sexta-feira, 26 de junho de 2015

A TRINCHEIRA DE EZEQUIEL FERNANDES QUANDO DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ

* Honório de Medeiros

Ocorreu que Raimundo Nonato Alfredo Fernandes, nascido na fazenda “Cantinho”, ali entre Pau dos Ferros e Encanto, no Alto Oeste do Rio Grande do Norte, em 2 de junho de 1910, estando na roça, no apogeu dos seus quinze anos, encostou no terreiro de sua casa um Ford 1922 com duas pessoas dentro: seu primo Elias Fernandes, irmão de Alfredo Fernandes, proprietário da empresa homônima em Mossoró, no mesmo Estado, e da residência na Avenida Getúlio Vargas vizinha a celebre casa do Coronel Rodolpho Fernandes, de quem era cunhado, que hoje é a sede da Prefeitura da Cidade, e um motorista ao volante, o depois cangaceiro que participou dos ataques a Apodi e Mossoró e que atendia, na época, pelo nome de Julio Porto.

Elias vinha convidá-lo para ir trabalhar na empresa Alfredo Fernandes, a convite do seu proprietário.

Atentemos para o detalhe: em 1922 Júlio Porto, natural de Aurora, no Ceará, já conhecia, e bem, Mossoró, onde era motorista dos Fernandes.

Elias e Alfredo Fernandes eram filhos do Coronel Adolpho Fernandes, protagonista do “Fogo de Pau dos Ferros”, quando sua família, por ele liderada, expulsou o líder político Coronel Joaquim Correia da cidade, em 1919. O Coronel Joaquim Correia jamais voltou a Pau dos Ferros. E o Coronel Adolpho Fernandes era seu Prefeito (Intendente) quando Lampião atacou Mossoró.

Passam-se cinco anos. Estamos em 1927. Junho. No dia 13, Lampião invade Mossoró. No final da Rua hoje denominada Dr. Francisco Ramalho, no sentido de quem vai para o centro da cidade, na última residência, do lado direito, reside Ezequiel Fernandes de Souza, sobrinho do Coronel Adolpho Fernandes e sócio de Alfredo Fernandes. Nela, a poucos passos da Igreja de São Vicente, montou-se uma tosca trincheira para aguardar os cangaceiros. 

Sob a liderança de Ezequiel Fernandes lá estava sua esposa Ester, que havia dado a luz, e padecia de febre puerperal, o chofer de um caminhão da Prefeitura que aguardava condições para retirá-la da cidade, mas que fugiu tão logo aconteceu os primeiros tiros, um freguês da empresa Alfredo Fernandes chamado de “Velho Chico”, um amigo da família, Maurílio, que lá estava porque tinha raptado Isabel, sobrinha de Afonso Freire e a depositado sob os cuidados dos donos da casa. Os demais, quinze pessoas, recolheram-se em um quarto no centro, no entorno da cama da doente: Ezequiel Fernandes, Pedro Ribeiro, seu primo, seus filhos Laete, Luís e Aldo, Chico Sena, seu sobrinho, Isabel, as domésticas Leonila e Esmerinda, as vizinhas Maria Leite e sua filha Laura, Julieta, filha de Delfino Fernandes, Alzenita Fernandes e Raimundo Fernandes, então com vinte anos.

Os integrantes da trincheira, que se posicionaram no telhado da residência foram o “Velho Chico” e Maurílio. 

Dessa vez Raimundo Fernandes não chegou a ver Julio Porto, mas o ex-motorista estava com os cangaceiros de Lampião e Massilon no ataque a Mossoró.

Ester Fernandes não resistiu à doença e faleceu quatorze dias depois, no dia 27 de junho, cercada pela família.

Tudo aqui contado conforme o livro “RAIMUNDO FERNANDES, ANTEPASSADOS E DESCENDENTES”, da lavra de Inês Maria Fernandes de Medeiros, ainda a ser lançado, tiragem de junho de 2015, sem outras informações acerca de sua edição, com alguns acréscimos do autor do artigo. 

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