conceituar, tal como a liberdade. Sabemos o que é, mas não sabemos dizer com propriedade o que ela seja.

Em certo sentido, “estranhamento” é uma desarmonia em relação ao padrão comum. Tal qual em uma arte marcial, tornar-se hábil em captar essa desarmonia demanda contínuo exercitar-se até o limite do possível.

Recordemos o exemplo acima.

Para alguém acostumado a perceber, a organização limpa e meticulosa da biblioteca do cliente chama a atenção por fugir do padrão comum. Ao conectar essa constatação com a que resulta do “ver” os restantes dos objetos espalhados pelo ambiente, torna-se possível fazer alguma inferência, ou elaborar alguma hipótese, para sermos mais precisos, acerca da personalidade do seu proprietário.

Em episódio bastante interessante da série “The Mentalist”, agentes do FBI buscam, em uma sala, uma câmera de vídeo escondida.

As outras já foram encontradas e estavam postadas em lugares óbvios.

O personagem principal, Patrick Jane, ao ser introduzido na sala, observa que um determinado espelho estava colocado em uma altura um pouco acima do normal.

Levanta-se o espelho e lá está a câmera procurada.

Entretanto, como essa câmera filmava através do espelho? Patrick sabia que os ilusionistas usam muito um tipo de espelho que permite a quem está por trás visualizar através dele.

A noção "trabalhada" de “estranhamento” permitiu a localização imediata da câmera procurada.

Em outro episódio, bastante conhecido na literatura policial, Sherlock Holmes chama a atenção de Dr. Watson para o cão da propriedade onde acontece a investigação.

Dr. Watson retruca informando que o cão não latiu. Sherlock pondera, então: “por isso mesmo”.

Ou seja, Sherlock vivenciou, ali, uma sensação de estranhamento.

Um exemplo, pinçado da literatura, explica melhor a teoria acima:

"Enquanto se movimentavam pela pista, ele estudou o marido com olhos profissionais, de caçador tranquilo. Estava acostumado a fazê-lo: esposos, pais, irmãos, filhos, amantes das mulheres com quem dançava. Homens, enfim, acostumados a acompanhá-las com orgulho, arrogância, tédio, resignação e outros sentimentos igualmente masculinos. Havia muitas informações úteis nos alfinetes de gravata, nas correntes de relógio, nas cigarreiras e nos anéis, no volume das carteiras entreabertas diante dos garçons, na qualidade e no corte do paletó, nas listras de uma calça ou no brilhos dos sapatos. Até mesmo na forma de dar o nó na gravata. Tudo dera material que permitia a Max Costa estabelecer métodos e objetivos ao compasso da música; ou, dizendo de modo mais prosaico, passar de danças de salão a alternativas mais lucrativas" (O TANGO DA VELHA GUARDA; Arturo Pérez-Reverte). 



[1] http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/11/ver-e-enxergar-acionam-regioes-diferentes-do-cerebro-diz-estudo.html


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - XI

 

Alguns dos integrantes do bando de Lampião que invadiram Mossoró em 13 de junho de 1927


* Honório de Medeiros


O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ, CONTINUAÇÃO.


Outros indícios se acumulam, ao longo do tempo, quanto à existência de um plano – cujo alvo seria o Coronel Rodolpho Fernandes – dentro do plano de invadir Mossoró em busca de dinheiro.

Abaixo, esses indícios serão elencados, como perguntas, um por um. 

Não há resposta para elas. Pelo menos até onde se sabe.

E, embora juntas permitam vislumbrar um todo coerente, dispersas, fragmentadas, fora do contexto que lhes dá razoabilidade, são folhas ao vento, muito remotamente apontando para as árvores de onde caíram.
Por que Massilon, especificamente ele, o executor em Brejo do Cruz e Apodi, servindo às mesmas pessoas, escolheu atacar os fundos da cresidência de Rodolpho Fernandes, enquanto Jararaca e Colchete distraiam os defensores pela frente?

Por que todo o ataque dos cangaceiris se concentrou contra a casa de Rodolpho quando, se de fato os cangaceiros queriam exclusivamente dinheiro, o alvo principal seria a agência do Banco do Brasil, onde até a véspera estavam guardados mais de novecentos contos de réis?

