segunda-feira, 22 de junho de 2026

ÀS MÁQUINAS, O MUNDO

 





* Honório de Medeiros
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros


Conto, em meu Poder Político e Direito - A Instrumentalização Política da Interpretação Jurídica Constitucional, um fato narrado a partir de Sir Winston Churchill em My Early Life – A Roving Comission, para ressaltar seu “lado” pouco conhecido de epistemólogo que fez uma opção decidida pelo Realismo, em oposição ao Idealismo.

Esse seu “lado” de filósofo – é bom lembrar que ele foi também escritor, pintor e memorialista e a sua obra, nomeadamente as Memórias de Guerra (1948-1954), valeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1953 – me veio à mente ao ler, quase que por acaso, uma frase que ele proferiu: “Moldamos os nossos prédios e depois eles nos moldam”.

A leitura foi na excelente resenha que Ricardo Abromovay publicou na Revista “Quatro Cinco Um”, acerca de três obras ainda não traduzidas para o português e que tratam daquilo que é denominado de “Sociedade da Vigilância em Rede”.

Pois bem: Abromovay nos induz ao seguinte raciocínio analógico: se nos moldam os prédios que nós construímos, segundo o brilhante “insight” de Churchill, podemos esperar algo diferente em relação à “Rede”?

Até então tudo tranquilo. É difícil quem pense o contrário. O problema é que o diabo mora nos detalhes, como diz o famoso provérbio alemão.

Cito Abromovay:

“Na verdade, as informações permanentemente coletadas e analisadas por algoritmos, cujo funcionamento nos é completamente opaco, permitem que nossa conduta seja previsível e, justamente por isso, abrem caminho a uma interferência em nosso cotidiano que é inédita e atinge todas as esferas da vida social. 

Em 2014, por exemplo, a Amazon patenteou um sistema que permite antecipar o que os clientes querem comprar, antes mesmo que eles próprios o saibam. A mágica está nas informações reunidas sobre cada um de nós e na análise que delas é feita”.

Apavorante.

Lembrei-me que certa vez perguntaram a Stephen Hawking se a inteligência artificial iria nos superar – a chamada “singularidade tecnológica”.

“É bem provável que sim”, respondeu ele. E propôs embutir sensores éticos nas nossas máquinas inteligentes.

“Como assim”, me perguntei. “Sensores éticos?”

E me lembrei da sociedade distópica imaginada por George Orwell em 1984: no futuro totalmente controlado por intermédio da inteligência artificial não é o “Grande Irmão” quem dará as cartas.

Serão as máquinas.

domingo, 21 de junho de 2026

NO RUMO DO REMANSO NA BEIRA DA SERRA DAS ALMAS

 


Imagem: Honório de Medeiros

* Honório de Medeiros.
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros


No rumo do remanso na beira da Serra das Almas, para visitar Antônio Gomes, passei por Martins para dois dedos de prosa com Seu Antônio de Luzia, que Deus o mantenha tal qual está.

Cheguei, saldei, puxei a cadeira de balanço, dei atenção a passarinhada, admirei os cajueiros em flor.

Depois do gole no café quentinho, feito na hora, e da rapadura, perguntei como iam as coisas, e ele, naquela voz arrastada e grave, me respondeu que "do mesmo jeito, só que mais velhas".

Era um final de tarde meio quente, no Sítio Canto. Só vez por outra alguém passava e arriscava um dedo de prosa. A estrada de barro nos protegia do calor o quanto podia. Verde de um lado, do outro, tudo nos embalava em uma calmaria que Seu Antônio demorava a perturbar.

E nós dois, como outras vezes, café tomado, calados, cabeça pousada por inteiro no espaldar das cadeiras de balanço, nos entregávamos à quietude e ao canto dos passarinhos.

Lá pelas tantas uma vizinha distante encostou. Deu boa tarde e se danou a falar, sem esperar um retorno.

Comçou a contar o caso de uma sobrinha solteirona que embuchara pelas bandas dos Cariris Velhos, numa noite de São João regada a neblina, fogueiras, sanfonas e cachaça.

Falou, falou, falou tanto que espantou os sabiás que cantavam nos cajueiros do terreno em frente.

Finalmente se foi, depois de perguntar por meio mundo de gente. Tentou cascavilhar minha vida, mas minha demora em responder as suas perguntas parace que a incomodaram.

Quando saiu, seu Antônio, sem olhar para mim, sentenciou: "essa mulher se ofende com o silêncio".

E mais não disse e nem lhe foi perguntado até a hora da coalhada, à boca da noite, com as primeiras estrelas aparecendo e alguns sacis se preparando para as presepadas habituais...

Sítio Canto, Martins, dia desses...