* Honório de Medeiros (honoriodemedeiros@gmail.com)
Não há nada de novo sob o sol. Seguimos aparentemente em frente para
destino ignorado, permanecendo os mesmos de tanto tempo atrás, enquanto as
formas, os instrumentos, e os meios que são criação nossa, mas dos quais somos
reféns para lidarmos conosco, os fenômenos e as coisas, tornam-se cada vez mais
complexos e fugazes, em uma espiral, um "vir-a-ser", como diria
Nietzche, de proporções incalculáveis.
Essência imutável, forma evanescente.
Leio em Os Crimes de Paris, de Dorothy e Thomas Hoobler, acerca
de Vidocq, um personagem maior que sua vida. "Depois de cometer
vários crimes na juventude, trocou de lado e se aliou à polícia. Foi o primeiro
chefe da Sureté, o equivalente francês do FBI, e modelo para vários personagens
da literatura", dizem-me eles.
Fascínio antigo esse meu por Vidocq. Camaleônico, sofisticado,
indecifrável, também foi o criador da primeira agência de detetives do mundo,
o "Bureau de Reinseignements", ou Agência de Inteligência. Que
outro, além de um francês, criaria uma agência de detetives com esse nome?
Vidocq inspirou Maurice Leblanc na criação do célebre “Arsène Lupin, O
Ladrão de Casaca”, que eu lia, fascinado, na adolescência, graças à bondade de
um colega de ginásio, na Mossoró, minha Macondo particular, que não existe mais,
pelo menos neste plano.
Inspirou, também, além de muitos outros, tais como Alexandre Dumas,
Victor Hugo e Eugène Sue, o ainda mais célebre personagem de Balzac, Vautrin,
presente em vários livros da Comédie Humaine.
Vautrin, o mesmo que em certo momento, lá para as tantas, explica o mundo:
"-E que lodaçal! - replicou Vautrin. - Os que se enlameiam em
carruagens são honestos, os que se enlameiam a pé são gatunos. Tenha a
infelicidade de surrupiar alguma coisa e você ficará exposto no Palácio da
Justiça como uma curiosidade. Furte um milhão e será apontado nos salões como
um modelo de virtude. Vocês pagam 30 milhões à polícia e à justiça para manter
essa moral... Bonito, não é?"
Assim falava minha mãe: "vão-se os anéis, permanecem os
dedos..."