Por que não atacaram a residência do Gerente do Banco do Brasil em busca de resgate, como supostamente queriam fazer com o Prefeito?

Aliás, por que todas as trincheiras importantes visavam proteger a casa de Rodolpho? Tanto a da Estação Ferroviária, quanto a da Igreja de São Vicente eram ocupadas por fiéis amigos do Prefeito e guardavam diretamente sua residência.

Por que o Promotor e o Juiz não abriram processo alusivo à invasão de Mossoró por Lampião? O quê o processo – se aberto – traria à luz? O que se queria ocultar em não o abrindo?

Por que mataram Jararaca na calada da noite? Qual a relação existente entre sua morte e o seu recado mandado para o Coronel Rodolpho Fernandes pedindo para falar especificamente com ele?

Por que os executores de Jararaca não foram processados?

O episódio da morte de Jararaca é bastante revelador. Sérgio Dantas nos conta: (...) “no mesmo dia em que fora preso, Jararaca concedera bombástica entrevista ao jornalista Lauro da Escóssia, do noticiário “O Mossoroense”. Não mediu palavras".

Mais à frente, continua o escritor: “Jararaca pisou em terreno minado. Logo percebeu que tornara pública parte de uma teia intocável. Suas incisivas declarações puseram em dúvida a probidade moral de destacados chefes políticos de estados vizinhos. A repercussão das declarações, claro, fora inevitável. Decerto, o bandido temeu pela própria vida. Pressentira algum perigo. Chamou um militar, ainda cedo da tarde. Expressou-lhe o desejo de falar em particular com o Intendente Rodolpho Fernandes. O pedido, no entanto, lhe foi negado sem maiores explicações. A caserna tinha outros planos para o cangaceiro. À surdina, ensaiou conspiração. Tramaram abjeto extermínio e apostaram no sigilo. Sem mais demora executou-se o plano”.

Em tudo e por tudo está certo Sérgio Dantas. Somente errou quando afirmou que as declarações de Jararaca puseram em dúvida a probidade moral de chefes políticos de estados vizinhos. Não colocou em dúvida, Jararaca, apenas a probidade  moral de quem estava fora dos limites de Mossoró ou cidades vizinhas, como Apodi. 

Colocou sim, em dúvida, a probidade moral de alguns que estavam próximo, bem próximo.

Não seria possível as declarações de Jararaca terem chegado ao Ceará, por exemplo. Naquele tempo não havia sequer telefone. Havia, claro, telégrafo. Quem, no entanto, enviaria informações comprometedoras pelo telégrafo e, através dele, discutiria um plano para a eliminação do cangaceiro, principalmente quando o Chefe do Telégrafo de Mossoró era irmão do Chefe de Polícia do Governador do Estado? Como isso seria possível?

Também não seria possível enviar, a cavalo ou de automóvel, com tempo suficiente, informações alusivas à entrevista de Jararaca para os estados vizinhos. Não. O que Jararaca disse, e o que queria dizer a Rodolpho incomodou alguns que estavam por perto.
 
Finalizou o pesquisador Sérgio Dantas: “Jararaca sucumbira. Morreu porque sabia demasiado".

Mais a frente: “Findou o terrível salteador nas primeiras horas da manhã. Sua morte, entretanto, já havia sido decretada há dias. O laudo do exame cadavérico, por exemplo, fora assinado ainda na tarde do dia dezoito. E assim foi. Horas antes da execução e sob escuso pretexto de rotina, examinavam-se ferimentos de um corpo, sofridos durante uma batalha. Logo depois se chancelava, com base em conclusões médico-legais, documento de óbito de homem ainda vivo”.

Há, pois, muitas razões para supor que dentro do plano de invadir Mossoró em busca de suas riquezas, havia um outro plano, envolvendo o Coronel Rodolpho Fernandes.

Um plano que muitos intuem, vários asseveram, alguns duvidam, que permanece como um fantasma, assombrando quem se debruça por sobre o fato, espanando o pó do tempo e as sombras do esqhecimento.

Assim, esta série de artigos acerca do coronelismo no Rio Grande do Norte segue comprovando que, ao contrário do que se supõe, esse fenômeno existiu, nos mesmos moldes dos estados vizinhos, embora em menor escala...


