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domingo, 21 de junho de 2026

NO RUMO DO REMANSO NA BEIRA DA SERRA DAS ALMAS

 


Imagem: Honório de Medeiros

* Honório de Medeiros.
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros


No rumo do remanso na beira da Serra das Almas, para visitar Antônio Gomes, passei por Martins para dois dedos de prosa com Seu Antônio de Luzia, que Deus o mantenha tal qual está.

Cheguei, saldei, puxei a cadeira de balanço, dei atenção a passarinhada, admirei os cajueiros em flor.

Depois do gole no café quentinho, feito na hora, e da rapadura, perguntei como iam as coisas, e ele, naquela voz arrastada e grave, me respondeu que "do mesmo jeito, só que mais velhas".

Era um final de tarde meio quente, no Sítio Canto. Só vez por outra alguém passava e arriscava um dedo de prosa. A estrada de barro nos protegia do calor o quanto podia. Verde de um lado, do outro, tudo nos embalava em uma calmaria que Seu Antônio demorava a perturbar.

E nós dois, como outras vezes, café tomado, calados, cabeça pousada por inteiro no espaldar das cadeiras de balanço, nos entregávamos à quietude e ao canto dos passarinhos.

Lá pelas tantas uma vizinha distante encostou. Deu boa tarde e se danou a falar, sem esperar um retorno.

Comçou a contar o caso de uma sobrinha solteirona que embuchara pelas bandas dos Cariris Velhos, numa noite de São João regada a neblina, fogueiras, sanfonas e cachaça.

Falou, falou, falou tanto que espantou os sabiás que cantavam nos cajueiros do terreno em frente.

Finalmente se foi, depois de perguntar por meio mundo de gente. Tentou cascavilhar minha vida, mas minha demora em responder as suas perguntas parace que a incomodaram.

Quando saiu, seu Antônio, sem olhar para mim, sentenciou: "essa mulher se ofende com o silêncio".

E mais não disse e nem lhe foi perguntado até a hora da coalhada, à boca da noite, com as primeiras estrelas aparecendo e alguns sacis se preparando para as presepadas habituais...

Sítio Canto, Martins, dia desses...

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A VIDA É LÍQUIDA

 

Anna Tolipova


* Honório de Medeiros
* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honóriodemedeiros


“A vida é líquida”, disse Zygmunt Balman, aludindo à consistência das relações entre nós e os outros, ou entre nós, as coisas e os fenômenos.

Líquida, posto que a consistência não tem forma definida, assume aquela que o recipiente (o contexto) impõe. 

Não seríamos estruturas rígidas imutáveis que atravessam o tempo pouco atingidas pelas circunstâncias, somos proteiformes, somos difusos, somos evanescentes. 

Vivemos em uma época na qual as gerações mais novas escrevem tudo em uma linha. No máximo algumas poucas linhas. E somente leem, e são treinadas pela realidade virtual com a qual convivem em tempo integral exatamente para isso, algumas linhas, umas poucas linhas... 

Tal é o ser (e o dever-ser) que a realidade virtual impõe: tudo é frenético, tudo é descartável, tudo é cambiante, imediato. É a maximização das potencialidades, negativas ou positivas, da nossa espécie sobrevivente e dominante, conforme descrita pela teoria da seleção natural.

O ensino, hoje, anda em ruínas por vários motivos, desconfio que o modelo que ainda predomina está fadado ao fim, entre outras razões em decorrência do descompasso com essa realidade que aos poucos se impõe, no qual não há mais espaço para uma educação que se estrutura a partir de livros, com textos pesados, longos, e que exigem tempo e estudo profundos, bem como para o “pensar” típico dos escolásticos medievais, que moldou as bases do nosso ensino ocidental e cristão.

Quem, hoje, lê Em Busca do Tempo Perdido? 

As gerações mais novas, que herdarão o mundo, ou o que restar dele, e sua forma de apreender e expressar a realidade, estão em processo de descompasso com aquela construída pelos nossos antepassados. Não se trata de estarmos certos, e eles errados, por não quererem ler livros como Ulisses, de James Joyce, Paidéia, de Werner Jaeger, ou Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

São elas, essas gerações, filhas do "meme" que é a realidade virtual: caracterizam-se por viver em ritmo alucinante, pensar freneticamente, falar acelerado, em contraposição ao viver, pensar e falar arcaico, que vai sendo abandonado. 

