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quinta-feira, 26 de março de 2026

REPORTAR O SERTÃO, JORNALISMO EM VIAGEM

 


(Foto: Jornal-O-Recreio-fonte-Hemeroteca-Digital-Biblioteca-Nacional)


* Gustavo Sobral


Foi preciso pegar o vapor para alguns dias depois desembarcar em alto mar, tomar um barco menor, descer numa praia deserta e subir num cavalo. Tudo isso com a missão de reportar. E foram 44 dias de viagem terra adentro.

Era 1861; o jornalista tomou as rédeas do cavalo e andou o sertão acompanhando a viagem do presidente da província àquele meio do mundo. O presidente ia averiguar a situação da província in loco e o jornalista registrar o que foi visto e vivido.

Foi comendo poeira, com sol a pino, à tardinha, à noite, ou mesmo viajando pela madrugada fria e tranquila; entre serras, açudes, rios perenes ou não, entre pousos em fazendas hospitaleiras e recepções com fogos, girandolas e banda de música.

O jornalista chamava-se Francisco Othílio Álvares da Silva e a reportagem “Recordações de viagem” foi publicada em partes no jornal O Recreio, entre 13 de setembro e 17 de novembro daquele ano. A província era o Rio Grande do Norte e o presidente, Pedro Leão Veloso.

O jornalismo naquele século estava vinculado aos vacilantes humores da política e envolvia o processo rápido de domínio de uma tecnologia nova, o prelo. Conhecimento especializado que partia do alfabetismo e passava pelo aprendizado técnico da composição e da impressão.

Marialva Barbosa fez um alerta importante: o estudo do jornalismo, no lugar de análises e ideias totalizantes, também deve se voltar para a particularidade das regiões, para as histórias localizadas em espaços específicos.

Se a totalidade dos jornais publicados se perdeu nos caminhos do tempo, ainda é possível ter acesso ao jornalismo que se praticava no passado nos exemplares remanescentes. Aqui está uma prova.

Jornais diversos circulavam na província naquele período. A imprensa no Império era livre, pois livre era a iniciativa para a criação de jornais e o conteúdo resumia-se a artigos de fundo, relatos de atas, leis e discursos. O Recreio era uma exceção.

Jornal literário, explorava em suas páginas textos dos literatos da província em crônica semanal, poesia, charadas, anedotas, epigramas, pensamentos, anúncios e outros textos diversos. E uma grande novidade: a reportagem de Francisco Othilio Álvares da Silva.

Naquele tempo reinava e imperava Dom Pedro II na estabilidade conquistada depois das últimas revoluções, moderando os gabinetes entre Liberais e Conservadores. A nomeação do governo para as províncias seguia a Constituição e o governo mandava um presidente para administrar a cada dois anos.

Isso era péssimo para as províncias, pois quando o cidadão começava a tomar pé da situação, já era hora de ser removido e mandarem outro. No entanto, o sacrifício de governá-la poderia trazer compensações futuras aos nomeados. Um cargo melhor depois, quem sabe.

Já a província carecia de tudo: estradas, edifícios públicos adequados, o ensino precisava de melhorias, a saúde era precária e viagens como essa não eram prática corrente. A ocasião era única e o repórter estava lá.

Francisco Othilio veste-se da condição de repórter-testemunha, aquele que vai para ver e conferir e depois narrar. Aquele que divide com o leitor a sua experiência. É o repórter em ação que transporta o leitor para o tempo da viagem no desenho de sua narrativa:

“Avaliai, caros leitores, quais não foram os sustos que rapei, vendo-me montado em um cavalo passarinheiro, que apenas tinha caminhado um quarto de légua, voltou outra vez por ver no princípio da descida da serra uns montões de pedras!!”

O jornalista registra os nomes dos lugares por onde passa, as pessoas, os tempos das chegadas e partidas. Também não faltam na reportagem os incômodos da viagem, seja a surpresa de uma hospedagem precária, pequenos incidentes ou as recepções festivas à autoridade maior, o presidente.