* honoriodemedeiros@gmail.com
*@honoriodemedeiros (instagram).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - X

 

Argemiro Liberato e esposa

* Honório de Medeiros


O ATAQUE A MOSSORÓ, CONTINUAÇÃO...



Quem foi o idealizador da invasão de Mossoró, em 13 junho de 1927? Não o planejador ou o executor, mas o idealizador?

Sabemos que o planejamento coube ao Coronel Isaías Arruda, a Massilon, e a Lampião. A execução, a Massilon e Lampião.

Entretanto, quem foi seu idealizador?

O ponto de partida para respondermos essa pergunta é a análise da participação, no episódio, de três personagens principais: Lampião, o Coronel Isaías Arruda, e Massilon.

A importância deles é tal que, sem qualquer um dos três, não teria havido a invasão. Todos os outros participantes são secundários, embora sejam importantes.

Lampião pode ser retirado, com alguma segurança, dentre os possíveis idealizadores, por uma razão muito simples: Jararaca, testemunha da conversa entre o cangaceiro e o Coronel Isaías Arruda, acerca do projeto de ida a Mossoró, foi muito claro quando afirmou que nunca houve a intenção, do bando, de penetrar no Rio Grande do Norte.

Manoel Francisco de Lucena Filho, o “Ferrugem”, Manoel Ferreira, o “Bronzeado”, assim como Francisco Ramos de Almeida, o “Mormaço”, disseram o mesmo, em momentos distintos.

E é praticamente consenso, na literatura do cangaceirismo, a resistência inicial de Lampião de levar a frente tal aventura.

Sobram o Coronel Isaías Arruda e Massilon.

O Coronel Isaías Arruda também poderia ser retirado, levando-se em consideração o seguinte: ele não chamou Lampião a Aurora, pois vinha sendo pressionado insistentemente pelo Governador do Estado, José Moreira da Rocha, o “Moreirinha”, seu aliado, para se afastar de cangaceiros e jagunços.

“Moreirinha”, por sua vez, sofria intensa pressão do Governo Federal nesse sentido.

Notória é a participação do Coronel no ataque a Apodi, em 10 de maio de 1927, como é notório o viés político desse ataque: Coronéis cearenses, paraibanos e potiguares agindo em conjunto, nas sombras, contra a liderança do Coronel Chico Pinto, em crime executado por Massilon.

Então, é de se supor que o Coronel Isaías Arruda não chamou Lampião, mas aproveitou a oportunidade de sua chegada repentina.

Dizemos que aproveitou a oportunidade porque, aparentemente, o projeto de invadir Mossoró já existia há algum tempo e, para tanto, Massilon recrutava cangaceiros pelo Sertão paraibano, provavelmente em comum acordo com o Coronel.

Existem dois fatos que asseguram a forte ligação entre o Coronel Isaías Arruda e Massilon, fundada em interesses mútuos:

a) em junho de 1926, Massilon e José Gonçalves de Figueiredo mataram João Vieira, em uma emboscada cujo objetivo era eliminarem integrantes da família Paulino, inimigos figadais do Coronel Isaías Arruda. Isso significa que Massilon era da mais estrita confiança do Coronel[1];

b) em maio de 1927, Massilon atacou Apodi, executando projeto do Coronel Isaías Arruda e seu sobrinho José Cardoso, a pedido de Décio Holanda, genro de Tylon Gurgel, chefe da oposição ao Coronel Chico Pinto, parente, compadre e correligionário de Rodolfo Fernandes naquela cidade.

O recrutamento de cangaceiros por Massilon, no intuito de invadir Mossoró, pode ser indiretamente comprovado: antes de Lampião chegar inesperadamente a Aurora, ele não sabia, mas o projeto de invadir Mossoró já existia. É o que se lê às folhas 30, da quarta edição de A Marcha de Lampião[2], Raul Fernandes, no item 2, do 1º Capítulo:

"Em dezembro de 1926, Joaquim Felício de Moura, sócio da firma Monte & Primo, em Mossoró, viajava pelo interior da Paraíba. Na cidade de Misericórdia, encontrou-se com o destacado comerciante e fazendeiro Antônio Pereira de Lima, que lhe falou da acirrada perseguição do bandido Virgulino Ferreira a sua família. Sem maiores rodeios, contou-lhe o plano de Jararaca, Sabino, Massilon e Lampião de assaltarem Mossoró com quatrocentos homens. Adiantou ser impossível reunirem tanta gente. Advertiu-o, porém, sobre o costume de mandarem espiões disfarçados de feirantes, mendigos e cantadores, aos lugares previamente escolhidos. Conversou sobre a possibilidade de defesa da cidade e pediu-lhe levar esses fatos ao conhecimento do Prefeito Rodolpho Fernandes".

