* Gustavo Sobral
Foi preciso pegar o vapor para alguns dias depois desembarcar em alto mar, tomar um barco menor, descer numa praia deserta e subir num cavalo. Tudo isso com a missão de reportar. E foram 44 dias de viagem terra adentro.
Era 1861; o jornalista tomou as rédeas do cavalo e andou o sertão acompanhando a viagem do presidente da província àquele meio do mundo. O presidente ia averiguar a situação da província in loco e o jornalista registrar o que foi visto e vivido.
Foi comendo poeira, com sol a pino, à tardinha, à noite, ou mesmo viajando pela madrugada fria e tranquila; entre serras, açudes, rios perenes ou não, entre pousos em fazendas hospitaleiras e recepções com fogos, girandolas e banda de música.
O jornalista chamava-se Francisco Othílio Álvares da Silva e a reportagem “Recordações de viagem” foi publicada em partes no jornal O Recreio, entre 13 de setembro e 17 de novembro daquele ano. A província era o Rio Grande do Norte e o presidente, Pedro Leão Veloso.
O jornalismo naquele século estava vinculado aos vacilantes humores da política e envolvia o processo rápido de domínio de uma tecnologia nova, o prelo. Conhecimento especializado que partia do alfabetismo e passava pelo aprendizado técnico da composição e da impressão.
Marialva Barbosa fez um alerta importante: o estudo do jornalismo, no lugar de análises e ideias totalizantes, também deve se voltar para a particularidade das regiões, para as histórias localizadas em espaços específicos.
Se a totalidade dos jornais publicados se perdeu nos caminhos do tempo, ainda é possível ter acesso ao jornalismo que se praticava no passado nos exemplares remanescentes. Aqui está uma prova.
Jornais diversos circulavam na província naquele período. A imprensa no Império era livre, pois livre era a iniciativa para a criação de jornais e o conteúdo resumia-se a artigos de fundo, relatos de atas, leis e discursos. O Recreio era uma exceção.
Jornal literário, explorava em suas páginas textos dos literatos da província em crônica semanal, poesia, charadas, anedotas, epigramas, pensamentos, anúncios e outros textos diversos. E uma grande novidade: a reportagem de Francisco Othilio Álvares da Silva.
Naquele tempo reinava e imperava Dom Pedro II na estabilidade conquistada depois das últimas revoluções, moderando os gabinetes entre Liberais e Conservadores. A nomeação do governo para as províncias seguia a Constituição e o governo mandava um presidente para administrar a cada dois anos.
Isso era péssimo para as províncias, pois quando o cidadão começava a tomar pé da situação, já era hora de ser removido e mandarem outro. No entanto, o sacrifício de governá-la poderia trazer compensações futuras aos nomeados. Um cargo melhor depois, quem sabe.
Já a província carecia de tudo: estradas, edifícios públicos adequados, o ensino precisava de melhorias, a saúde era precária e viagens como essa não eram prática corrente. A ocasião era única e o repórter estava lá.
Francisco Othilio veste-se da condição de repórter-testemunha, aquele que vai para ver e conferir e depois narrar. Aquele que divide com o leitor a sua experiência. É o repórter em ação que transporta o leitor para o tempo da viagem no desenho de sua narrativa:
“Avaliai, caros leitores, quais não foram os sustos que rapei, vendo-me montado em um cavalo passarinheiro, que apenas tinha caminhado um quarto de légua, voltou outra vez por ver no princípio da descida da serra uns montões de pedras!!”
O jornalista registra os nomes dos lugares por onde passa, as pessoas, os tempos das chegadas e partidas. Também não faltam na reportagem os incômodos da viagem, seja a surpresa de uma hospedagem precária, pequenos incidentes ou as recepções festivas à autoridade maior, o presidente.
Foi o que aconteceu após um dos dias de longa viagem, quando “em desconto dos nossos pecados, ir dar com os ossos em um grande e imundo telheiro, que constitui a tão falada casa da fazenda do morro; porém que ao meu ver mais parece um asilo de cascáveis e jararacas do que habitação de homens. E era a residência de um comandante superior!”
E quando uma das ordenanças da comitiva, resolvendo mostrar suas habilidades de cavaleiro, acabou sendo vítima de um infortúnio. O cavalo desembestou e acabou atirando-o contra o alpendre de uma casa, “dando-lhe uma tão forte pancada que todos os julgamos instantaneamente morto; porém felizmente isso não aconteceu”.
Ele conta dos lugares. Sobre Assú, escreveu: “a sua localidade é bela, e a edificação, que de presente está amortecida, revela algum gosto. Situação ao norte do rio do mesmo nome, em cujas férteis margens se fazem muitas e variadas plantações, ela oferece mais amplos recursos para a comodidade da vida do que outros lugares, de que adiante falarei”.
Francisco Othilio não economiza na descrição da paisagem sertaneja. A subida à serra leva o repórter a unir ao jornalismo uma descrição literária:
“Um quadro o mais poético que se pode imaginar oferece de alguns pontos da serra todo o sertão que fica debaixo das vistas do contemplador. Figurai-vos de sobre um edifício de altura descomunal contemplando o azulado oceano semeado em grandes distâncias de muitos cachopos, bastante eminentes, e que refletidos nas sombrias horas da tarde pelos raios do sol variam de cores de momento em momento; e vereis o lindo painel que de vários pontos da chapada da serra se oferecem aos olhos daqueles que observam as maravilhas da natureza.”
Quando o jornalismo era artigo de fundo, notícias ligeiras, notas e alguns anúncios publicitários, o repórter-viajante Francisco Othilio andou pelo sertão e ousou propor algo completamente diferente e único nos jornais locais daquele século. Foi preciso esperar um século para ver algo parecido no jornalismo.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.