Por Gerard Mansoif
* Honório de Medeiros
A arte também é um discurso acerca do Real.
O conteúdo de sua manifestação, através da forma, discursa em linguagem peculiar, fragmentariamente, acerca da totalidade da "coisa-em-si" (a poesia fragmentária de T. S. Elliot é densa, filosoficamente).
Importa observar que a densidade da manifestação artística está diretamente proporcional ao conteúdo, e a dialética mecanicista do observador na fenomenologia do objeto-arte, esvai-se na constatação dedutiva da forma como consequência, jamais como causa.
Ou seja, o conteúdo antes, como idéia-impulso, a forma depois.
Constitui obstáculo epistemológico entregar, à produção artística, o aspecto de algo produzido, enquanto inconsciente, aos devaneios apriorísticos do artista.
Isso é a chamada escatologia das entranhas da psique.
Ao contrário, a razão elabora aquilo que a emoção estética sugere tecendo, a partir do fragmento exposto, a cosmovisão racional do artista, quer ele queira, quer não.
O artista, então, apropria-se do real, e discursa acerca dessa apropriação. Apropriar-se é semelhante a apreender.
Quando ocorre, significa que lhe pos o limite do seu próprio limite e constituiu um estatuto artístico enquanto ser-que-observa, critica (consciente ou inconscientemente) e fala (sentido "lato") quanto ao objeto observado ou intuído.
Assim a dialética da arte é a luta do ser-que-observa com o algo-a-ser-observado, veiculada através de uma linguagem peculiar.
A arte, óbvio, diz algo acerca de algo, mesmo que esse algo seja palco de muitas dúvidas quanto ao ponto de partida para sua elaboração.
Afinal, o objeto envolve com sua beleza intrínseca ou é envolvido com a arte? Ou interagem?
A essência da discussão submerge na metafísica, embora a construção artística adense-se na medida de uma crítica racional, em busca da verdade.
Essa busca é infinita (não há verdade absoluta em arte, como não há em campo algum do conhecimento humano, porque a descoberta parcial altera as condições do futuro a ser descoberto).
É necessário uma metafísica dos pressupostos de uma crítica racional da arte.
O ponto-de-partida seria a densidade da intuição racionalizada (posta em discussão; sobrevivente à interação com o meio intelectual), exposta e observada tendo-se em conta o conteúdo da forma.
Criar-se-ia, então, uma tipologia e uma fenomenotécnica ímpar, que observará poemas como este, à luz de uma perspeciva clara e simples, constratando com decursos vazios e sem nexo
finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado
Em 1694, Basho (Trilha Estreita ao Confim; São Paulo: Iluminuras; 1997) deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos lhe pedem que faça o poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o "poema de morte". Na mesma noite tem um sonho e, ao acordar, escreveu seu último poema, exposto acima.
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