Daí por diante os boatos se sucederam.

Na última quinzena de abril, 27, a notícia veio à luz de modo concreto. Argemiro Liberato, de Pombal, escreveu ao compadre Rodolpho Fernandes sobre a pretensão do chefe dos bandidos. Dos remotos sertões de Pernambuco, da Paraíba e do Ceará surgiam indícios dos agenciadores da vergonhosa empreitada".

Em “Notas” (p. 40) ao 1º Capítulo, Raul Fernandes observou:

"Afonso Freire de Andrade e inúmeras outras pessoas conheceram a carta. Mossoró (RN), 23.12.1971. - Informações prestadas ao autor. Obs.: Ouvi de meu pai referências à missiva"[3].

Quanto a Argemiro Liberato, no meu Histórias de Cangaceiros e Coronéis[4] (p. 119), transcrevo artigo de Kydelmir Dantas, Cofundador e ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), intitulado Cartas e Bilhetes Antes de Lampião, no qual se lê o que segue:

“Esta carta[5] foi levada ao conhecimento dos amigos de confiança do prefeito, por este, que estavam preparando a estratégia para a formação das trincheiras nos pontos principais da resistência. Dentre estes, Joaquim Felício de Moura, Afonso Freire de Andrade e outras pessoas mais chegadas confirmaram tê-la visto nas mãos do ‘coronel Rodolpho’".

Para a família, dias após o ataque, Rodolpho Fernandes fez referências sobre a missiva do amigo paraibano de Pombal.

Outra confirmação do envio da carta está no artigo Major Argemiro Liberato de Alencar: o amigo de Rodolpho Fernandes, escrito pelo seu neto Geraldo Alves de Alencar, hoje residente em São Luiz do Maranhão, que cita o seguinte sobre o avô: "Era fazendeiro, proprietário da Fazenda 'Estrelo', situada em sua cidade natal. Exercia também a profissão de comerciante, trazendo da Paraíba algodão transportado em costas de burros e vendido em Mossoró, estado do Rio Grande do Norte. O principal comprador era a firma cujo maior acionista era seu amigo e compadre o Cel. Rodolfo Fernandes. Em suas viagens como almocreve retornava a Pombal com sal e outros gêneros. Mesmo tendo um sobrinho nas hostes do cangaço, o qual atendia pelo nome de Ulisses Liberato de Alencar, Argemiro era profundamente contra o banditismo rural, chegando inclusive a avisar ao Cel. Rodolfo Fernandes, quando este era prefeito de Mossoró em 1927, que o cangaceiro tencionava atacar a cidade considerada capital do oeste potiguar. Declaradamente anti-Lampiônico, Argemiro Liberato de Alencar nunca chegou a ser perseguido pelo 'rei do cangaço' porque Lampião sabia da amizade existente entre ele e o Padre Cícero".

Evidentemente o aviso não era acerca de um futuro ataque de Lampião, mas, sim, de um futuro ataque de cangaceiros”.

Provavelmente Joaquim Felício estivesse errado quanto a José Leite de Santana, o Jararaca. Como nos assevera Frederico Pernambucano de Mello[6], a área de atuação do cangaceiro eram as ribeiras do Moxotó e Pajeú, em Pernambuco. E o próprio Jararaca, declarou, quando preso em Mossoró, além de outros cangaceiros, que Lampião nunca pensara em atacar a cidade[7].

Já Sabino Gomes de Góis, embora atuasse nos arredores do município de Cajazeiras, Paraíba, estava, naquele momento, integrado ao bando de Lampião, desde o ataque à Souza, no mesmo Estado, em 27 de julho de 1924, do qual não se separará até sua morte (dele), em fevereiro de 1928, após o conhecido tiroteio de Piçarra, em Porteiras, Ceará.