Foi o que aconteceu após um dos dias de longa viagem, quando “em desconto dos nossos pecados, ir dar com os ossos em um grande e imundo telheiro, que constitui a tão falada casa da fazenda do morro; porém que ao meu ver mais parece um asilo de cascáveis e jararacas do que habitação de homens. E era a residência de um comandante superior!”

E quando uma das ordenanças da comitiva, resolvendo mostrar suas habilidades de cavaleiro, acabou sendo vítima de um infortúnio. O cavalo desembestou e acabou atirando-o contra o alpendre de uma casa, “dando-lhe uma tão forte pancada que todos os julgamos instantaneamente morto; porém felizmente isso não aconteceu”.

Ele conta dos lugares. Sobre Assú, escreveu: “a sua localidade é bela, e a edificação, que de presente está amortecida, revela algum gosto. Situação ao norte do rio do mesmo nome, em cujas férteis margens se fazem muitas e variadas plantações, ela oferece mais amplos recursos para a comodidade da vida do que outros lugares, de que adiante falarei”.

Francisco Othilio não economiza na descrição da paisagem sertaneja. A subida à serra leva o repórter a unir ao jornalismo uma descrição literária:

“Um quadro o mais poético que se pode imaginar oferece de alguns pontos da serra todo o sertão que fica debaixo das vistas do contemplador. Figurai-vos de sobre um edifício de altura descomunal contemplando o azulado oceano semeado em grandes distâncias de muitos cachopos, bastante eminentes, e que refletidos nas sombrias horas da tarde pelos raios do sol variam de cores de momento em momento; e vereis o lindo painel que de vários pontos da chapada da serra se oferecem aos olhos daqueles que observam as maravilhas da natureza.”

Quando o jornalismo era artigo de fundo, notícias ligeiras, notas e alguns anúncios publicitários, o repórter-viajante Francisco Othilio andou pelo sertão e ousou propor algo completamente diferente e único nos jornais locais daquele século. Foi preciso esperar um século para ver algo parecido no jornalismo.

***

Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.

terça-feira, 17 de março de 2026

AQUELAS NOITES NO SERTÃO

 



* Honório de Medeiros


Naquelas noites, no Sertão remoto nordestino, a escuridão tomava conta do Sítio onde, à luz do lampião, no terreiro, meu Compadre – eu, menino, o tratava assim, e ele assim me tratava – reunia, no seu entorno, a família e os amigos, para ouvirem as estórias que faziam parte da antiga tradição oral dos nossos antepassados sertanejos, sempre acompanhadas de uma xícara de café quente, coado na hora, e bolachas pretas.

Às vezes havia luar e o mar de prata criava imagens fantasmagóricas nos arbustos lá fora, confins da luz; ao vê-las, instintivamente nos aproximávamos um pouco mais dos adultos, e somente relaxávamos quando a gargalhada do meu Compadre pontuava suas estórias.

Até então, ele tinha nos deixado, a todos, em permanente suspense, por um tempo aparentemente sem fim.

Decerto, nunca mais pude fugir de qualquer compromisso alegando uma mentira inocente sem recordá-lo, e a um desses “causos” que ele nos contou.

Dizia respeito a alguém do seu conhecimento, “parente distante”, que para fugir de uma obrigação social, jurou, por intermédio de um bilhete, estar em casa, de repouso, por motivo de doença.

Ao voltar de um forró onde se esbaldou a noite inteira, em outra localidade, mal apeou do cavalo escutou choro e lamentações, e seu pressentimento foi confirmado pelos fatos – ela, sua esposa, jazia, muito doente, nos braços das filhas.

Exposto assim parece pouco, quase nada, mas somente sabe acerca da magia sobrenatural daquelas noites quem as viveu no Sertão, à luz bruxuleante do lampião, céu estrelado, ouvindo, de quando em vez, dentre outros, o canto sinistro dos rasga-mortalhas.