O livro de papel sobreviverá, como sobreviveu o ritual do chá no Japão moderno que a restauração Meiji instaurou, e atirar com arco-e-flecha, algo excêntrico, típico de verdadeiros “outsiders”; serão criadas seitas e seus inevitáveis rituais iniciáticos, para os escritores e leitores.

Livros em ambientes virtuais existirão cada vez mais. Mas nunca serão consumidos como o foram os livros de papel após Gutenberg. 

Assim como os monges que salvaram a civilização como nós a conhecemos, na Alta Idade Média, copiando os textos antigos e os deixando para a posteridade, será em ambiente monacal que os iniciados lerão obras como as que foram citadas acima. 

O velho mundo está morrendo, viva o novo mundo, do qual serei espectador privilegiado, posto que, quando menino, fui apresentado ao milagre da televisão quando já completamente cativado pelo livro de papel, e, agora, muito tempo depois, me maravilho com as infinitas possibilidades de uma realidade sequer possível de ser imaginada antes, domínio e prisão dos que, hoje, ainda são apenas adolescentes.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

COMADRE


* Honorio de Medeiros


O que mais me impressionava em Comadre, como todos nós a chamávamos, no aspecto físico, era seu rosto. 

Nele, o sol e o suor escavaram miríades de rugas finas a recortar sua pele morena, gretada, compondo uma teia que aprisionava nosso olhar imediatamente.

Depois, as mãos. Mãos como garras. Fortes. Calosas. Descoradas por anos a fio de sabão e água. 

Por fim sua vestimenta: sempre um vestido de cor clara, chita humilde, o mesmo modelo, de mangas compridas – que ela, por razões óbvias, usava arregaçadas – que ia até o tornozelo, tudo encimado por uma espécie de coroa de pano branco de margens largas, propositadamente feitas para receber e acomodar o saco de roupas a serem lavadas.

Pois Comadre, como se pode perceber do texto, era a lavadeira não somente lá de casa, mas de praticamente toda a família.

Estava sempre feliz. Na minha meninice de bicho arredio, dado aos livros e devaneios, alternados por impulsos nervosos de convivência alegre, sua gargalhada compunha o sábado, assim como o carneiro guisado e o cuscuz molhado na graxa, na hora do almoço.

Lá em casa, mais aos sábados do em qualquer outro dia por conta da feira, até o meio da tarde o vai-e-vem e converseiro era permanente. 

Entrava-se e saiam. Saiam e entravam.

Todos confluíam para a área-de-serviço, contígua à cozinha: O leiteiro, a lavadeira, o pessoal que vinha com a feira semanal, parentes de outras cidades, aderentes, contraparentes, amigos, amigos dos amigos. 

Todos embalados por uma xícara de café e pão com manteiga.

Conversava-se, cantava-se, declamava-se, discutia-se, fofocava-se, trocavam-se receitas de bolos e de remédios. 

Naquele local, sem que me desse conta naquela época, a solidariedade fincava raízes e se propagava: todos se uniam para se amparar mutuamente. 

Escutavam-se mágoas, partilhavam-se alegrias, construía-se teimosamente a delicada trama de uma vida ancestral, fadada a desaparecer, na qual todos formavam a unidade, e a unidade era a sobrevivência.

Comadre, então, como eu diria muito tempo depois, quando o passado passou a interromper cada vez mais meu presente, era um modelo de sobrevivência. 

Paupérrima, viúva ainda jovem, criou sua dezena de filhos lavando roupa e sempre com aquela alegria de viver que me deixa, ainda hoje, perplexo e angustiado. 

Poderia ter sido um personagem de um Tolstoi tardio, quando o cristianismo primitivo passou a ser sua segunda natureza.

Vezes sem conta, quando próximo de sua tão sonhada aposentadoria, eu lhe perguntei: “Comadre, por que a senhora é tão feliz?” 

“Meu filho”, respondia-me com aquele seu sorriso luminoso estampado na face engelhada, “Deus não nos quer tristes.” 

“Mas Comadre”, retorquia eu, “e o sofrimento que nós vemos no mundo?” “E a violência, a fome, as doenças...?” 

“Olhe, meu filho, como posso duvidar de Deus? Ou acredito ou não acredito.” 

E seguia lépida e fagueira, a chistar, trouxa na cabeça, alegre, feliz, sem sequer desconfiar que sua lógica simples dera um nó em toda a minha metafísica.

honoriodemedeiros@gmail.com
@honoriodemedeiros