Ora, se Sabino tinha intenção de aventurar-se até Mossoró, é evidente que Lampião seria o primeiro a sabê-lo. Repita-se, entretanto: Lampião nunca teve a intenção de invadir o Rio Grande do Norte. Sequer sabia da existência desse projeto. Os escritos acerca da história da invasão de Mossoró são consensuais quanto a isso, a partir dos depoimentos de vários cangaceiros, dentre eles, Jararaca.

Ainda a favor dessa hipótese, a de que o ataque foi idealizado bem antes de sua realização há, também, além da correspondência de Argemiro Liberato e do recado de Joaquim Felício, a notícia veiculada pelo “O Mossoroense” de 15 de maio de 1927, de que na invasão de Apodi, por Massilon, o projeto de invadir Mossoró já existia, insinuando, sem rodeios, que essa pretensão, a ocorrer em dias vindouros, integrava empreitada de grande vulto, e dele dera conhecimento, ao Coronel Rodolpho Fernandes, a carta de Argemiro Liberato.

Observe-se que essa edição de O Mossoroense, jornal dirigido por Rafael Fernandes, primo e correligionário do Coronel Rodolpho Fernandes, veio a lume cinco dias após a invasão de Apodi por Massilon.

Basta, então, darmos a devida importância à ligação entre essa matéria do jornal e a anterior correspondência de Argemiro Liberato encaminhada ao Prefeito, bem como ao recado de Joaquim Felício.

Se assim o é, se de fato o Coronel Isaías Arruda e Massilon trabalharam juntos nessa empreitada antes da chegada de Lampião, desde, pelo menos, meados de 1926, se a ambos podemos atribuir todo o planejamento do projeto, a pergunta, agora passa a ser outra: foram eles que idealizaram (arquitetaram) o projeto da invasão a Mossoró?

É muito difícil acreditar que Massilon recrutasse cangaceiros e jagunços pelo Sertão, sem que disso soubesse o Coronel Isaías Arruda e outros coronéis aliados seu.

Outra questão: por que Mossoró? Por que não Cajazeiras, Souza, Patos ou Pombal, na Paraíba? Caicó, Currais Novos, São Miguel, Pau dos Ferros ou Martins, no Rio Grande do Norte, ou as cidades do Vale do Jaguaribe, no Ceará, se o objetivo fosse meramente arrancar dinheiro?

E se o objetivo era meramente arrancar dinheiro, por que o alvo do ataque foi a residência do Coronel Rodolpho Fernandes, e, não, a agência do Banco do Brasil ou o comércio da cidade?

Então, cabe perguntar: quem, na verdade, idealizou (arquitetou) o ataque a Mossoró?

Qualquer que seja a resposta, de tudo quanto se disse algo fica claro: o Coronel Isaías Arruda e Massilon foram os grandes responsáveis pela invasão de Mossoró. Principalmente Massilon, que planejou com o Coronel, e executou com Lampião.

Ele é o personagem principal desse drama épico, e somente é possível uma história de tudo quanto aconteceu, uma história que tenha causas e efeitos, e não apenas a descrição horizontal do acontecimento em si, se o investigarmos, bem como suas conexões com os coronéis da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, para os quais “jagunçou”, mas sempre como chefe de bando.

[1] Conforme Vida e Morte de Isaías Arruda; TAVARES CALIXTO JÚNIOR, João. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora; 2019.

[2] Natal: Editora Universitária, 1982.

[3] Raul Fernandes era filho do Coronel Rodolpho Fernandes.

[4] MEDEIROS, Honório de. Natal: Sebo Vermelho, 2015.

[5] A de Argemiro Liberato para o Coronel Rodolpho Fernandes.

[6] “GUERREIROS DO SOL”; 2a. edição; A Girafa; 2004; São Paulo, SP.

[7] No “Auto de Perguntas” feitas a Jararaca consta, também, a seguinte declaração sua: “que saíram em dias do mês de maio findo, do Pajeú, estado de Pernambuco, e que acompanhava Lampião há pouco mais de um ano”. Antes de Lampião, Jararaca, ainda segundo seu depoimento, estava no Primeiro Regimento de Cavalaria Divisionária, tomando parte na revolta de São Paulo a favor da legalidade, com a Coluna Potiguara (“LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; NONATO, Raimundo; sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró).