Eram estórias de amores; assombrações; gestas; valentias; honras; ódios entre famílias; cangaceiros; botijas, descobertas por intermédio de sonhos que precisaram de uma sabedoria centenária para serem interpretados corretamente; raptos consensuais ou não; caçadas às onças, nas quais somente a habilidade espantosa do caçador o fazia escapar com vida; pescarias milagrosas; recuperações da saúde através de feitiços, poções ou orações de benzedeiras e curandeiros; vidências, estórias de maus-olhados e mandingas; secas e invernadas desmedidas; justiças divinas a corrigirem desmandos humanos; feitos com armas; aventuras de parentes e amigos nas terras desconhecidas da Amazônia, para a qual tantos tinham ido e não mais voltado; estórias dos segredos da Serra das Almas, onde foram encontradas as ossadas de vários homens ao lado de espadas, escudos, elmos, pepitas de ouro e outros apetrechos do tempo em que o Brasil era recém-nascido; e tantas outras...

Na forma arrastada com a qual meu Compadre as contava havia uma magia que prendia nossa atenção, uma sabedoria antiga da qual ele era herdeiro e na qual era mestre; havia alguém que cultivara a tradição, o dom de contar um “causo”, uma cadência hipnótica na voz, uma lógica precisa para o encadear das frases engastadas com palavras que o mestre Luís da Câmara Cascudo não hesitaria em classificar como egressas do puro português colonial, e que os folgados das cidades grandes alcunhariam de “matutês”, por pura ignorância.

O desfecho sempre apresentava uma lição de vida e, não raro, belas conclusões a externar uma apropriada observação acerca da natureza dos homens e seu destino de desprezar o caminho certo, a senda justa, a trilha verdadeira na vida, em troca das facilidades enganosas que o diabo apresentava, enquanto armadilhas, para a perdição da alma dos incautos.

Meu Compadre não era somente um contador de estórias sem igual e um dos últimos herdeiros daquela raça de titãs que colonizou o Sertão, alguém dotado de arguta percepção a respeito dos homens e das coisas, a quem eu escutava embevecido; também era uma fonte inspiradora para mim, a principal delas quando penso na cultura sertaneja, como se tudo quanto eu lesse acerca do tema precisasse ser confrontado com a memória de sua existência, para, em mim, adquirir a necessária credibilidade.

Ele também era um poeta, em um certo sentido muito próprio, alguém com o dom de dizer belamente, em momentos especiais, com tiradas de brilho incomum, algo que nunca brotaria, com facilidade, dos nossos corações e mentes.

Dele escutei, certa vez, quando falávamos da morte, rompendo um mutismo inabitual, que "a morte, para quem fica, é uma saudade sem esperanças". Acaso alguém poderia ser mais preciso e poético ao descrever esse sentimento?

De outra, referindo-se aos caminhos e descaminhos de um amigo comum, saiu-me com essa, aludindo à eterna vitória da esperança sobre a razão: "compadre, quem nos puxa mesmo é a mão da ilusão..."

Passaram-se os anos, muitos, desde então, e o pó do tempo escondeu impiedosamente muitas lembranças minhas dos tempos de menino.

Algumas, entretanto, sobreviveram. Vez por outra, por exemplo, eu me lembro daquelas noites no Sertão, e fico imaginando o quanto meu Compadre gostaria de escutar esta minha história (ou estória), acerca do seu dom de narrador.

Não por vaidade – nunca conheci ninguém tão simples, mas pelo inusitado, para ele, da recordação.

Pois se ele, quando se foi, há muito tempo, imaginasse que um dia alguém iria lembrar daquelas noites no terreiro de sua casa, no Sítio, Encanto, beiradas da Serra das Almas, Sertão profundo, à luz das estrelas, da lua, e de uma fogueira bruxuleante, daria uma grande risada com aquele jeito manso e ficaria muito satisfeito.


* honoriodemedeiros@gmail.com
* @honoriodemedeiros