CONTINUA...


* honoriodemedeiros.gmail.com
* @honoriodemedeiros (instagram).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O RIO GRANDE DO NORTE NO TEMPO DOS CORONÉIS - IX

 


Raul Fernandes, autor de "A Marcha de Lampião", filho do Coronel Rodolfo Fernandes


* Honório de Medeiros


O ATAQUE A MOSSORÓ, CONTINUAÇÃO...


 
Estamos em 1927.

O Coronel Rodolpho Fernandes é o Prefeito de Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte. Mossoró rivaliza com Natal, a capital. Sua população, incluindo a do município, era de 20.300 habitantes. Natal alcançava 30.600, nos diz Raul Fernandes em A Marcha de Lampião.

A ascensão ao poder do Coronel revela o predomínio político que sua família, Mathias Fernandes Ribeiro, descendente de um português, adquirira ao longo do tempo, e que se baseava, fundamentalmente, na exploração industrial da cultura do algodão.
 
Aqueles eram novos tempos, o Coronel o pressentia.

O Sertão, através de José Augusto Bezerra de Medeiros granjeara, para si, o poder que os Maranhão, ricos usineiros do açúcar, entregaram lentamente aos coronéis proprietários de terra onde o algodão brotava e enriquecia.

Entretanto, esse mesmo poder, calcado na terra, cedia lentamente, por sua vez, espaço a uma burguesia que se firmava por intermédio da industrialização e do comércio em larga escala.

Os Fernandes estavam à frente desse processo de mudança e iriam viver seu apogeu logo mais, após a vitoriosa campanha do Partido Popular contra Mário Câmara e a eleição do médico Rafael Fernandes para dirigir os destinos do Rio Grande do Norte.
 
Enquanto não se consolidava de vez o poder nas mãos dos Fernandes, na capital seguidores de José Augusto olhavam com preocupação esse avanço político da família alto-oestana em Mossoró, cidade líder inconteste do Oeste Potiguar, sob o comando do Coronel Rodolpho Fernandes e, no Alto Oeste, em Pau dos Ferros, liderada pelo Coronel Adolpho Fernandes, seu primo.

De Mossoró para dentro, até a fronteira com a Paraíba, portanto de Apodi, passando por Martins, a Luis Gomes, os Fernandes dominavam. Em Apodi, embora o Coronel Chico Pinto não fosse Fernandes, era correligionário e amigo pessoal do Prefeito de Mossoró.
 
A oposição não descansava, era aguerrida e chegava até os salões do Palácio do Governo, onde auxiliares diretos de José Augusto o intrigavam junto a Rodolpho Fernandes e vice-versa.

Em carta dirigida ao escritor Nertan Macedo, Paulo Fernandes, filho de Rodolpho, chegou a ser enfático quanto a essa intriga entre os dois líderes políticos: “O Governador do Rio Grande do Norte, Doutor José Augusto Bezerra de Medeiros e o seu chefe de polícia, Desembargador Manoel Benício de Melo, estavam à época, em franco dissídio com o prefeito de Mossoró (meu pai); O Sr. Mirabeau Melo, chefe da repartição do telégrafo em Mossoró, era irmão do chefe de polícia, e atuava como informante das coisas locais e porta voz do governo; era um medíocre intrigante, inadequado para a missão que o destino lhe reservou, pois tanto o governador do estado e seu chefe de polícia como o prefeito de Mossoró eram homens de bem e do mesmo partido político, de modo (que) só se compreende o dissídio entre eles, em torno do problema de interesse público, em virtude da ação maléfica de mexeriqueiros” (...).
 
Tal oposição chegou ao cúmulo de tentar levar o Coronel Rodolpho, um homem sério, respeitado, ao ridículo, como nos lembrou Paulo Fernandes na mesma carta: “As advertências à população e providências tomadas por meu pai eram exploradas pela oposição até com o ridículo. Chamavam-no, por exemplo, de velho medroso, por se preocupar com um possível ataque de Lampião à cidade”(...).

Raul Fernandes confirmou: “Adversários políticos e maledicentes desfrutavam, com vantagem, o receio do Prefeito”.
 
A par dessa situação política tensa, na qual vivia Rodolfo Fernandes, o futuro parecia promissor: sua liderança em Mossoró era inconteste, a cidade crescia a olhos vistos sob sua administração, dois dos seus três filhos homens faziam medicina fora e voltariam, brevemente, para dar continuidade a seu legado político, e sua família era, naquele período, uma das mais ricas do Estado.
 
Mesmo assim, o Coronel Rodolpho não descuidava. Conhecia bem os meandros da política interiorana. Não saía de sua lembrança a forma violenta através da qual seus parentes de Pau dos Ferros tomaram o poder naquela cidade alguns anos atrás, expulsando o Coronel Joaquim Correia.

As histórias acerca do cangaceirismo corriam de boca-em-boca pelas praças e ruas da cidade, sempre envolvendo coronéis e disputas políticas como pano-de-fundo.

Notícias vindas do Acre davam conta das aventuras de Childerico Fernandes, o Guerreiro do Yaco, irmão do Coronel Adolpho Fernandes, repletas de violência.

O Coronel Chico Pinto lhe punha a par dos desmandos de seus adversários que iriam redundar na invasão da cidade por Massilon e, posteriormente, em seu assassinato em 1934.

As estripulias de Massilon, conhecido em Mossoró, lá para as bandas de Brejo do Cruz, agindo a mando de pessoas que também tinham interesses políticos em Apodi; as histórias oriundas do Cariri cearense, de deposição de Coronéis por outros Coronéis através das armas, tudo isso lhe trazia profunda preocupação.
 
Assim, pareceu-lhe particularmente preocupante algumas informações que pessoas a si ligadas por laços comerciais e afetivos fizeram chegar aos seus ouvidos por aqueles dias do começo do ano de 1927.

É como nos disse seu filho Raul Fernandes em A Marcha de Lampião: “Na última quinzena de abril, de 27, a notícia veio à luz de modo concreto. Argemiro Liberato, de Pombal , escreveu ao seu compadre Rodolpho Fernandes sobre a pretensão dos chefes de bandidos. Dos remotos sertões de Pernambuco, da Paraíba e do Ceará surgiam indícios dos agenciadores da vergonhosa empreitada”.
 
Raul Fernandes disse mais à frente, em nota: “Ouvi de meu pai referências à missiva”.

Quem agenciava essa empreitada? A mando de quem? Com qual objetivo oculto, escondido por trás da cortina de fumaça que era a invasão da cidade em busca de suas riquezas, agiam seus autores intelectuais?

Com certeza Lampião não sabia do que se tramava contra Mossoró ou contra o Coronel Rodolpho Fernandes. Sérgio Dantas, em Lampião e o Rio Grande do Norte, é enfático quanto a isso, transcrevendo testemunho de Jararaca que ouvira as conversas do cangaceiro com o Coronel Isaías Arruda acerca do plano de invasão de Mossoró: “Lampião nunca tencionara penetrar nesse Estado porque não tinha aqui nenhum inimigo e se por acaso, para evitar qualquer encontro com forças de outros Estados, tivesse que passar por qualquer ponto do Rio Grande do Norte, o faria sem roubar ou ofender qualquer pessoa, desde que não o perseguissem”.
 
O Coronel Rodolpho Fernandes sabia mais que deixou transparecer naquele momento. Não falou a seus filhos acerca de tudo quanto estava por trás desse agenciamento que acontecia no Sertão paraibano e cearense.

Tampouco disse qualquer coisa a seus interlocutores, que tenha sido registrado para a história, nas reuniões onde expôs a possibilidade de invasão da cidade por Lampião e os convocou para a defesa.

Pressentia, entretanto, que o ataque à cidade, se viesse a acontecer, ocultava outro plano, cujo objetivo era ele.

Que outra explicação pode ser dada, se não essa, para a excessiva concentração de forças defensoras no entorno de sua residência, quando era sabido que ele, individualmente, jamais teria, consigo, dinheiro suficiente para qualquer resgate que valesse a empreitada do ataque a Mossoró?
 

CONTINUA...


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros
* Imagem em https://tokdehistoria.com.br/